segunda-feira, 17 de julho de 2017

Pediatra Cacá fala sobre os primeiros dias de vida do bebê - Ao Vivo para a Revista Crescer

Pediatra Cacá fala sobre os primeiros dias de vida do bebê



O que acontece com seu filho logo depois que ele nasce e quais são os principais cuidados? Cacá esteve na redação da Revista Crescer para responder questões dos internautas e conversar sobre a chegada do bebê e os cuidados pós parto! 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Encontro com Cacá no SESC Pompéia!

Na última semana tivemos o enorme prazer de participar de um potente encontro familiar, pelo Projeto Afetos, uma iniciativa do SESC.

São conversas, vivências e oficinas destinadas às mães, pais, familiares e responsáveis por crianças na primeira infância. Realizados uma vez por mês no Espaço de Brincar, os encontros tem enfoque em temas relacionados à maternidade, gestação, cuidados e educação de bebês e crianças pequenas.



Começamos nosso encontro como uma vivência sensorial, inspirada em uma atividade antiga do Ministério da Saúde, que costumo trazer de volta de tempos em tempos, que tem como objetivo colocar o adulto no lugar de alguém que está sendo cuidado. Uma ação objetiva para o despertar empático da vivência do bebê enquanto pequeno ser totalmente dependente de nossas atitudes.Chama-se atelier sensorial.

De olhos fechados, algumas mães receberam estímulos sensoriais com diversos materiais. Você já viveu essa experiência? De ser tocado por um objeto que não sabe do que se trata? De escutar um som que poderia ser um acalento, mas que de repente te assusta? De ter um alimento colocado na sua boca sem saber exatamente o que é, e nem ter a chance de entender se gosta dele ou não?



Após a pequena vivência, pudemos conversar em grupo como esse momento do cuidado com o bebê é um lugar de desconhecidos, mas com grandes oportunidades de reconhecimento. "Vou pegar você, vou tirar a sua fralda, agora é hora de usar o algodão molhadinho..." às vezes as pequenas narrativas orais, uma coisa tão natural para o mundo dos adultos, são esquecidas no cuidado dos pequenos. Por que?

Vamos resgatar a consciência de que estamos tratando com pessoas como nós?

Em seguida, pudemos abrir a roda para uma grande oportunidade de conversa com as mães e pais presentes. E adivinha? Os temas que apareceram parecem ser aqueles mais constantes também no consultório. O que confirma nossa experiência prática: a mater-paternidade é uma vivência de aspecto coletivo, muito embora o tempo todo estejamos nessa valsa de olhar para as questões individuais.



Trago aqui algumas das reflexões que tivemos:

Uma mãe de recém nascido relata dificuldades com amamentação. Ela está consumindo informação de grupos de apoio ao aleitamento mas sente-se preocupada em não atingir um ideal proposto, onde ao bebê não poderia de maneira alguma ser oferecido complemento de leite artificial. Ela luta com a relactação como forma de manter o bebê exclusivamente no seio materno, mas em coletivo, demonstra ganhar a consciência de que as histórias de aleitamento também passam por questões extremamente individuais.

Refletimos sobre limites: qual é a necessidade daquele bebê? É verdade que se ele for para a mamadeira poderá desistir do peito? Qual é a disponibilidade emocional dessa mãe de se manter em estado de investimento constante para a amamentação, quando relatou que ainda luta com as dificuldades que teve no parto?

Para além das respostas certas, na temática da amamentação, é sempre desejável procurar as perguntas certas. 

Em seguida, uma mãe relatou que o pai do bebê sente-se com muita vontade de participar dos cuidados básicos, insistindo em dar sucos ou chás na mamadeira. O bebê tem quatro meses e a mãe não se sente confortável com essa necessidade do marido.

Nada está perdido! No desejo desse pai, há um grande pedido de participação. Claro que para um bebê que cresce bem, em aleitamento exclusivo e cuja mãe está totalmente disponível para assim o manter, não há a necessidade de sucos ou mamadeiras. Será que o banho no colo poderia oferecer para o pai a oportunidade de contato visceral que ele procura? Já pensaram em massagens ou até mesmo em delegar todo esse momento íntimo do banho como forma de criação de vínculo com ele?

Depois ouvimos um pouco sobre os dilemas da mulher que, injustamente em nossa sociedade, precisa criar antecipadamente novos recursos para se separar do filho e voltar ao trabalho. É o fim da licença de quatro meses: meu bebê vai ficar bem? 

Novamente, tentamos sempre olhar para as situações não ideais como momentos ideais para NOVAS oportunidades de crescimento para a família toda. Nos bebês que vão para a creche, ou ficam com um cuidador, ou vão para a casa da avó, encontramos também felicidade. Sim, se amados e bem cuidados eles ficarão bem! Nessa mulher que sofre a separação, poderemos enxergar a força de reconstrução de uma nova vida: essa nova mulher gosta desse trabalho? Ele é importante para essa família? Existe a possibilidade de mudar? Ela quer essa mudança?

Fizemos uma pequena jornada de reconhecimento também desses pequenos privilégios, de estar em um lugar onde se as possibilidades existem, devemos aproveitá-las. Se não existem, estamos vivendo aquilo que nos é possível. Sem dúvida, a maternidade possível é mais sadia do que a luta para a vivência da maternidade ideal.

Eis que chega o tema de ouro: meu bebê não quer comer!
Percebemos que quando tratamos de parto, cuidados básicos e amamentação, estamos ainda muito focados em um protagonismo do adulto. Aquele que decide como, quando, onde vai executar as coisas, e que de alguma forma (que pode ser empática ou não) envolve a criança em seus projetos sem muita escuta.
Mas quando um bebê cresce e começa comer, vemos uma pequena disputa de protagonismo: agora ele pode fechar a boca, dizer não, recusar a comida!

O tempo todo dialogamos com o ideário da boa mãe. A boa mãe é aquela que tem um filho que dorme bem, come bem, não dá trabalho. Está incutido em nosso inconsciente coletivo de que esses RESULTADOS significam uma boa atuação materna. Só que não!

É urgente desconstruir o mito da boa mãe, exatamente para preservar também a saúde da criança.
Confiamos nesse bebê como uma pessoa que sabe se tem ou não tem fome?
Que entende o momento da refeição, não como nós adultos, calculando calorias e quantidade de sódio, bem como balanceamento nutricional, mas como uma experiência sensorial de afeto, prazer e de ser e estar no mundo?

Vimos mães carinhosas, abertas, dispostas, preocupadas.
Mães que dão peito e que dão mamadeira. Que cortaram o açúcar ou que não entraram nessa questão. Mas todas elas, boas mães, na medida que constroem relações de cuidado com seus filhos considerando que são relações de humanidade. Hora serenas e plenas, hora extremamente desgastantes.

A abordagem da pediatria, na  minha ótica, tem que ser essa.
Um trabalho de construção de confiança na potência de todos os indivíduos envolvidos.





sexta-feira, 9 de junho de 2017

4 coisas que toda mãe e pai precisam saber sobre febres, gripes e resfriados

Foto do site do Ministério da Saúde

1) A febre pode ser um sintoma positivo. 

"A febre, em princípio, é sempre boa. Ela tem um papel fundamental na dinâmica do nosso sistema imunológico, ativando a liberação de anticorpos e de outras substâncias de defesa que vão permitir ao organismo lidar com possíveis “invasores”. Hoje sabe-se que é esse mesmo calor que inibe o crescimento de bactérias e aniquila os vírus, ou seja, o calor põe tudo no lugar, renova o organismo. Isso já foi amplamente reconhecido pela comunidade científica tradicional. A cultura do medo da febre e a tendência de combatê-la rapidamente instalaram-se em nossa sociedade nos últimos 50 anos em virtude de uma grande estratégia de marketing da indústria farmacêutica. Considero esta tendência muito nociva para a nossa saúde. Em minha opinião, a febre é um fenômeno relacionado ao desenvolvimento da nossa individualidade. Essa é a grande tarefa da febre na nossa vida. E não é à toa que a maioria dos episódios febris ocorre do nascimento até os 7 anos."

De acordo com Samir Rahme, ex-presidente da SBMA e médico antroposófico com muitos anos de experiência – muitos deles dedicados à compreensão do papel da febre no equilíbrio de nossos processos vitais.

2) As doenças podem ter origens emocionais necessárias para o crescimento

"Ficar doente e ter febre gera uma desorganização corporal que possibilita a reorganização, ou seja, crescimento. Quando ela tem que fazer a adaptação do seu ritmo biológico individual com sua rotina, ou seja, comportamento social, pode surgir o adoecer. Esse é um dos motivos que faz pensar o porquê das crianças adoecerem quando começam a ir para escola. Será uma experiência grupal aonde a individualidade terá que conviver com a sociabilidade", analisa Cacá em um pequeno artigo sobre as doenças da infância.
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3) Agasalhos e proteção ao frio não previnem doenças

O tempo frio aumenta a incidência de crianças com febre e doenças respiratórias porque é uma condição apropriada para os vírus. Mas o frio em si não causa nenhuma doença. De acordo com Dráuzio Varela:  "A partir dos anos 1950, foram realizadas diversas pesquisas para avaliar a influência da temperatura na incidência de gripes, resfriados e outras infecções das vias aéreas. Nesses estudos, geralmente realizados nos meses de inverno rigoroso, os voluntários foram divididos em dois grupos: no primeiro, os participantes passavam o tempo resguardados em ambientes com calefação, sem se exporem à neve ou à chuva. No segundo grupo, os participantes eram expostos à chuva, à neve e aos ventos cortantes. Nenhum desses trabalhos jamais demonstrou que a exposição às intempéries aumentasse a incidência de infecções respiratórias. Ao contrário, diversos pesquisadores encontraram maior frequência de gripes e resfriados entre os que eram mantidos em ambientes fechados."


4) Doenças são oportunistas e não gostam de contentamento

Como relata Sônia Hirsch: "Escrevi para minha amiga Lena Peres, médica infectologista, que respondeu: “A melhor recomendação é evitar aglomerações, fazer uma boa hidratação e cultivar o contentamento – virtude que aumenta as defesas do organismo.”
Grande sabedoria!

O ar que circula num ambiente cheio de gente não é mesmo lá grande coisa, e pode sim estar cheio de agentes irritantes para as mucosas do pulmão, além de micróbios de todo tipo e tamanho.

Boa hidratação significa água em quantidade, água que limpa, lava, refresca, ajuda a renovar as células e é essencial à vitalidade de todos os tecidos, inclusive respiratórios.

E o contentamento, bem... O contentamento é simplesmente uma das chaves da vida (...) Gripes acontecem quando o estado geral de cansaço, poluição e muco interno transborda. As mucosas já estão inflamadas. É isso o que dá oportunidade ao pobre do vírus, coisinha ridícula que nem corpo tem, e a bichos maiores e mais ocultos, diria mesmo ocultíssimos, como lombrigas, amebas, giárdias, solitárias, estrongiloides, oxiúros, tricuros, fascíolas e muitos mais, que se estabelecem em qualquer parte de nós e se multiplicam, com larvas que muitas vezes atravessam o delicado tecido do pulmão e coisas piores. Qualquer pneumonia sem causa óbvia obriga a investigar a "síndrome de Loefler", ou: presença de infestação  por helmintos possivelmente afetando o pulmão."

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Atitudes pacificadoras para o choro do bebê

No último texto fizemos uma jornada de reflexão acerca do choro do bebê na nossa cultura: entre cólicas e sinais de desconfortos aparentes, passando pelas razões do choro e as oportunidades de criação de vínculo entre pais e filhos, dentro inclusive, das ocasiões de descontentamento. Se manter no papel de adulto talvez seja um dos primeiros e maiores desafios dessa jornada de nascer como mãe e pai.

Hoje pensei em trazer um pouco da minha experiência prática com esse difícil assunto, elencando atitudes pacificadoras:

Consciência de aprendiz
Em primeiro lugar, quero destacar que tenho muito  quer aprender. Nós, os adultos, temos muito o que aprender quando se trata das sutilezas da vida humana em um momento tão singular que é a chegada de uma nova vida ao mundo e a construção de uma nova família. Estamos aprendendo a ser pais , tios ,avós e toda uma constelação de relações humanas a partir do bebe.

No entanto, uma das minhas bases de atuação versa sobre a potência desse estado de aprendizado. Quando nos sabemos aprendizes das situações que vivemos, legitimamos a construção de novos caminhos. E TODOS os caminhos de construção de vínculos entre os bebês e seus pais são verdadeiros. O choro do bebê é uma oportunidade potente nessa visão. Já que na nossa sociedade o choro se configura como forma de comunicação entre o bebe e seus pais.

Carregadores de Pano
Aprendi também que o uso de carregadores de pano são positivos aliados nessas situações. Não só porque resgatam a prática ancestral do contato físico, indispensável para esse bebê e para esse adulto encaminhando para a construção de vínculos. Mas também por terem comprovadamente benefícios pacificadores para as duplas.



Toques e Massagens
Todos caminhos que levam a construção de vínculos que se constroem pela observação e contato físico com o bebe são os mais poderosos em lidar com o choro do começo. Na ótica da proximidade física entre adultos cuidadores e seus bebês, as massagens e toques não podem ficar de fora. A experiência de mães e pais, profissionais de saúde e médicos pediatras comprova. Apesar de tecnicamente muito se falar na massagem como uma forma de "aliviar dores" e "melhorar o intestino" do bebê, cabe lembrar que o contato afetuoso carrega também vantagens de ordem psico-emocional, que norteiam o estar do bebê e do adulto à partir da esfera sensório-motora: uma questão muitas vezes esquecida nas sociedades contemporâneas que gostam de explicações científicas e cognitivas para tudo. Estamos falando de prazer aqui!


Banhos Prazerosos
Por mais incrível que pareça, o bebê não necessita de banhos com finalidades meramente higiênicas. O momento do banho é um momento de cuidado, que o bebê entende como amor. O bebê entende tudo como o amor que ele quer receber. Portanto, o momento do banho pode ser gostoso o prazeroso. Contradizendo a prática atual das banheiras, que coloca o bebê  pequeno muitas vezes de corpinho exposto em um espaço-gravidade estranho de entender, a minha experiência mostra que o banho de chuveiro no colo de pai e mãe ou o banho de balde, muitas vezes aliado à contenção do cueiro, tem resultados efetivos nessa sensação de prazer. Bebês pequeninos normalmente preferem esses banhos. Os bebês mais velhos que gostam de brincar na banheira, experimentar a água e sentem-se felizes em bacias.


Charutinho e contenção
No último texto, refletimos como muitas vezes diante do choro do bebê os adultos se paralisam e tendem a não tomar nenhuma atitude, entrando em uma espiral de desespero que notoriamente não tem benefício nenhum. Eu gosto de lembrar: o bebê é uma pessoa! Ele está ali, presente no momento do choro em seu corpo, mente e sentimentos. O casulo, charutinho e outras espécies de contenção também são atitudes que pacificam esse estado, por promoverem um contorno, por convidarem tanto o adulto como o bebê a sentirem-se presentes, existentes. Além de é claro, comprovadamente aportarem ao bebê a memória intrauterina: um espaço contido, e não e imensidão daqui de fora. Que convenhamos, é apavorante até para os grandes.



Movimento e Chiado

Aliados aos carregadores de pano ou ao colo mater-paterno, estar em movimento com o bebê que chora é também uma atitude pacificadora. É comum, naquele momento de cansaço e paralisia do adulto, que ele se esqueça do ato ancestral de NINAR seu bebê. Vemos cuidadores desesperados que muitas vezes recorrem à uma chupeta por exemplo, antes mesmo de propor uma pequena dança pela sala, ou uma cantiga de ninar. Acho que aqui estamos falando do quanto podemos nos arriscar e nos entregar nas atitudes que promovam vínculo, ao invés de escolher atitudes que possam nos separar. Em combinação com o chiado, suaves canções ou ruídos que promovam uma concentração da dupla para algo além dos seus próprios desesperos, são sempre uma boa ideia.Devo lembrar também que o uso de redes para dormir ou algum tipo de berço que balance como a rede é visto desde as índias brasileiras,passando pelas andinas ate o extremo oriente. Balançar faz parte da cultura mundial de cuidar de bebes.


Amamentação, Sucção e Livre Demanda
Um pediatra americano, como é costume dos americanos, nomeou uma técnica de acalmar o choro do bebê baseada em 5 etapas que em inglês começam com a letra S: Swaddle, Stomach Position, Shush, Swing, Suck. Na ordem, a contenção, a posição lateral ou verticalizada (em oposição a deixar o bebê deitado de costas), chiado, balanço e sucção. Aqui quero pontuar que o instinto de sugar é inerente ao bebê - e é o que garante a sua sobrevivência. A amamentação em livre demanda, ou seja, quando o bebê pede (e ele pede de várias maneiras, não apenas chorando), é uma forte aliada na construção do vínculo, não apenas da saúde e estabelecimento pleno da amamentação. Exatamente porque para além do alimento, o bebê gosta e precisa sugar. Alguns bebês precisam sugar mais, outros bebês encontram seus dedinhos e sugam, e há aqueles que só se confortam no seio materno. Há sempre a opção da chupeta, que é também um recurso legítimo nesse processo. Mas sempre com a consciência de que se trata de um mediador dessa relação física entre mãe e filho, que pode ser muito útil no momento de choro, mas pode também a longo prazo, trazer outras questões para serem observadas depois, quando invariavelmente esse bebê precisar se livrar do hábito de sugar a chupeta. Precisamos também pontuar que a sucção não nutritiva para bebês pequenos pode representar algum prejuízo para o estabelecimento da saúde desse bebê e também para a amamentação. Gosto de pensar que a chupeta é um recurso para os pais. E não para o bebê. Colocando também que é da mulher, a dona desse corpo que não pode ser esquecido da equação, encontrar o limite de ser sugada e quando. Claro, não é tarefa fácil.


Contato visual e conversa
Um bebê chorando normalmente cerra os olhos com força. Fabrica seu próprio som de descontentamento que o deixa longe do contato com o mundo. Ele fica lá, no mundo interno do choro. Se a busca para esse encontro de vínculo passa pelo corpo, não vamos esquecer dos olhos e da visão desse bebê. Minha experiência mostra que quando o bebê sai do estado do choro, seus olhos abrem e ele espera encontrar amor e contato. Isso se dá pelos olhos também, é hora de iniciar uma conversa. Bebês adoram balbucios e adultos que falem sua língua! Vocês vão se surpreender, se tentarem conversar com seus bebês, como eles são capazes de se comunicar de várias formas, que não o choro. Eles franzem as sobrancelhas, arregalam os olhos. Mesmo os pequeninos - a quem não é creditada a felicidade através dos sorrisos, que injustamente são chamados de reflexos - são eficientes em comunicar felicidade. Sorriem sim! Mostram a língua, estalam, falam, imitam as caretas dos adultos e gostam de tudo isso. Pronto, não estão mais chorando.




Arriscar-se nesse caminho de muito contato e, portanto, muito vínculo, na minha opinião é o que mais ajuda. Aprender desde o começo que quando chora, o bebe está te chamando e o que ele quer é você! Talvez o mais difícil aprendizado!

terça-feira, 23 de maio de 2017

O Choro do Bebê : Cólicas e tudo mais que podemos revelar

Hoje vamos pensar um pouco sobre o choro do bebê.



Desde que comecei a trabalhar com bebes saudáveis em alojamento conjunto entendi que não bastava treinar a equipe para falar de aleitamento materno. O choro do bebê era o tópico mais importante, pois o que levaria ao uso de chupetas, outros leites, mamadeira ou não acreditar na própria capacidade de amamentar seria o choro do bebê. Portanto conversar sobre como lidar com esse choro e que chorar não significa sempre fome era o nosso desafio. Poder dizer para as mulheres que elas poderiam dar conta do bebê era (e ainda é!!!) nosso maior desafio.

Bebês choram. E podem chorar muito! Por muitas vezes nós adultos cuidadores nos vemos ansiosos por uma explicação para a razão de tanto choro, do alto da nossa crença de que choro é sinal de coisa ruim. A justificativa mais aceita para o choro do recém nascido são as cólicas. Seriam aquelas crises de choro inconsolável, onde o bebê demonstra muita irritação, contorce o corpinho. Aceitamos com mais naturalidade o choro do bebê se ele for justificado por algum tipo de dor.

- É dor mesmo, agora eu sei , pois ele esticava as perninhas e se retorcia todo.

Infelizmente é muito difícil definir se é ou quando é dor mesmo. Acho bonito e importante tentar fazer uma leitura mais corporal do bebê, mas contamos com uma grande dificuldade. Geralmente não sabemos muito sobre o bebê.

Conhecemos que um bebe nos seus 2 a 3 meses tem um repertório motor limitado pelas respostas reflexas e não voluntárias. Quero dizer com isso que bebes que se esticam e jogam a cabecinha para traz estão repetindo o que fazem (ou deveriam fazer) no trabalho de parto. Esse movimento está no repertório motor dos reflexos e não da consciência deste bebe.

O que não afirma e não impede que esteja vivendo algum incomodo. Mas nos faz pensar que é um tanto mais difícil observar e relatar o que esta acontecendo nos primeiros meses de vida.

Vamos ler um pouquinho do que diz a Sociedade Brasileira de Pediatria sobre as cólicas do lactente: 

Cólicas do lactente 

Departamento de Aleitamento Materno da SBP

A cólica do bebê é transitória e aparece geralmente na segunda semana de vida, acabando em torno do quarto mês, em uma criança saudável. A cólica pode durar até três horas por dia e normalmente acontece no final da tarde ou à noite. Além do choro, o bebê fica irritado e agitado.

Como diferenciar o choro por cólica do choro de fome


O bebê chora por diversas razões: fome, frio, sono, calor, dor, incômodos por fralda molhada ou apertada ou até porque quer aconchego e carinho. Com o tempo, a mãe vai aprendendo a identificar o motivo de choro do seu bebê. No entanto, a criança que chora por fome se acalma assim que mama. Isso não acontece quando o choro é por cólica.

Como evitar as cólicas

Tente manter a calma e lembre-se que as cólicas acontecem em um bebê saudável e que vão passar em poucos meses. A ansiedade da mãe não ajuda a acabar com a cólica, mas algumas ações podem amenizar a dor:

- um ambiente tranquilo e uma música suave ajudam a relaxar mãe e filho;
- um banho morno também ajuda a descontrair;
- movimentos nas pernas do bebê, como “pedalar no ar” podem auxiliar a eliminar o excesso de gases;
- massagem na barriguinha do bebê, sempre no sentido horário, mobiliza os gases;
- compressas mornas na barriguinha com toalhas felpudas passadas a ferro têm efeito analgésico (teste antes o calor da toalha em sua própria face).

Porém, o mais importante é ter paciência para acalmar o bebê, aconchegando-o no colo, barriga com barriga, ou apoiado de bruços na extensão do antebraço dos pais.

Oferecer chá ao bebê não acaba com a cólica e pode prejudicar a amamentação. 
Remédios “contra gases” têm pouca eficácia.



Relação entre cólica e dieta materna


As causas das cólicas do primeiro trimestre não são bem conhecidas, mas parecem ter relação com uma relativa imaturidade do bebê; e vão melhorar com seu crescimento, sem deixar sequelas.

A alimentação materna como possível causa da cólica ainda é controversa. A cólica pode ocorrer tanto em bebês amamentados no seio quanto naqueles amamentados com leite de vaca (fórmulas). Entretanto, existe a possibilidade de alguns alimentos (leite de vaca, soja, trigo, nozes) passarem para o leite materno e provocarem cólicas. No entanto, esses alimentos só devem ser retirados da dieta da mamãe caso as cólicas estiverem associadas com outros sintomas gastrintestinais que indiquem alergia alimentar, como a presença de rajas de sangue nas fezes do bebê.

Ao primeiro sinal de sangue nas fezes do bebê, seu pediatra deve ser consultado imediatamente.

E lembre-se, o ideal é prolongar ao máximo o aleitamento materno porque o leite de vaca tem alto poder de causar alergia.



Para mim entendo que a SBP conta que cólica existe e é comum nos primeiros meses e vai passar. Não se desespere pois vai passar!

Nesse momento tive uma percepção de quantas vezes eu tentei em vão dizer que o choro com hora marcada, geralmente final da tarde, começo da noite não deveria ser de dor física, já que dor física não tem horário para acontecer. Será que ajudei ou atrapalhei tentando desfazer o mito da cólica do bebe, e não deixando algo que preenchesse este lugar?

Por mais aceitável que a justificativa de cólica nos acalme como adultos, nem sempre o bebê chora de dor. Bebês choram e podem chorar muito. Ressignificando as experiências do choro e tentando encontrar mais disponibilidade para rever nosso conjunto de crenças podemos observar o choro como forma de comunicação do pequenino humano, que trava sua própria jornada de adaptação à vida extra uterina.

Lendo este texto da SBP que valida a percepção dos pais que se trata de uma cólica e portanto merece compressa quente e massagem senti que poderia me aproximar mais destes pais que devem estar bem assustados com este bebe que chora tanto. Porem me ficaram algumas duvidas como se merece um uso de remédio já que o choro é cólica (sabemos de uma longa lista de remédios utilizados por mães de bebês nos primeiros meses por conta de cólica e que a maioria não terá muita eficiência). Vou então buscar outras referencias sobre o choro do bebe.

Vamos ver um trecho sobre o choro da Enciclopédia sobre desenvolvimento da primeira infância

Qual é sua importância?


O choro é um meio de comunicação importante que os bebês dispõem no início da vida – do nascimento aos 3 meses de idade. Nesse estágio de seu desenvolvimento, os bebês são quase inteiramente dependentes de cuidadores para atender suas necessidades. Consequentemente, o choro na infância pode assumir um papel importante para garantir a sobrevivência, a saúde e o desenvolvimento da criança. 

A quantidade aumentada de choro entre bebês saudáveis no mundo ocidental é atualmente reconhecida em todos os bebês nas primeiras semanas de vida, isto inclui chorar por períodos prolongados de tempo sem nenhuma razão aparente, uma característica praticamente única dos primeiros meses de vida. De fato, não é incomum que um bebê normal chore entre uma e cinco horas por dia, com um pico nos dois primeiros meses de vida.


Em menos de 5% desses bebês existe alguma evidência de doença orgânica que ajude a explicar o aumento de ocorrência de choro. Além disso, o choro prolongado ocorre a despeito da ótima qualidade dos cuidados parentais. Felizmente, depois dos cinco meses diminuem os períodos prolongados de choro inconsolável, o choro torna-se mais intencional e mais relacionado a eventos ambientais.


No entanto, o choro persistente, principalmente quando associado a problemas de sono e de alimentação que persistem depois dos quatro meses, muitas vezes em contextos que envolvem múltiplos fatores de risco psicossocial dos pais, pode ser preditivo de desenvolvimento social e emocional insatisfatório do bebê. 


O que sabemos?


Todos os bebês choram, mas grande parte desse choro é inexplicável. As explicações geralmente atribuídas ao choro do bebê são dor, fome, raiva e tédio. O aumento de choro excessivo inexplicável nos três primeiros meses em bebês que, à exceção disso, são saudáveis, é frequentemente denominado “cólica infantil”. Dependendo da definição, diz-se que a cólica afeta cerca de 10% a 20% dos bebês nessa idade. Uma característica evidente é que a cólica tende a seguir um padrão de aumento nos dois primeiros meses, chegando a um pico em seis semanas, e normalmente diminuindo aos 4 ou 5 meses de vida. No entanto, esse padrão aplica-se a todos os bebês, quer seu choro seja ou não considerado “excessivo”, e é reconhecido atualmente como a “curva normal do choro”. Durante esse período, os surtos de choro podem ocorrer sem razão aparente, são difíceis de acalmar, e muitas vezes duram em média entre 35-40 minutos, ou até duas horas. Ocorrem em geral no fim da tarde ou no início da noite.

Frequentemente, afirma-se que bebês cuja inquietação persiste no decorrer da primeira infância, ou piora depois dos quatro meses, têm temperamento difícil. Pode não ser fácil diferenciar o choro relacionado à cólica infantil do choro relacionado a temperamento difícil. A principal diferença é que, nos episódios de cólica, os surtos de choro diminuem com o tempo, ao passo que em bebês com temperamento difícil, o aumento da inquietação persiste durante a primeira infância e até posteriormente. Embora o choro devido a temperamento difícil possa às vezes ser modificado, essa característica de temperamento é frequentemente estável no decorrer da vida, e tem bases constitucionais e hereditárias.


Consequências positivas:


O choro excessivo nos primeiros meses de vida pode provocar frustração e estresse na família. No entanto, há consequências positivas associadas ao choro. Uma delas é a constatação de que o choro permite aos bebês construir relacionamentos íntimos com as pessoas que respondem mais confiavelmente a suas necessidades. Dessa forma, o choro pode ser fundamental no desenvolvimento de um vínculo emocional ou “apego” em relação a determinado(s) cuidador(es). 


Consequências negativas: 


Muitos estudos sobre bebês que apresentam episódios de cólicas demonstraram de forma convincente que, no longo prazo, não há consequências negativas para os bebês. A maioria dos pais não demonstra conseqüências negativas, mas para alguns persiste uma falta de confiança em suas habilidades como cuidadores e têm maior probabilidade de considerar seus bebês como “vulneráveis”. No entanto, bebês com temperamento difícil têm maior probabilidade de vivenciar diferenças no longo prazo. Bebês inquietos e difíceis de acalmar têm maior probabilidade de aumento de risco de problemas comportamentais na pré-escola, dificuldades de ajustamento na adolescência ou comportamento agressivo e dificuldades de atenção.

A interpretação da mãe sobre o comportamento de choro pode ser afetada pela depressão materna. Quando ocorrem juntos, a depressão materna e o choro excessivo ou devido a cólicas podem afetar as interações pais-bebês, seu relacionamento, e até mesmo os resultados de desenvolvimento da criança. A depressão materna influencia negativamente alguns aspectos do comportamento e do desenvolvimento do bebê, principalmente em relação à dificuldade para acalmar-se, à irritabilidade e ao choro. 


As consequências mais extremas para um bebê que apresenta choro inconsolável são negligência e abuso, especialmente a Síndrome do Bebê Sacudido (Shaken Baby Syndrome), que por vezes resulta em danos cerebrais ou mesmo morte. 


O que pode ser feito?


O significado do choro inicial muito frequente, excessivo ou devido a cólicas na infância evoluiu: da crença de que era anormal ou indicava doença/disfunção para o reconhecimento de que o choro excessivo é parte normal do desenvolvimento do bebê humano. Os clínicos devem conscientizar-se da importância do choro para os pais, de como pode ser frustrante e de como pode afetar seu relacionamento com seus bebês.

Ao ajudar pais cujos bebês choram excessivamente, devemos garantir-lhes de que a maioria dos bebês que choram muito é normal, e de que o choro imprevisível, inconsolável, em geral desaparece espontaneamente depois das primeiras semanas de vida. Intervenções que visam consolar bebês que choram são apenas parcialmente bem sucedidas e não reduzem os surtos de choro inconsolável. É importante reconhecer também que diferenças no próprio som do choro podem afetar a reação do cuidador. Devemos ser particularmente sensíveis a cuidadores que vivenciam depressão ou outras experiências que podem alterar sua organização perceptual. 

Intervenções e informações de saúde pública devem ser rigorosamente avaliadas antes de serem recomendadas como técnicas para lidar com o choro de bebês. Deve-se tentar criar serviços eficazes, com boa relação custo/benefício, para atender às necessidades de famílias com crianças pequenas. 


Redução da Síndrome do Bebê Sacudido


A Síndrome do Bebê Sacudido é uma resposta extrema ao choro infantil. A redução na incidência dessa síndrome pode ser conseguida por meio de programas educativos de saúde pública oferecidos precocemente, até mesmo antes do nascimento do bebê, na tentativa de aumentar a compreensão dos pais sobre o choro normal, seus padrões na infância, e de que formas a frustração provocada por esse choro pode levar a reações inadequadas como sacudir ou machucar o bebê.


Percebo nesta abordagem uma certa resignação ou aceitação do choro dos bebes no começo da vida como natural. Mas fica uma certa apreensão sobre o risco de permanecer e significar algo mais grave , o que é exatamente a questão dos pais vivendo este momento. Vale a pena reforçar que é natural do bebe pequeno e que o choro não qualifica o cuidado materno e paterno. Vai acontecer independe da qualidade do cuidado. Mas é mais fácil de lidar quando os pais estão mais tranquilos. Novamente não se fala em medicação para lidar com esse choro !

Fica o alerta para sabermos nos afastar caso estejamos muito nervosos para aquela respiração aonde vou recitar o mantra:

- O adulto sou eu !


Laura Gutman tem uma abordagem interessante, do ponto de vista da psicanálise, sobre o choro do bebê: 

"Quando nascemos, esperamos encontrar fora do útero o mesmo conforto e ritmo em que vivemos nos últimos nove meses. Quando nascemos, passamos de um ambiente úmido a um ambiente seco. Muda a temperatura, mudam os sons. Sofremos uma forte mudança de postura, corporal, não estamos mais de cabeça para baixo e enrolados, e sim com as costas apoiadas em algo, sentindo a gravidade e talvez longe do contato corporal com nossas mães. Os bebês esperam estar no refúgio e conforto do corpo materno. A separação do corpo da mãe é uma situação difícil de confrontar. Os seres humanos contam com duas ferramentas indispensáveis para a sobrevivência quando bebês. O primeiro é o instinto de sucção. O outro é o choro, que serve para avisar à nossa mãe, que precisamos dela. Se compreendemos que o bebê não pode fazer nada por si mesmo, aceitaremos que se ele chora é porque precisa ser atendido. A pergunta que podemos fazer é se damos prioridade às necessidades de nossos bebês ou se colocamos em primeiro lugar as nossas próprias necessidades. Tenhamos confiança de que se o bebê recém nascido se sente atendido quando chama, ele vai construindo uma forte segurança interior, que vai facilitar as coisas cotidianas conforme seu desenvolvimento."

Esse talvez seja o texto mais difícil pois nos convida a estar presente no choro e , inclusive o nos observar durante o choro. Exercício este continuo nas funções materno-paternas.

Quando nos dispomos a cuidar de nossos bebês - além de é claro um olhar afetuoso para as necessidades básicas de cuidado, que dependem exclusivamente do adulto, como alimentar o bebê, mantê-lo limpo e amado - precisamos saber que entraremos em contato com as nossas próprias fraquezas e limites. E que o tempo-lugar do choro, do descontentamento aparente do filho, de um suposto sofrimento, pode ser exatamente onde nos encontraremos com elas. O que isso significa? O choro do bebê não será algo a ser resolvido sempre. Em muitas situações, o choro do bebê é algo para ser sentido, vivido. E como todo choro, amparado. Começamos a discutir formação de vínculos, nas suas alegrias e dificuldades.

Às vezes, diante do choro do bebê, esquecemos de executar as atividades mais simples. Um colo extremamente cuidadoso, palavras de carinho. Olhar nos olhos, oferecer o peito. Os pensamentos em busca de uma explicação para o choro ou uma solução para sair desse tempo-lugar de desconforto podem agir no sentido oposto desse amparo. E o bebê sente, e quanto mais desconfortável estiver, mais chora. E quanto mais chora, mais confirma a sua dor e a minha impotência e assim, estamos num imenso ciclo vicioso de frustração e dor.

Se mesmo alimentado, cuidado, amado e atendido o bebê segue a chorar, talvez seja momento de nos perguntarmos: o que EU estou sentido? Ao invés de tentar decifrar o bebê. E poder se afastar para se fortalecer para voltar com mais serenidade e confiança. "O adulto sou eu".

A chegada de um bebê na vida dos adultos revelará essas possibilidades de reencontro com nossas próprias necessidades, prioridades e frustrações além das deles próprios. Vamos lembrar que eles choram também o nosso choro, aquele que acreditamos, por ser ruim, não deixamos sair. A mágica seria conseguir compassar esses tempos e desejos, dos adultos e bebês, de forma afetuosa. 

Quando se trata de choro, do bebê ou do nosso próprio, estamos dispostos a apenas deixar sair e amparar? Qual o papel dos bons pais? Construir um mundo ao redor das crianças sem choro (ou sofrimento) ou ampara-los nas suas dificuldades acreditando na capacidade que cada um traz de lidar com as situações da vida ? Essa será a eterna (ou terna?) pergunta :

- Quando é hora de dar colo ou quando esta na hora de agir?

E vamos nos inventando e reinventando a cada dia nesta continua Jornada que é ser Pai e ser Mãe!

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Cacá Responde: Cesáreas agendadas na visão do pediatra


Campanha da Unicef "Quem espera, espera"


O nascimento de um bebe é um momento mágico e único. Esta criança que habita um ambiente aquático onde o calor, sua alimentação e oferta de oxigênio estão garantidos. O nascimento deveria ocorrer quando este bebe é capaz de lidar com as novas necessidades que se apresentarão. Ele deverá ser capaz de respirar adequadamente, controlar seu calor e sua taxa de glicemia, devera ser capaz de se alimentar, sendo estas novas necessidades imediatas após seu nascimento.

Na semana passada trouxemos para a fanpage do Espaço Nascente a matéria da Revista Crescer que trata dos riscos relacionados à saúde do bebê que nasce de cesárea agendada ( ou seja Fora de Trabalho de Parto). Percebemos que ainda há muita confusão de informação quando o tema é a via de parto - e portanto selecionamos alguns comentários para tentar positivamente elucidar algumas questões.

A primeira coisa a se ter em mente, é que aqui tratamos em primeira instância, de parto e pós parto sob a luz da neonatologia. Ou seja, a ciência médica que atende o bebê recém nascido. A neonatologia, no entanto tem alguns pontos indissociáveis da medicina obstétrica - que é aquela responsável pelo atendimento da gestante e parturiente. E é desse lugar que faço as observações, olhando o momento do parto como esse evento importante para mães e bebês, em todas as suas peculiaridades.

Nesse olhar sobre o recém-nascido não há duvidas de que uma cesárea programada fora do trabalho de parto aumenta o risco deste bebe ter dificuldades de se adaptar a vida extra-uterina, necessitando muitas vezes de cuidados em UTI neonatal.

A segunda coisa que precisamos ter em mente é que estamos falando de cesáreas ELETIVAS. O que são cesáreas eletivas? São aquelas cirurgias marcadas para o nascimento do bebê, fora de trabalho de parto.

Vamos aos comentários, transcritos aqui da forma que foram postados:

"Mas e qto às mulheres que têm problema de hipertensão e 40 anos de idade, como é meu caso? Acho um sofrimento desnecessário?"

Olhando para a questão do parto com um advento de atendimento à mulher, a obstetrícia falará longamente sobre as indicações reais de cirurgia cesariana. É seguro afirmar que há poucas indicações absolutas para cesáreas eletivas,  como é o caso da placenta prévia (quando a placenta, órgão que alimenta o bebê no útero está implantada abaixo do bebê, impedindo sua passagem pelo canal e inviabilizando o trabalho de parto). Há mais indicações para cesáreas em trabalho de parto, como é o caso de uma ruptura uterina ou descolamento prematuro da placenta, com feto vivo. Isoladamente, idade da gestante ou hipertensão não são indicativos absolutos de cesárea eletiva. No entanto, esse diagnóstico cabe ao médico obstetra. Cabe saber que a medicina obstétrica tem avançado no teor científico das pesquisas, e atualmente sabemos que a esmagadora maioria das cirurgias realizadas no Brasil não tem respaldo científico. Ou seja, são cirurgias que podem ser evitadas.

Para averiguar mais informações sobre as indicações reais de cesária verifique o blog de Melania Amorim, pesquisadora contemporânea da medicina baseada em evidências para atendimento obstétrico.

Do ponto de vista da Neonatologia, assim como retratado na matéria da Crescer e também na atual campanha da Unicef "Quem espera, espera" a condição ideal para o nascimento do feto humano é o trabalho de parto. Sempre que possível (descartadas as indicações reais de cesáreas) os bebês contarão com melhores condições de saúde se tiverem sua idade gestacional interrompida exatamente pelo trabalho de parto, e não antes.

Temos estudos que demonstram que há aumento de risco de morbi-mortalidade quanto mais anterior às 40 semanas for o nascimento: "Analisando 46 milhões de nascimentos, usando dados do National Center for Health Statistics U.S. O resultado revelou que a taxa de mortalidade infantil era de 1.9 para cada 1.000 bebês nascidos na 40a semana de gestação e subia para 3.9 para aqueles nascidos pouco antes, na 37a semana. A formação do pulmão e sua capacidade de funcionar garantindo as trocas gasosas e a oxigenação deste bebe dependem também desta criança ter estado em trabalho de parto. Como um sinalizador de que ira respirar ar fora da barriga e o sistema respiratório deve estar pronto. a ativação dessa capacidade funcional dos pulmões depende também da experiência de um trabalho parto sobre o corpo do bebe."

No caso do comentário acima, há dois aspectos a serem avaliados. A idade da mãe apresenta riscos aumentados para a saúde do bebê quando esta mulher tem uma patologia de base, ou esta mulher desenvolver alguma patologia durante a gestação como hipertensão ou diabetes. Poderia supor que mulheres mais novas (adolescentes) e mulheres mais velhas poderiam ser um grupo de risco maior para estas situações, o que impõem a necessidade de um acompanhamento durante a gestação com maiores cuidados.

A hipertensão da mãe durante a gestação apresenta aumento de risco para a saúde do bebê quando não esta controlada , variando o fluxo de oxigênio e nutrientes para o bebe. Pode haver restrição de crescimento do bebê. O acompanhamento desta situação especial determinara a via de parto, não definindo inicialmente que devera ser uma cesárea. Os acontecimentos durante a gestação, como controle da pressão arterial, reduzem riscos de complicações. Vale sempre lembrar que uma atividade física acompanhada de boa alimentação podem ser seus maiores aliados.


"Nem sempre. Há casos e casos, no meu por exemplo deverá ser uma cesárea pois engravidei 3 meses após uma outra cesárea de emergência, não posso ter contração então será programado uns dias antes. Mas se eu pudesse eu gostaria de ter normal a recuperação é mais rápida."


Para responder essa questão, contei com a visão de uma obstetriz, reconhecida nacionalmente pela luta em defesa dos direitos das mulheres e bebês através da medicina baseada em evidências. Ana Cris Duarte comenta: "Pode ser que seu médico ou você não tenha informado a verdadeira razão para essa cesariana, mas sem dúvida alguma que a última cirurgia ter ocorrido cerca de 12 meses antes do nascimento deste bebê não é uma indicação tão clara. Os estudos mostram que o risco de ruptura uterina após cesariana é bem baixo, sendo inclusive bem mais baixos de que as complicações graves de uma nova cesariana. Se você de fato deseja um parto normal, sugerimos que procure uma segunda opinião."


Foto Wikipedia


"Tive duas cesarianas, sendo há 60 dias a mais recente e posso dizer que foi tranquilo o pós operatório. Cada mulher com seu médico deve conversar e saber o que será melhor para ambos ( mãe e bebê)."

Sem dúvida as mulheres e seus profissionais de saúde precisam estar alinhados para fazerem as escolhas possíveis para cada quadro. No entanto, quero aproveitar esse comentário para lembrar que atualmente vivemos um cenário na medicina obstétrica e neonatologia que pode apresentar mais comprometimento com os sistemas de saúde, os lucros dos hospitais, as horas trabalhadas dos médicos, do que efetivamente com a saúde do binômio. Falamos em "epidemia de cesáreas" exatamente porque essa cirurgia é adotada como saída mais rápida e lucrativa, à despeito do que os estudos comprovam. Existem muitas estratégias dentro dos atendimentos profissionais que acabam levando mulheres a supostamente "escolher" a cesárea. Uma delas, seria o profissional não abordar, por exemplo, os riscos envolvidos da cirurgia. Todos eventos de parto tem seus riscos inerentes, sejam eles o parto vaginal ou a cesariana. Cabe reforçar que a cesariana aumenta em 3x tanto para mãe quanto para o bebê, o risco de morte. É uma cirurgia abdominal de grande porte que pode trazer complicações para a mãe. No caso do bebê, falando das cesarianas eletivas, elas estão relacionadas com a prematuridade iatrogênica: que é a prematuridade provocada.

Sabemos que as UTIs neonatais estão sempre cheias de bebezinhos que "nasceram antes do tempo". Uma boa parte desses casos seria evitada, caso o tempo gestacional completo tivesse sido respeitado.
As consequências da prematuridade iatrogênica para o bebê podem ser simples ou desastrosas. Estamos falando de fetos que ainda precisam maturar os pulmões, aprender a respirar, ser capazes de sugar o seio materno e uma série de outras conquistas da maturidade, necessária para trocar a vida no útero pela vida fora dela.

Não há nenhuma dúvida que o bom profissional médico, baseado em evidências, respeitando as escolhas da mulher gestante é decisivo para o parto. No entanto, temos que refletir: temos bons profissionais de saúde? As escolhas dessa mulher estão sendo feitas com base na informação ou nos interesses do sistema que lucra com as cirurgias desnecessárias?

Recomendo assistirem o documentário "O renascimento do parto".

Mas não esqueço de enfatizar que você tem razão em dizer que cada mulher deve conversar com seu médico garantindo mais confiança nessa relação.

Foto Max Pixel

"Tive duas gestações, a minha primeira tentei ter normal usando meios para a dilatação mas rápida e nem assim eu tive normal pq quando dilatei os 10 cm a minha bb subiu e mudou de posição então fui pra o cesariano e ocorreu tudo bem. Ja na segunda gestação apos 3 anos da primeira fiz meu parto humanizado e mesmo assim acabei indo pra cesariana de novo. Tudo tranquilo, tendo precisão no momento acho super aceitável."

Com esse comentário acho importante frisar que quando falamos de novos paradigmas para o atendimento de mães e bebês não estamos dizendo que cesárea é melhor que parto normal para todos os casos. As cirurgias cesarianas salvam vidas e quando bem aplicadas são mesmo não só aceitáveis como desejáveis. A discussão que se apresenta fala sobre modelo tecnocrata (onde se concentram a maioria das cirurgias cesarianas) X modelo baseado em evidências (que as pessoas tendem a chamar de parto humanizado, ou fisiológico). Há muita confusão nessa discussão, porque o atendimento baseado em evidências não significa, per se, um parto vaginal. Significa apenas que as melhores escolhas, baseadas na ciência, para respeito à saúde e bem estar de mulher e bebê foram adotadas. E, conforme matéria da Crescer e Campanha da Unicef, estamos trabalhando no sentido de alertar sobre os riscos das cirurgias desnecessárias.

Mas é muito bom que tenha feito este comentário para que fique claro que a opção por uma cesárea necessária é fundamental para resguardar o mais importante do processo de parir: o nascimento da criança, da mãe, do pai e de toda uma família.


"Conheço milhões de mulheres que tiveram cesarianas e nem um bebê tem problemas, não acredito nisso." 


Realmente, uma cirurgia cesariana desnecessária não é garantia de problemas. No entanto, ela aumenta a chance de ter problemas. É a mesma coisa que o tabagismo, ou hábitos alimentares baseados em junk food. Nenhuma dessas coisas garante que sua saúde será ruim, que você terá doenças ou problemas. Mas aumenta os riscos.

No caso da cirurgia cesariana, existem pontos importantes para a gente ter em vista. Quando um bebê não nasce pela cavidade abdominal ele perde o contato com a flora bacteriana da mãe, reconhecida atualmente como uma vacina natural, que coloniza o bebê vindo de um ambiente estéril e hermético (o útero) já ativando seu sistema imunológico. Tanto é que atualmente já se estuda a aplicação dos fluidos vaginais da mãe no bebê nascido por cirurgia, como forma de transferência microbial. Não devemos esquecer do uso de antibióticos precocemente que servirá para a modificação da flora bacteriana da mãe e de seu filho e das possíveis complicações oriundas disto.

A formatação epigenética dessa criança recém nascida é diferente, quando nascida por parto vaginal. Isso é um fato, não um boato. 

Estudos também comprovam o risco aumentado de doenças respiratórias, alérgicas, diabetes tipo 1 e obesidade em crianças nascidas por via cirúrgica. Isso significa que toda criança que nascer por cesariana será asmática? Não. Isso significa que o risco é aumentado.

Não podemos esquecer que o aleitamento materno, tão importante para a vida e sobrevivência deste bebê fica em risco de não acontecer ou de ser mais curto quando o contato da mãe com o bebe fica prejudicado desde o nascimento, como ocorre numa cesárea agendada, quando o bebe não esta preparado para nascer.

Quando falamos de saúde, falamos das questões individuais e também dos impactos coletivos das ações em larga escala. Em um país que concentra aterrorizantes 45% de nascimentos por vias cirúrgicas, as consequências para a saúde pública também não podem ser desconsideradas, principalmente usando como argumento casos isolados para descredibilizar essa necessidade de mudança de modelo. As cirurgias desnecessárias são um problema de saúde pública, antes de um problema individual.

Foto Wikipedia

"A pesquisa dos cientistas pode ate ser fato.... Mas NA MINHA OPINIÃO e por essa devoção por parto normal que mts mulheres ou bbs morrem em salas de parto, por insistirem numa coisa que não e o melhor pra eles por medo de não ter sido "mulher o suficiente" e ter que fazer uma cesaria... Quanto a recuperação não existe essa de PN ser mais rápida, eu fiz uma cesaria e no mesmo dia estava tomando banho, andando e cuidando sozinha do meu filho! E quanto a problemas de saúde.... Meu filho em oito meses nunca pegou nem resfriado!"

"Sinceramente, tenho muito mais medo de ficar 16 a 20 horas em trabalho de parto pra no fim fazer uma cesárea de emergência e meu bebe falecer como muitos casos em minha cidade."

É muito duro encarar essa realidade, mas o parto é um evento (talvez um dos poucos que temos a chance de experimentar) onde vida e morte caminham lado a lado, e uma delas vence. Na maioria das vezes, vence a vida. No entanto, há casos de morte materno-infantis que NÃO podem ser evitadas. Mesmo sendo feita uma cesariana.

Seja em um atendimento de parto via vaginal ou via cirúrgica, devemos aqui pontuar a competência técnica dos profissionais de atendimento ao parto - à mulher e ao bebê. Atualmente temos a construção de um imaginário de perigo em torno do parto vaginal . Confiar na natureza e perceber o corpo humano como capaz de parir e de nutrir sua cria ainda é feito por poucos profissionais de assistência ao nascimento e essa informação acaba não chegando a população com clareza.

Mesmo os relatos das mulheres de quatro ou cinco décadas atrás, quando a cirurgia cesariana ainda não era usada em larga escala, serão recheados de medos e indisposições. Pontualmente, a violência obstétrica contra a mulher e o recém nascido se expressa no parto normal de variadas formas, todas sem embasamento científico. Manter a mulher em posição deitada, proibir de comer ou beber água, fazer lavagem intestinal, raspar os pelos pubianos, muitas vezes, amarrar a mulher à maca. Empurrar a barriga, dirigir os puxos, ofender a mulher. Usar equipamentos e manobras perigosas, como a episiotomia ou o fórceps, entre outras situações muito difíceis, desagradáveis e desnecessárias muitas vezes. As mulheres passaram e passam por tudo isso ao longo da história dos nascimentos. Portanto há de se refletir que parto normal não significa atendimento humanizado, nem tampouco baseado em evidências. As práticas ruins estão também nesse universo. Tanto é que foi preciso especificar qual parto normal é esse : Parto Natural / Parto Humanizado .

Um pouco de cultura pop para ilustrar a questão: Recomendo que assistam à cena de parto de uma mulher na década de 50, retratado no episódio 5 da temporada 3 de Mad Man. Uma cena de atendimento ao parto dantesca, carregada de simbolismos e opressão, de quando se acreditava que o melhor modelo de atendimento seria manter a mulher semi-consciente à base de drogas, com muitas intervenções em um cenário desumanizante.


Depois, se tiverem interesse em confrontar as bases de um outro modelo de atendimento ao parto e ao bebê, assistam à série Call the Midwife, também na década de 50, mas que evidencia  a competência técnica e abordagem humanizante dos agentes de saúde, tratando o parto como um evento familiar e respeitoso (essa série é baseada nas memórias de uma parteira inglesa).

Existem muitos obstetras comprometidos com sua missão e vão garantir informação de qualidade. Mas compreendemos que para garantir o parto e o nascimento como rituais únicos fundamentais à espécie humana tanto física quanto emocionalmente, precisamos poder enxergar outras possibilidades deles ocorrerem, através de outros possíveis agentes do processo.

Parteira na Roma Antiga: foto da Wikipedia

"Eu nasci de Cesárea , meu irmão nasceu de Cesárea , minha mãe também Meu esposo também Meu pai , meus tios , vários dos meus primos e graças a Deus nenhum de nós apresentou problemas por isso ! E quando eu tiver meus filhos , sem duvida vai ser Cesárea !!!!"

Verdade, muitas pessoas que amamos nasceram de cesárea, isso não precisa impedir que a gente reflita sobre essa questão. Fica a reflexão: a quem serve essa cultura de ignorar que a cesárea desnecessária - mesmo que cientificamente comprovado - é um fator de risco para o bebê e para a mãe? 

Vamos relembrar que estamos falando de um modelo de atendimento e não de uma via de parto. Para os casos de bebês e mães saudáveis, nas gestações de baixo risco sempre é recomendado que essa mulher entre em trabalho de parto. É recomendado que os profissionais de saúde sejam tecnicamente competentes para partejar, e adotar as medidas estritamente necessárias para os desfechos positivos. É recomendado também que essa dupla seja atendida como os seres humanos que são, dignos de respeito e direitos. Estamos falando de coisas que protegem nossa condição humana, nossa vida, nossos filhos, para além do que provam as pesquisas. 

Um bebê que acaba de sair do ventre deve ir direto para os braços da mãe, e acreditem, é bem possível e desejável que seja inclusive aparado pelas suas mãos. 

O que vemos atualmente são bebês passando como peças de uma linha de montagem por toda uma sequência de procedimentos desnecessários e invasivos, enquanto suas mães são alienadas em uma sala fria de hospital.

O reconhecimento desses dois seres é um dos momentos mais pungentes da vida humana, e dia após dia, milhares de mães e bebês perdem o direito de se olharem pela primeira vez, livremente.

A amamentação na primeira hora é lei em diversas cidades do pais. Somos todos à favor de políticas públicas que promovam o bem estar do recém nascido e de sua mãe, no entanto é alarmante que precisemos legislar sobre algo tão óbvio quanto permitir que o mamífero recém nascido esteja em contato direto e irrestrito com sua fonte de vida e prazer. Não raro, problemas de amamentação podem ser advindos de experiências de parto traumáticas - ainda que socialmente validadas. Sabemos que qualquer interferência nesse primeiro encontro entre a mãe e seu bebe pode reduzir a chance da amamentação ser exclusiva e duradoura.

Imagem Wikipedia


Já existe o conceito de alojamento conjunto em diversos hospitais, no entanto o que vemos é que para facilitar a dinâmica do atendimento hospitalar em massa, e em especial em casos de cirurgia quando a "recuperação da anestesia" é usada como justificativa lícita, outros milhares de bebês e mães, que há poucas horas eram um só, são apartados em esperas intermináveis. Considerar a mulher como incapaz de cuidar da sua cria desde o nascimento, sem facilitar o contato entre mãe-bebe auxiliando nos cuidados, para deixar a mãe descansar do parto pode significar incapacidade dessa mulher em cuidar desde o começo. Ao invés de fortalecer o vinculo e qualificar a mulher como capaz, a consideramos sem condições.

Vemos berçários alimentando bebês com doses de glicose antes mesmo que tenham a chance de sugar o seio da mãe. Vemos bebês sendo mantidos aquecidos em caixas tecnológicas, enquanto são fisiologicamente projetados a regular sua temperatura à partir do corpo materno. Veja novamente, essa discussão está para além da via de parto. É sem dúvida, sobre jeito que nos tratamos como humanos.

O modelo de atendimento atual não prejudica apenas a saúde física das pessoas. Desrespeita também seus complexos psíquicos e emocionais. 

Vamos dar uma chance à humanidade, esse resgate é de suma importância.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Pequeno Guia Prático sobre a Bronquiolite e o VSR - Vírus Sincicial Respiratório

Quando o outono chega, as doenças respiratórias passam a ser um tema de atenção para quem tem filhos, especialmente os bebês. Hoje vamos desvendar alguns pontos sobre a bronquiolite, que costuma ser muito frequente nessa época do ano.

O vírus sincicial respiratório (VSR) é um dos agentes dessa infecção aguda nas vias respiratórias superiores, que chamamos geralmente de gripe ou de um quadro viral. Pode afetar os brônquios e os pulmões, que são as vias aéreas inferiores, o que torna o quadro clínico mais grave, principalmente em crianças pequenas. 



Na maior parte dos casos, o VSR é responsável pelo aparecimento de bronquiolite aguda (inflamação dos bronquíolos, que são as ramificações cada vez mais finas dos brônquios que penetram nos pulmões, ate os alvéolos pulmonares, responsáveis pelas trocas gasosas). A bronquiolite acomete especialmente em bebês prematuros, no primeiro ano de vida, e crianças pequenas. Pode acometer outras faixas etárias mas é especialmente mais perigoso conforme mais nova é a criança, ou no caso de ter alguma doença crônica associada, como asma, cardiopatia congênita.

Esse vírus é bastante contagioso e pode-se ter esta infecção mais de uma vez, geralmente de formas mais leves na reincidência. Como outros vírus de "gripe", a maioria das crianças vai ter contato com o vírus ate 3 ou 4 anos de idade. Re-infecções ocorrem durante toda a vida, entretanto o acometimento de vias aéreas inferiores predomina na primeira infecção, principalmente em crianças menores de 2 anos.


O contato entre as crianças é naturalmente uma forma de transmissão do vírus

Transmissão

O VSR penetra no organismo saudável através da boca, do nariz ou dos olhos, e neles pode permanecer por semanas. O período de transmissão começa 4/5 dias antes de aparecerem os sintomas e só termina quando a infecção está completamente controlada.

O contágio se dá pelo contato direto com as secreções eliminadas pela pessoa infectada quando tosse, espirra ou fala e, de forma indireta, pelo contato com superfícies e objetos contaminados (brinquedos, por exemplo), nos quais o vírus pode sobreviver por várias horas.





Sintomas

A maioria das crianças com infecções respiratórias têm apenas sintomas leves, geralmente semelhantes aos sintomas de um resfriado comum. Em geral, é em crianças menores de 2 anos que a infecção pode evoluir para sintomas mais comumente encontrados em bronquiolite. 

Inicialmente, a criança terá um corrimento nasal, tosse leve e, em alguns casos, uma febre. Dentro de 1 a 2 dias, a tosse piora e ao mesmo tempo, a respiração da criança irá tornar-se mais rápida e difícil. Geralmente as gripes e resfriados geram um ruído de tom grave chamado de ronco de transmissão. Na bronquiolite aparece um som mais agudo, chamado de chiado. Fica difícil de mamar e dormir, mesmo sem febre, porque ele está tendo uma dificuldade para respirar.

A bronquiolite compromete a troca de gases e por consequência o aporte de oxigênio da criança, por causa da inflamação do sistema respiratório. Sempre existe a possibilidade de agravamento do quadro necessitando de internação, ou de Terapia Intensiva nos casos mais graves. Mas a maioria não irá necessitar desta forma de cuidados. 

Temos visto os pronto-socorros infantis lotados nessa época do ano e os casos de doenças respiratórias aumentando exponencialmente. Proporcionalmente, também aumentam os números de casos mais graves, e as internações em UTIs. 

As UTIS infantis estão lotadas com bebês que tem necessidade de receber oxigênio, medicação por via intra-venosa, fisioterapia respiratória e cuidados mais invasivos pelo quadro clínico mais grave. Não há necessariamente relação com pneumonia bacteriana nestes casos. Fica claro que nem toda criança acometida por bronquiolite deverá permanecer internada em hospital. Muito menos necessitará de UTI para melhora do quadro.

Quando devo procurar o PS?

Nem todo quadro viral precisa de atenção médica urgente. Podemos observar alguns sinais que diferem a bronquiolite das gripes comuns, antes de tomar a decisão de procurar um pronto socorro:
  • Chiado: as crianças com bronquiolite costumam apresentar um chiado cada vez que expiram o ar.  O chiado é um tom agudo, como um apito, diferente do ronco de transmissão.
  • Batimento de asas nasais: as narinas da criança abrem a cada respiração. Isso é um recurso fisiológico do do organismo para aumentar a entrada de ar, mas é indício de dificuldade respiratória.
  • Afundamento de Fúrcula: No final do pescoço/começo do tórax, aparece um afundamento cada vez que a criança inspira. Outro indício de que o corpo está se esforçando para puxar mais ar.
  • Costelas aparentes: Os ossinhos da costela aparecem quando a criança respira, outro sinal relacionado ao esforço para respirar.
  • Frequência respiratória: um parâmetro objetivo de mal estar é contar a frequência respiratória da criança sem febre e de preferência em repouso. 

Como contar a frequência respiratória: observe o abdome da criança deitada e identifique o ciclo completo da respiração (inspiração e expiração). Esse é um movimento. Marque um minuto no relógio, e conte quantas vezes a criança realiza o movimento respiratório. Pode também fixar a inspiração OU a expiração para contar. Caso a barriguinha esteja subindo pode contar quantas vezes a barriga sobe.

A frequência respiratória acima da indicada na tabela da OMS, pode indicar a necessidade de procurar um PS. Essa avaliação deve ser eita sem febre, pois com febre a criança pode ter aumento de frequência respiratória.




Diagnóstico Laboratorial

O diagnóstico específico do Vírus Sincicial Respiratório (VRS) e outros vírus respiratórios é realizados através da coleta de secreção respiratória. O melhor material para coleta é o lavado nasal. Entretanto podem ser utilizados swab nasal ou de orofaringe. 

A medição de oxigênio da criança ajuda a avaliar a gravidade do caso, indicando a necessidade ou não de internação e do uso de oxigênio .

O raio-x de tórax não é um exame específico para bronquiolites mas poderá indentificar uma pneumonia ou outro quadro pulmonar que não seja bronquiolite.

Tratamento

Não há tratamento específico pois se trata de um quadro viral.

Como para qualquer doença respiratória, as inalações com soro fisiológico costumam ser bem indicadas, mesmo sem medicação, por atuarem diluindo a secreção que se forma no sistema respiratório, hidratando as vias. 

Se você não tem um inalador em casa, o vapor do banho pode ser também uma forma de nebulização. Geralmente não ira sozinho resolver em caso de bronquiolites.

Outra forma de manter as vias hidratadas é a aplicação direta de soro nas narinas do bebê, além de fazer a remoção de muco acumulado nesta região.

Pode ser uma boa medida protetiva e de tratamento a limpeza do muco acumulado, usando-se sugadores e aspiradores nasais, que existem em vários modelos no mercado

Tanto o uso de soro nasal, inaladores e sucção de vias respiratóprias podem ser dificultados pela criança que tende a resistir a estes procedimentos. Mas acredito que o conforto que eles trazem depois justifica seu uso.



Se for identificado broncoespasmo, que é o estreitamento agudo das vias aéreas (normalmente identificado pelo chiado), o tratamento deve ser mais invasivo e com uso de medicações mais fortes. Pode ser o caso de fisioterapia respiratória e uso de anti-inflamatórios e broncodilatadores. Na situação de dificuldade de oxigenação ou nos casos de crianças de maior risco para complicações a internação pode ser a melhor opção.

A fisioterapia respiratória feita por profissionais capacitados auxilia na redução de internações para bronquiolites e pneumonias e eu recomendo sempre que se tratar de quadros respiratórios mais importantes.

É natural que crianças doentes tenham perda de apetite, sendo um dos primeiros sinais de melhora a volta do apetite. Portanto oferecer alimentos geralmente mais preferidos pela criança alem de ser uma fofice necessária, pode auxiliar na aceitação.

Líquidos calóricos como água de coco e sucos também podem ser oferecidos.

Vacina para o VSR (Palivizumabe)

Palivizumabe é um anticorpo monoclonal específico contra o vírus sincicial respiratório. Não é exatamente uma vacina, pois não estimula o sistema imunológico a produzir anticorpos.

Quem pode usar o palivizumabe: recém-nascidos pré-termo com menos de 29 semanas de idade gestacional devem fazer uso durante o primeiro ano de vida; aqueles nascidos entre 29 e 32 semanas de gestação, até o sexto mês de vida; e portadores de doenças cardíacas e pulmonares nos dois primeiros anos de vida.

Prevenção

Por se tratar de contágio por vírus através das secreções da pessoa contaminada em contato com as mucosas, a melhor forma de prevenção é a higiene. Muito embora saibamos que no dia a dia das crianças, especialmente daquelas que frequentam escolas e que tem contato com outras crianças, seja bastante improvável que se consiga evitar completamente o contato com o vírus, adotar uma rotina de lavar as mãos e a face com sabão comum e alguma frequência pode ser uma boa ideia. 

Além disso é recomendado que as escolas e seus gestores estejam atentos para o aparecimento do VSR em suas unidades, comunicando as famílias de possíveis casos.

É sempre bom lembrar que estar em lugares fechados com pouca circulação de ar pode ser mais perigoso que estar ao ar livre mesmo no frio.Portanto, janelas abertas e brincadeiras ao ar livre são bons amigos das crianças no outono.

As estações mais secas do ano, como o outono e inverno, costumam contribuir para o aumento dos casos, e piora dos quadros. Portanto, a umidificação do ambiente pode ser uma medida de proteção. Uma toalha molhada no quarto ou uma bacia com água costumam ser boas ideias para aumentar a umidade do ar, e manter o sistema respiratório mais hidratado.

O leite materno é um fator de proteção para a saúde das crianças em qualquer idade e para qualquer doença. Assim, sempre cabe reforçar a importância da amamentação no sentido da prevenção e minimização das doenças da infância.