terça-feira, 23 de maio de 2017

O Choro do Bebê : Cólicas e tudo mais que podemos revelar

Hoje vamos pensar um pouco sobre o choro do bebê.



Desde que comecei a trabalhar com bebes saudáveis em alojamento conjunto entendi que não bastava treinar a equipe para falar de aleitamento materno. O choro do bebê era o tópico mais importante, pois o que levaria ao uso de chupetas, outros leites, mamadeira ou não acreditar na própria capacidade de amamentar seria o choro do bebê. Portanto conversar sobre como lidar com esse choro e que chorar não significa sempre fome era o nosso desafio. Poder dizer para as mulheres que elas poderiam dar conta do bebê era (e ainda é!!!) nosso maior desafio.

Bebês choram. E podem chorar muito! Por muitas vezes nós adultos cuidadores nos vemos ansiosos por uma explicação para a razão de tanto choro, do alto da nossa crença de que choro é sinal de coisa ruim. A justificativa mais aceita para o choro do recém nascido são as cólicas. Seriam aquelas crises de choro inconsolável, onde o bebê demonstra muita irritação, contorce o corpinho. Aceitamos com mais naturalidade o choro do bebê se ele for justificado por algum tipo de dor.

- É dor mesmo, agora eu sei , pois ele esticava as perninhas e se retorcia todo.

Infelizmente é muito difícil definir se é ou quando é dor mesmo. Acho bonito e importante tentar fazer uma leitura mais corporal do bebê, mas contamos com uma grande dificuldade. Geralmente não sabemos muito sobre o bebê.

Conhecemos que um bebe nos seus 2 a 3 meses tem um repertório motor limitado pelas respostas reflexas e não voluntárias. Quero dizer com isso que bebes que se esticam e jogam a cabecinha para traz estão repetindo o que fazem (ou deveriam fazer) no trabalho de parto. Esse movimento está no repertório motor dos reflexos e não da consciência deste bebe.

O que não afirma e não impede que esteja vivendo algum incomodo. Mas nos faz pensar que é um tanto mais difícil observar e relatar o que esta acontecendo nos primeiros meses de vida.

Vamos ler um pouquinho do que diz a Sociedade Brasileira de Pediatria sobre as cólicas do lactente: 

Cólicas do lactente 

Departamento de Aleitamento Materno da SBP

A cólica do bebê é transitória e aparece geralmente na segunda semana de vida, acabando em torno do quarto mês, em uma criança saudável. A cólica pode durar até três horas por dia e normalmente acontece no final da tarde ou à noite. Além do choro, o bebê fica irritado e agitado.

Como diferenciar o choro por cólica do choro de fome


O bebê chora por diversas razões: fome, frio, sono, calor, dor, incômodos por fralda molhada ou apertada ou até porque quer aconchego e carinho. Com o tempo, a mãe vai aprendendo a identificar o motivo de choro do seu bebê. No entanto, a criança que chora por fome se acalma assim que mama. Isso não acontece quando o choro é por cólica.

Como evitar as cólicas

Tente manter a calma e lembre-se que as cólicas acontecem em um bebê saudável e que vão passar em poucos meses. A ansiedade da mãe não ajuda a acabar com a cólica, mas algumas ações podem amenizar a dor:

- um ambiente tranquilo e uma música suave ajudam a relaxar mãe e filho;
- um banho morno também ajuda a descontrair;
- movimentos nas pernas do bebê, como “pedalar no ar” podem auxiliar a eliminar o excesso de gases;
- massagem na barriguinha do bebê, sempre no sentido horário, mobiliza os gases;
- compressas mornas na barriguinha com toalhas felpudas passadas a ferro têm efeito analgésico (teste antes o calor da toalha em sua própria face).

Porém, o mais importante é ter paciência para acalmar o bebê, aconchegando-o no colo, barriga com barriga, ou apoiado de bruços na extensão do antebraço dos pais.

Oferecer chá ao bebê não acaba com a cólica e pode prejudicar a amamentação. 
Remédios “contra gases” têm pouca eficácia.



Relação entre cólica e dieta materna


As causas das cólicas do primeiro trimestre não são bem conhecidas, mas parecem ter relação com uma relativa imaturidade do bebê; e vão melhorar com seu crescimento, sem deixar sequelas.

A alimentação materna como possível causa da cólica ainda é controversa. A cólica pode ocorrer tanto em bebês amamentados no seio quanto naqueles amamentados com leite de vaca (fórmulas). Entretanto, existe a possibilidade de alguns alimentos (leite de vaca, soja, trigo, nozes) passarem para o leite materno e provocarem cólicas. No entanto, esses alimentos só devem ser retirados da dieta da mamãe caso as cólicas estiverem associadas com outros sintomas gastrintestinais que indiquem alergia alimentar, como a presença de rajas de sangue nas fezes do bebê.

Ao primeiro sinal de sangue nas fezes do bebê, seu pediatra deve ser consultado imediatamente.

E lembre-se, o ideal é prolongar ao máximo o aleitamento materno porque o leite de vaca tem alto poder de causar alergia.



Para mim entendo que a SBP conta que cólica existe e é comum nos primeiros meses e vai passar. Não se desespere pois vai passar!

Nesse momento tive uma percepção de quantas vezes eu tentei em vão dizer que o choro com hora marcada, geralmente final da tarde, começo da noite não deveria ser de dor física, já que dor física não tem horário para acontecer. Será que ajudei ou atrapalhei tentando desfazer o mito da cólica do bebe, e não deixando algo que preenchesse este lugar?

Por mais aceitável que a justificativa de cólica nos acalme como adultos, nem sempre o bebê chora de dor. Bebês choram e podem chorar muito. Ressignificando as experiências do choro e tentando encontrar mais disponibilidade para rever nosso conjunto de crenças podemos observar o choro como forma de comunicação do pequenino humano, que trava sua própria jornada de adaptação à vida extra uterina.

Lendo este texto da SBP que valida a percepção dos pais que se trata de uma cólica e portanto merece compressa quente e massagem senti que poderia me aproximar mais destes pais que devem estar bem assustados com este bebe que chora tanto. Porem me ficaram algumas duvidas como se merece um uso de remédio já que o choro é cólica (sabemos de uma longa lista de remédios utilizados por mães de bebês nos primeiros meses por conta de cólica e que a maioria não terá muita eficiência). Vou então buscar outras referencias sobre o choro do bebe.

Vamos ver um trecho sobre o choro da Enciclopédia sobre desenvolvimento da primeira infância

Qual é sua importância?


O choro é um meio de comunicação importante que os bebês dispõem no início da vida – do nascimento aos 3 meses de idade. Nesse estágio de seu desenvolvimento, os bebês são quase inteiramente dependentes de cuidadores para atender suas necessidades. Consequentemente, o choro na infância pode assumir um papel importante para garantir a sobrevivência, a saúde e o desenvolvimento da criança. 

A quantidade aumentada de choro entre bebês saudáveis no mundo ocidental é atualmente reconhecida em todos os bebês nas primeiras semanas de vida, isto inclui chorar por períodos prolongados de tempo sem nenhuma razão aparente, uma característica praticamente única dos primeiros meses de vida. De fato, não é incomum que um bebê normal chore entre uma e cinco horas por dia, com um pico nos dois primeiros meses de vida.


Em menos de 5% desses bebês existe alguma evidência de doença orgânica que ajude a explicar o aumento de ocorrência de choro. Além disso, o choro prolongado ocorre a despeito da ótima qualidade dos cuidados parentais. Felizmente, depois dos cinco meses diminuem os períodos prolongados de choro inconsolável, o choro torna-se mais intencional e mais relacionado a eventos ambientais.


No entanto, o choro persistente, principalmente quando associado a problemas de sono e de alimentação que persistem depois dos quatro meses, muitas vezes em contextos que envolvem múltiplos fatores de risco psicossocial dos pais, pode ser preditivo de desenvolvimento social e emocional insatisfatório do bebê. 


O que sabemos?


Todos os bebês choram, mas grande parte desse choro é inexplicável. As explicações geralmente atribuídas ao choro do bebê são dor, fome, raiva e tédio. O aumento de choro excessivo inexplicável nos três primeiros meses em bebês que, à exceção disso, são saudáveis, é frequentemente denominado “cólica infantil”. Dependendo da definição, diz-se que a cólica afeta cerca de 10% a 20% dos bebês nessa idade. Uma característica evidente é que a cólica tende a seguir um padrão de aumento nos dois primeiros meses, chegando a um pico em seis semanas, e normalmente diminuindo aos 4 ou 5 meses de vida. No entanto, esse padrão aplica-se a todos os bebês, quer seu choro seja ou não considerado “excessivo”, e é reconhecido atualmente como a “curva normal do choro”. Durante esse período, os surtos de choro podem ocorrer sem razão aparente, são difíceis de acalmar, e muitas vezes duram em média entre 35-40 minutos, ou até duas horas. Ocorrem em geral no fim da tarde ou no início da noite.

Frequentemente, afirma-se que bebês cuja inquietação persiste no decorrer da primeira infância, ou piora depois dos quatro meses, têm temperamento difícil. Pode não ser fácil diferenciar o choro relacionado à cólica infantil do choro relacionado a temperamento difícil. A principal diferença é que, nos episódios de cólica, os surtos de choro diminuem com o tempo, ao passo que em bebês com temperamento difícil, o aumento da inquietação persiste durante a primeira infância e até posteriormente. Embora o choro devido a temperamento difícil possa às vezes ser modificado, essa característica de temperamento é frequentemente estável no decorrer da vida, e tem bases constitucionais e hereditárias.


Consequências positivas:


O choro excessivo nos primeiros meses de vida pode provocar frustração e estresse na família. No entanto, há consequências positivas associadas ao choro. Uma delas é a constatação de que o choro permite aos bebês construir relacionamentos íntimos com as pessoas que respondem mais confiavelmente a suas necessidades. Dessa forma, o choro pode ser fundamental no desenvolvimento de um vínculo emocional ou “apego” em relação a determinado(s) cuidador(es). 


Consequências negativas: 


Muitos estudos sobre bebês que apresentam episódios de cólicas demonstraram de forma convincente que, no longo prazo, não há consequências negativas para os bebês. A maioria dos pais não demonstra conseqüências negativas, mas para alguns persiste uma falta de confiança em suas habilidades como cuidadores e têm maior probabilidade de considerar seus bebês como “vulneráveis”. No entanto, bebês com temperamento difícil têm maior probabilidade de vivenciar diferenças no longo prazo. Bebês inquietos e difíceis de acalmar têm maior probabilidade de aumento de risco de problemas comportamentais na pré-escola, dificuldades de ajustamento na adolescência ou comportamento agressivo e dificuldades de atenção.

A interpretação da mãe sobre o comportamento de choro pode ser afetada pela depressão materna. Quando ocorrem juntos, a depressão materna e o choro excessivo ou devido a cólicas podem afetar as interações pais-bebês, seu relacionamento, e até mesmo os resultados de desenvolvimento da criança. A depressão materna influencia negativamente alguns aspectos do comportamento e do desenvolvimento do bebê, principalmente em relação à dificuldade para acalmar-se, à irritabilidade e ao choro. 


As consequências mais extremas para um bebê que apresenta choro inconsolável são negligência e abuso, especialmente a Síndrome do Bebê Sacudido (Shaken Baby Syndrome), que por vezes resulta em danos cerebrais ou mesmo morte. 


O que pode ser feito?


O significado do choro inicial muito frequente, excessivo ou devido a cólicas na infância evoluiu: da crença de que era anormal ou indicava doença/disfunção para o reconhecimento de que o choro excessivo é parte normal do desenvolvimento do bebê humano. Os clínicos devem conscientizar-se da importância do choro para os pais, de como pode ser frustrante e de como pode afetar seu relacionamento com seus bebês.

Ao ajudar pais cujos bebês choram excessivamente, devemos garantir-lhes de que a maioria dos bebês que choram muito é normal, e de que o choro imprevisível, inconsolável, em geral desaparece espontaneamente depois das primeiras semanas de vida. Intervenções que visam consolar bebês que choram são apenas parcialmente bem sucedidas e não reduzem os surtos de choro inconsolável. É importante reconhecer também que diferenças no próprio som do choro podem afetar a reação do cuidador. Devemos ser particularmente sensíveis a cuidadores que vivenciam depressão ou outras experiências que podem alterar sua organização perceptual. 

Intervenções e informações de saúde pública devem ser rigorosamente avaliadas antes de serem recomendadas como técnicas para lidar com o choro de bebês. Deve-se tentar criar serviços eficazes, com boa relação custo/benefício, para atender às necessidades de famílias com crianças pequenas. 


Redução da Síndrome do Bebê Sacudido


A Síndrome do Bebê Sacudido é uma resposta extrema ao choro infantil. A redução na incidência dessa síndrome pode ser conseguida por meio de programas educativos de saúde pública oferecidos precocemente, até mesmo antes do nascimento do bebê, na tentativa de aumentar a compreensão dos pais sobre o choro normal, seus padrões na infância, e de que formas a frustração provocada por esse choro pode levar a reações inadequadas como sacudir ou machucar o bebê.


Percebo nesta abordagem uma certa resignação ou aceitação do choro dos bebes no começo da vida como natural. Mas fica uma certa apreensão sobre o risco de permanecer e significar algo mais grave , o que é exatamente a questão dos pais vivendo este momento. Vale a pena reforçar que é natural do bebe pequeno e que o choro não qualifica o cuidado materno e paterno. Vai acontecer independe da qualidade do cuidado. Mas é mais fácil de lidar quando os pais estão mais tranquilos. Novamente não se fala em medicação para lidar com esse choro !

Fica o alerta para sabermos nos afastar caso estejamos muito nervosos para aquela respiração aonde vou recitar o mantra:

- O adulto sou eu !


Laura Gutman tem uma abordagem interessante, do ponto de vista da psicanálise, sobre o choro do bebê: 

"Quando nascemos, esperamos encontrar fora do útero o mesmo conforto e ritmo em que vivemos nos últimos nove meses. Quando nascemos, passamos de um ambiente úmido a um ambiente seco. Muda a temperatura, mudam os sons. Sofremos uma forte mudança de postura, corporal, não estamos mais de cabeça para baixo e enrolados, e sim com as costas apoiadas em algo, sentindo a gravidade e talvez longe do contato corporal com nossas mães. Os bebês esperam estar no refúgio e conforto do corpo materno. A separação do corpo da mãe é uma situação difícil de confrontar. Os seres humanos contam com duas ferramentas indispensáveis para a sobrevivência quando bebês. O primeiro é o instinto de sucção. O outro é o choro, que serve para avisar à nossa mãe, que precisamos dela. Se compreendemos que o bebê não pode fazer nada por si mesmo, aceitaremos que se ele chora é porque precisa ser atendido. A pergunta que podemos fazer é se damos prioridade às necessidades de nossos bebês ou se colocamos em primeiro lugar as nossas próprias necessidades. Tenhamos confiança de que se o bebê recém nascido se sente atendido quando chama, ele vai construindo uma forte segurança interior, que vai facilitar as coisas cotidianas conforme seu desenvolvimento."

Esse talvez seja o texto mais difícil pois nos convida a estar presente no choro e , inclusive o nos observar durante o choro. Exercício este continuo nas funções materno-paternas.

Quando nos dispomos a cuidar de nossos bebês - além de é claro um olhar afetuoso para as necessidades básicas de cuidado, que dependem exclusivamente do adulto, como alimentar o bebê, mantê-lo limpo e amado - precisamos saber que entraremos em contato com as nossas próprias fraquezas e limites. E que o tempo-lugar do choro, do descontentamento aparente do filho, de um suposto sofrimento, pode ser exatamente onde nos encontraremos com elas. O que isso significa? O choro do bebê não será algo a ser resolvido sempre. Em muitas situações, o choro do bebê é algo para ser sentido, vivido. E como todo choro, amparado. Começamos a discutir formação de vínculos, nas suas alegrias e dificuldades.

Às vezes, diante do choro do bebê, esquecemos de executar as atividades mais simples. Um colo extremamente cuidadoso, palavras de carinho. Olhar nos olhos, oferecer o peito. Os pensamentos em busca de uma explicação para o choro ou uma solução para sair desse tempo-lugar de desconforto podem agir no sentido oposto desse amparo. E o bebê sente, e quanto mais desconfortável estiver, mais chora. E quanto mais chora, mais confirma a sua dor e a minha impotência e assim, estamos num imenso ciclo vicioso de frustração e dor.

Se mesmo alimentado, cuidado, amado e atendido o bebê segue a chorar, talvez seja momento de nos perguntarmos: o que EU estou sentido? Ao invés de tentar decifrar o bebê. E poder se afastar para se fortalecer para voltar com mais serenidade e confiança. "O adulto sou eu".

A chegada de um bebê na vida dos adultos revelará essas possibilidades de reencontro com nossas próprias necessidades, prioridades e frustrações além das deles próprios. Vamos lembrar que eles choram também o nosso choro, aquele que acreditamos, por ser ruim, não deixamos sair. A mágica seria conseguir compassar esses tempos e desejos, dos adultos e bebês, de forma afetuosa. 

Quando se trata de choro, do bebê ou do nosso próprio, estamos dispostos a apenas deixar sair e amparar? Qual o papel dos bons pais? Construir um mundo ao redor das crianças sem choro (ou sofrimento) ou ampara-los nas suas dificuldades acreditando na capacidade que cada um traz de lidar com as situações da vida ? Essa será a eterna (ou terna?) pergunta :

- Quando é hora de dar colo ou quando esta na hora de agir?

E vamos nos inventando e reinventando a cada dia nesta continua Jornada que é ser Pai e ser Mãe!

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Cacá Responde: Cesáreas agendadas na visão do pediatra


Campanha da Unicef "Quem espera, espera"


O nascimento de um bebe é um momento mágico e único. Esta criança que habita um ambiente aquático onde o calor, sua alimentação e oferta de oxigênio estão garantidos. O nascimento deveria ocorrer quando este bebe é capaz de lidar com as novas necessidades que se apresentarão. Ele deverá ser capaz de respirar adequadamente, controlar seu calor e sua taxa de glicemia, devera ser capaz de se alimentar, sendo estas novas necessidades imediatas após seu nascimento.

Na semana passada trouxemos para a fanpage do Espaço Nascente a matéria da Revista Crescer que trata dos riscos relacionados à saúde do bebê que nasce de cesárea agendada ( ou seja Fora de Trabalho de Parto). Percebemos que ainda há muita confusão de informação quando o tema é a via de parto - e portanto selecionamos alguns comentários para tentar positivamente elucidar algumas questões.

A primeira coisa a se ter em mente, é que aqui tratamos em primeira instância, de parto e pós parto sob a luz da neonatologia. Ou seja, a ciência médica que atende o bebê recém nascido. A neonatologia, no entanto tem alguns pontos indissociáveis da medicina obstétrica - que é aquela responsável pelo atendimento da gestante e parturiente. E é desse lugar que faço as observações, olhando o momento do parto como esse evento importante para mães e bebês, em todas as suas peculiaridades.

Nesse olhar sobre o recém-nascido não há duvidas de que uma cesárea programada fora do trabalho de parto aumenta o risco deste bebe ter dificuldades de se adaptar a vida extra-uterina, necessitando muitas vezes de cuidados em UTI neonatal.

A segunda coisa que precisamos ter em mente é que estamos falando de cesáreas ELETIVAS. O que são cesáreas eletivas? São aquelas cirurgias marcadas para o nascimento do bebê, fora de trabalho de parto.

Vamos aos comentários, transcritos aqui da forma que foram postados:

"Mas e qto às mulheres que têm problema de hipertensão e 40 anos de idade, como é meu caso? Acho um sofrimento desnecessário?"

Olhando para a questão do parto com um advento de atendimento à mulher, a obstetrícia falará longamente sobre as indicações reais de cirurgia cesariana. É seguro afirmar que há poucas indicações absolutas para cesáreas eletivas,  como é o caso da placenta prévia (quando a placenta, órgão que alimenta o bebê no útero está implantada abaixo do bebê, impedindo sua passagem pelo canal e inviabilizando o trabalho de parto). Há mais indicações para cesáreas em trabalho de parto, como é o caso de uma ruptura uterina ou descolamento prematuro da placenta, com feto vivo. Isoladamente, idade da gestante ou hipertensão não são indicativos absolutos de cesárea eletiva. No entanto, esse diagnóstico cabe ao médico obstetra. Cabe saber que a medicina obstétrica tem avançado no teor científico das pesquisas, e atualmente sabemos que a esmagadora maioria das cirurgias realizadas no Brasil não tem respaldo científico. Ou seja, são cirurgias que podem ser evitadas.

Para averiguar mais informações sobre as indicações reais de cesária verifique o blog de Melania Amorim, pesquisadora contemporânea da medicina baseada em evidências para atendimento obstétrico.

Do ponto de vista da Neonatologia, assim como retratado na matéria da Crescer e também na atual campanha da Unicef "Quem espera, espera" a condição ideal para o nascimento do feto humano é o trabalho de parto. Sempre que possível (descartadas as indicações reais de cesáreas) os bebês contarão com melhores condições de saúde se tiverem sua idade gestacional interrompida exatamente pelo trabalho de parto, e não antes.

Temos estudos que demonstram que há aumento de risco de morbi-mortalidade quanto mais anterior às 40 semanas for o nascimento: "Analisando 46 milhões de nascimentos, usando dados do National Center for Health Statistics U.S. O resultado revelou que a taxa de mortalidade infantil era de 1.9 para cada 1.000 bebês nascidos na 40a semana de gestação e subia para 3.9 para aqueles nascidos pouco antes, na 37a semana. A formação do pulmão e sua capacidade de funcionar garantindo as trocas gasosas e a oxigenação deste bebe dependem também desta criança ter estado em trabalho de parto. Como um sinalizador de que ira respirar ar fora da barriga e o sistema respiratório deve estar pronto. a ativação dessa capacidade funcional dos pulmões depende também da experiência de um trabalho parto sobre o corpo do bebe."

No caso do comentário acima, há dois aspectos a serem avaliados. A idade da mãe apresenta riscos aumentados para a saúde do bebê quando esta mulher tem uma patologia de base, ou esta mulher desenvolver alguma patologia durante a gestação como hipertensão ou diabetes. Poderia supor que mulheres mais novas (adolescentes) e mulheres mais velhas poderiam ser um grupo de risco maior para estas situações, o que impõem a necessidade de um acompanhamento durante a gestação com maiores cuidados.

A hipertensão da mãe durante a gestação apresenta aumento de risco para a saúde do bebê quando não esta controlada , variando o fluxo de oxigênio e nutrientes para o bebe. Pode haver restrição de crescimento do bebê. O acompanhamento desta situação especial determinara a via de parto, não definindo inicialmente que devera ser uma cesárea. Os acontecimentos durante a gestação, como controle da pressão arterial, reduzem riscos de complicações. Vale sempre lembrar que uma atividade física acompanhada de boa alimentação podem ser seus maiores aliados.


"Nem sempre. Há casos e casos, no meu por exemplo deverá ser uma cesárea pois engravidei 3 meses após uma outra cesárea de emergência, não posso ter contração então será programado uns dias antes. Mas se eu pudesse eu gostaria de ter normal a recuperação é mais rápida."


Para responder essa questão, contei com a visão de uma obstetriz, reconhecida nacionalmente pela luta em defesa dos direitos das mulheres e bebês através da medicina baseada em evidências. Ana Cris Duarte comenta: "Pode ser que seu médico ou você não tenha informado a verdadeira razão para essa cesariana, mas sem dúvida alguma que a última cirurgia ter ocorrido cerca de 12 meses antes do nascimento deste bebê não é uma indicação tão clara. Os estudos mostram que o risco de ruptura uterina após cesariana é bem baixo, sendo inclusive bem mais baixos de que as complicações graves de uma nova cesariana. Se você de fato deseja um parto normal, sugerimos que procure uma segunda opinião."


Foto Wikipedia


"Tive duas cesarianas, sendo há 60 dias a mais recente e posso dizer que foi tranquilo o pós operatório. Cada mulher com seu médico deve conversar e saber o que será melhor para ambos ( mãe e bebê)."

Sem dúvida as mulheres e seus profissionais de saúde precisam estar alinhados para fazerem as escolhas possíveis para cada quadro. No entanto, quero aproveitar esse comentário para lembrar que atualmente vivemos um cenário na medicina obstétrica e neonatologia que pode apresentar mais comprometimento com os sistemas de saúde, os lucros dos hospitais, as horas trabalhadas dos médicos, do que efetivamente com a saúde do binômio. Falamos em "epidemia de cesáreas" exatamente porque essa cirurgia é adotada como saída mais rápida e lucrativa, à despeito do que os estudos comprovam. Existem muitas estratégias dentro dos atendimentos profissionais que acabam levando mulheres a supostamente "escolher" a cesárea. Uma delas, seria o profissional não abordar, por exemplo, os riscos envolvidos da cirurgia. Todos eventos de parto tem seus riscos inerentes, sejam eles o parto vaginal ou a cesariana. Cabe reforçar que a cesariana aumenta em 3x tanto para mãe quanto para o bebê, o risco de morte. É uma cirurgia abdominal de grande porte que pode trazer complicações para a mãe. No caso do bebê, falando das cesarianas eletivas, elas estão relacionadas com a prematuridade iatrogênica: que é a prematuridade provocada.

Sabemos que as UTIs neonatais estão sempre cheias de bebezinhos que "nasceram antes do tempo". Uma boa parte desses casos seria evitada, caso o tempo gestacional completo tivesse sido respeitado.
As consequências da prematuridade iatrogênica para o bebê podem ser simples ou desastrosas. Estamos falando de fetos que ainda precisam maturar os pulmões, aprender a respirar, ser capazes de sugar o seio materno e uma série de outras conquistas da maturidade, necessária para trocar a vida no útero pela vida fora dela.

Não há nenhuma dúvida que o bom profissional médico, baseado em evidências, respeitando as escolhas da mulher gestante é decisivo para o parto. No entanto, temos que refletir: temos bons profissionais de saúde? As escolhas dessa mulher estão sendo feitas com base na informação ou nos interesses do sistema que lucra com as cirurgias desnecessárias?

Recomendo assistirem o documentário "O renascimento do parto".

Mas não esqueço de enfatizar que você tem razão em dizer que cada mulher deve conversar com seu médico garantindo mais confiança nessa relação.

Foto Max Pixel

"Tive duas gestações, a minha primeira tentei ter normal usando meios para a dilatação mas rápida e nem assim eu tive normal pq quando dilatei os 10 cm a minha bb subiu e mudou de posição então fui pra o cesariano e ocorreu tudo bem. Ja na segunda gestação apos 3 anos da primeira fiz meu parto humanizado e mesmo assim acabei indo pra cesariana de novo. Tudo tranquilo, tendo precisão no momento acho super aceitável."

Com esse comentário acho importante frisar que quando falamos de novos paradigmas para o atendimento de mães e bebês não estamos dizendo que cesárea é melhor que parto normal para todos os casos. As cirurgias cesarianas salvam vidas e quando bem aplicadas são mesmo não só aceitáveis como desejáveis. A discussão que se apresenta fala sobre modelo tecnocrata (onde se concentram a maioria das cirurgias cesarianas) X modelo baseado em evidências (que as pessoas tendem a chamar de parto humanizado, ou fisiológico). Há muita confusão nessa discussão, porque o atendimento baseado em evidências não significa, per se, um parto vaginal. Significa apenas que as melhores escolhas, baseadas na ciência, para respeito à saúde e bem estar de mulher e bebê foram adotadas. E, conforme matéria da Crescer e Campanha da Unicef, estamos trabalhando no sentido de alertar sobre os riscos das cirurgias desnecessárias.

Mas é muito bom que tenha feito este comentário para que fique claro que a opção por uma cesárea necessária é fundamental para resguardar o mais importante do processo de parir: o nascimento da criança, da mãe, do pai e de toda uma família.


"Conheço milhões de mulheres que tiveram cesarianas e nem um bebê tem problemas, não acredito nisso." 


Realmente, uma cirurgia cesariana desnecessária não é garantia de problemas. No entanto, ela aumenta a chance de ter problemas. É a mesma coisa que o tabagismo, ou hábitos alimentares baseados em junk food. Nenhuma dessas coisas garante que sua saúde será ruim, que você terá doenças ou problemas. Mas aumenta os riscos.

No caso da cirurgia cesariana, existem pontos importantes para a gente ter em vista. Quando um bebê não nasce pela cavidade abdominal ele perde o contato com a flora bacteriana da mãe, reconhecida atualmente como uma vacina natural, que coloniza o bebê vindo de um ambiente estéril e hermético (o útero) já ativando seu sistema imunológico. Tanto é que atualmente já se estuda a aplicação dos fluidos vaginais da mãe no bebê nascido por cirurgia, como forma de transferência microbial. Não devemos esquecer do uso de antibióticos precocemente que servirá para a modificação da flora bacteriana da mãe e de seu filho e das possíveis complicações oriundas disto.

A formatação epigenética dessa criança recém nascida é diferente, quando nascida por parto vaginal. Isso é um fato, não um boato. 

Estudos também comprovam o risco aumentado de doenças respiratórias, alérgicas, diabetes tipo 1 e obesidade em crianças nascidas por via cirúrgica. Isso significa que toda criança que nascer por cesariana será asmática? Não. Isso significa que o risco é aumentado.

Não podemos esquecer que o aleitamento materno, tão importante para a vida e sobrevivência deste bebê fica em risco de não acontecer ou de ser mais curto quando o contato da mãe com o bebe fica prejudicado desde o nascimento, como ocorre numa cesárea agendada, quando o bebe não esta preparado para nascer.

Quando falamos de saúde, falamos das questões individuais e também dos impactos coletivos das ações em larga escala. Em um país que concentra aterrorizantes 45% de nascimentos por vias cirúrgicas, as consequências para a saúde pública também não podem ser desconsideradas, principalmente usando como argumento casos isolados para descredibilizar essa necessidade de mudança de modelo. As cirurgias desnecessárias são um problema de saúde pública, antes de um problema individual.

Foto Wikipedia

"A pesquisa dos cientistas pode ate ser fato.... Mas NA MINHA OPINIÃO e por essa devoção por parto normal que mts mulheres ou bbs morrem em salas de parto, por insistirem numa coisa que não e o melhor pra eles por medo de não ter sido "mulher o suficiente" e ter que fazer uma cesaria... Quanto a recuperação não existe essa de PN ser mais rápida, eu fiz uma cesaria e no mesmo dia estava tomando banho, andando e cuidando sozinha do meu filho! E quanto a problemas de saúde.... Meu filho em oito meses nunca pegou nem resfriado!"

"Sinceramente, tenho muito mais medo de ficar 16 a 20 horas em trabalho de parto pra no fim fazer uma cesárea de emergência e meu bebe falecer como muitos casos em minha cidade."

É muito duro encarar essa realidade, mas o parto é um evento (talvez um dos poucos que temos a chance de experimentar) onde vida e morte caminham lado a lado, e uma delas vence. Na maioria das vezes, vence a vida. No entanto, há casos de morte materno-infantis que NÃO podem ser evitadas. Mesmo sendo feita uma cesariana.

Seja em um atendimento de parto via vaginal ou via cirúrgica, devemos aqui pontuar a competência técnica dos profissionais de atendimento ao parto - à mulher e ao bebê. Atualmente temos a construção de um imaginário de perigo em torno do parto vaginal . Confiar na natureza e perceber o corpo humano como capaz de parir e de nutrir sua cria ainda é feito por poucos profissionais de assistência ao nascimento e essa informação acaba não chegando a população com clareza.

Mesmo os relatos das mulheres de quatro ou cinco décadas atrás, quando a cirurgia cesariana ainda não era usada em larga escala, serão recheados de medos e indisposições. Pontualmente, a violência obstétrica contra a mulher e o recém nascido se expressa no parto normal de variadas formas, todas sem embasamento científico. Manter a mulher em posição deitada, proibir de comer ou beber água, fazer lavagem intestinal, raspar os pelos pubianos, muitas vezes, amarrar a mulher à maca. Empurrar a barriga, dirigir os puxos, ofender a mulher. Usar equipamentos e manobras perigosas, como a episiotomia ou o fórceps, entre outras situações muito difíceis, desagradáveis e desnecessárias muitas vezes. As mulheres passaram e passam por tudo isso ao longo da história dos nascimentos. Portanto há de se refletir que parto normal não significa atendimento humanizado, nem tampouco baseado em evidências. As práticas ruins estão também nesse universo. Tanto é que foi preciso especificar qual parto normal é esse : Parto Natural / Parto Humanizado .

Um pouco de cultura pop para ilustrar a questão: Recomendo que assistam à cena de parto de uma mulher na década de 50, retratado no episódio 5 da temporada 3 de Mad Man. Uma cena de atendimento ao parto dantesca, carregada de simbolismos e opressão, de quando se acreditava que o melhor modelo de atendimento seria manter a mulher semi-consciente à base de drogas, com muitas intervenções em um cenário desumanizante.


Depois, se tiverem interesse em confrontar as bases de um outro modelo de atendimento ao parto e ao bebê, assistam à série Call the Midwife, também na década de 50, mas que evidencia  a competência técnica e abordagem humanizante dos agentes de saúde, tratando o parto como um evento familiar e respeitoso (essa série é baseada nas memórias de uma parteira inglesa).

Existem muitos obstetras comprometidos com sua missão e vão garantir informação de qualidade. Mas compreendemos que para garantir o parto e o nascimento como rituais únicos fundamentais à espécie humana tanto física quanto emocionalmente, precisamos poder enxergar outras possibilidades deles ocorrerem, através de outros possíveis agentes do processo.

Parteira na Roma Antiga: foto da Wikipedia

"Eu nasci de Cesárea , meu irmão nasceu de Cesárea , minha mãe também Meu esposo também Meu pai , meus tios , vários dos meus primos e graças a Deus nenhum de nós apresentou problemas por isso ! E quando eu tiver meus filhos , sem duvida vai ser Cesárea !!!!"

Verdade, muitas pessoas que amamos nasceram de cesárea, isso não precisa impedir que a gente reflita sobre essa questão. Fica a reflexão: a quem serve essa cultura de ignorar que a cesárea desnecessária - mesmo que cientificamente comprovado - é um fator de risco para o bebê e para a mãe? 

Vamos relembrar que estamos falando de um modelo de atendimento e não de uma via de parto. Para os casos de bebês e mães saudáveis, nas gestações de baixo risco sempre é recomendado que essa mulher entre em trabalho de parto. É recomendado que os profissionais de saúde sejam tecnicamente competentes para partejar, e adotar as medidas estritamente necessárias para os desfechos positivos. É recomendado também que essa dupla seja atendida como os seres humanos que são, dignos de respeito e direitos. Estamos falando de coisas que protegem nossa condição humana, nossa vida, nossos filhos, para além do que provam as pesquisas. 

Um bebê que acaba de sair do ventre deve ir direto para os braços da mãe, e acreditem, é bem possível e desejável que seja inclusive aparado pelas suas mãos. 

O que vemos atualmente são bebês passando como peças de uma linha de montagem por toda uma sequência de procedimentos desnecessários e invasivos, enquanto suas mães são alienadas em uma sala fria de hospital.

O reconhecimento desses dois seres é um dos momentos mais pungentes da vida humana, e dia após dia, milhares de mães e bebês perdem o direito de se olharem pela primeira vez, livremente.

A amamentação na primeira hora é lei em diversas cidades do pais. Somos todos à favor de políticas públicas que promovam o bem estar do recém nascido e de sua mãe, no entanto é alarmante que precisemos legislar sobre algo tão óbvio quanto permitir que o mamífero recém nascido esteja em contato direto e irrestrito com sua fonte de vida e prazer. Não raro, problemas de amamentação podem ser advindos de experiências de parto traumáticas - ainda que socialmente validadas. Sabemos que qualquer interferência nesse primeiro encontro entre a mãe e seu bebe pode reduzir a chance da amamentação ser exclusiva e duradoura.

Imagem Wikipedia


Já existe o conceito de alojamento conjunto em diversos hospitais, no entanto o que vemos é que para facilitar a dinâmica do atendimento hospitalar em massa, e em especial em casos de cirurgia quando a "recuperação da anestesia" é usada como justificativa lícita, outros milhares de bebês e mães, que há poucas horas eram um só, são apartados em esperas intermináveis. Considerar a mulher como incapaz de cuidar da sua cria desde o nascimento, sem facilitar o contato entre mãe-bebe auxiliando nos cuidados, para deixar a mãe descansar do parto pode significar incapacidade dessa mulher em cuidar desde o começo. Ao invés de fortalecer o vinculo e qualificar a mulher como capaz, a consideramos sem condições.

Vemos berçários alimentando bebês com doses de glicose antes mesmo que tenham a chance de sugar o seio da mãe. Vemos bebês sendo mantidos aquecidos em caixas tecnológicas, enquanto são fisiologicamente projetados a regular sua temperatura à partir do corpo materno. Veja novamente, essa discussão está para além da via de parto. É sem dúvida, sobre jeito que nos tratamos como humanos.

O modelo de atendimento atual não prejudica apenas a saúde física das pessoas. Desrespeita também seus complexos psíquicos e emocionais. 

Vamos dar uma chance à humanidade, esse resgate é de suma importância.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Pequeno Guia Prático sobre a Bronquiolite e o VSR - Vírus Sincicial Respiratório

Quando o outono chega, as doenças respiratórias passam a ser um tema de atenção para quem tem filhos, especialmente os bebês. Hoje vamos desvendar alguns pontos sobre a bronquiolite, que costuma ser muito frequente nessa época do ano.

O vírus sincicial respiratório (VSR) é um dos agentes dessa infecção aguda nas vias respiratórias superiores, que chamamos geralmente de gripe ou de um quadro viral. Pode afetar os brônquios e os pulmões, que são as vias aéreas inferiores, o que torna o quadro clínico mais grave, principalmente em crianças pequenas. 



Na maior parte dos casos, o VSR é responsável pelo aparecimento de bronquiolite aguda (inflamação dos bronquíolos, que são as ramificações cada vez mais finas dos brônquios que penetram nos pulmões, ate os alvéolos pulmonares, responsáveis pelas trocas gasosas). A bronquiolite acomete especialmente em bebês prematuros, no primeiro ano de vida, e crianças pequenas. Pode acometer outras faixas etárias mas é especialmente mais perigoso conforme mais nova é a criança, ou no caso de ter alguma doença crônica associada, como asma, cardiopatia congênita.

Esse vírus é bastante contagioso e pode-se ter esta infecção mais de uma vez, geralmente de formas mais leves na reincidência. Como outros vírus de "gripe", a maioria das crianças vai ter contato com o vírus ate 3 ou 4 anos de idade. Re-infecções ocorrem durante toda a vida, entretanto o acometimento de vias aéreas inferiores predomina na primeira infecção, principalmente em crianças menores de 2 anos.


O contato entre as crianças é naturalmente uma forma de transmissão do vírus

Transmissão

O VSR penetra no organismo saudável através da boca, do nariz ou dos olhos, e neles pode permanecer por semanas. O período de transmissão começa 4/5 dias antes de aparecerem os sintomas e só termina quando a infecção está completamente controlada.

O contágio se dá pelo contato direto com as secreções eliminadas pela pessoa infectada quando tosse, espirra ou fala e, de forma indireta, pelo contato com superfícies e objetos contaminados (brinquedos, por exemplo), nos quais o vírus pode sobreviver por várias horas.





Sintomas

A maioria das crianças com infecções respiratórias têm apenas sintomas leves, geralmente semelhantes aos sintomas de um resfriado comum. Em geral, é em crianças menores de 2 anos que a infecção pode evoluir para sintomas mais comumente encontrados em bronquiolite. 

Inicialmente, a criança terá um corrimento nasal, tosse leve e, em alguns casos, uma febre. Dentro de 1 a 2 dias, a tosse piora e ao mesmo tempo, a respiração da criança irá tornar-se mais rápida e difícil. Geralmente as gripes e resfriados geram um ruído de tom grave chamado de ronco de transmissão. Na bronquiolite aparece um som mais agudo, chamado de chiado. Fica difícil de mamar e dormir, mesmo sem febre, porque ele está tendo uma dificuldade para respirar.

A bronquiolite compromete a troca de gases e por consequência o aporte de oxigênio da criança, por causa da inflamação do sistema respiratório. Sempre existe a possibilidade de agravamento do quadro necessitando de internação, ou de Terapia Intensiva nos casos mais graves. Mas a maioria não irá necessitar desta forma de cuidados. 

Temos visto os pronto-socorros infantis lotados nessa época do ano e os casos de doenças respiratórias aumentando exponencialmente. Proporcionalmente, também aumentam os números de casos mais graves, e as internações em UTIs. 

As UTIS infantis estão lotadas com bebês que tem necessidade de receber oxigênio, medicação por via intra-venosa, fisioterapia respiratória e cuidados mais invasivos pelo quadro clínico mais grave. Não há necessariamente relação com pneumonia bacteriana nestes casos. Fica claro que nem toda criança acometida por bronquiolite deverá permanecer internada em hospital. Muito menos necessitará de UTI para melhora do quadro.

Quando devo procurar o PS?

Nem todo quadro viral precisa de atenção médica urgente. Podemos observar alguns sinais que diferem a bronquiolite das gripes comuns, antes de tomar a decisão de procurar um pronto socorro:
  • Chiado: as crianças com bronquiolite costumam apresentar um chiado cada vez que expiram o ar.  O chiado é um tom agudo, como um apito, diferente do ronco de transmissão.
  • Batimento de asas nasais: as narinas da criança abrem a cada respiração. Isso é um recurso fisiológico do do organismo para aumentar a entrada de ar, mas é indício de dificuldade respiratória.
  • Afundamento de Fúrcula: No final do pescoço/começo do tórax, aparece um afundamento cada vez que a criança inspira. Outro indício de que o corpo está se esforçando para puxar mais ar.
  • Costelas aparentes: Os ossinhos da costela aparecem quando a criança respira, outro sinal relacionado ao esforço para respirar.
  • Frequência respiratória: um parâmetro objetivo de mal estar é contar a frequência respiratória da criança sem febre e de preferência em repouso. 

Como contar a frequência respiratória: observe o abdome da criança deitada e identifique o ciclo completo da respiração (inspiração e expiração). Esse é um movimento. Marque um minuto no relógio, e conte quantas vezes a criança realiza o movimento respiratório. Pode também fixar a inspiração OU a expiração para contar. Caso a barriguinha esteja subindo pode contar quantas vezes a barriga sobe.

A frequência respiratória acima da indicada na tabela da OMS, pode indicar a necessidade de procurar um PS. Essa avaliação deve ser eita sem febre, pois com febre a criança pode ter aumento de frequência respiratória.




Diagnóstico Laboratorial

O diagnóstico específico do Vírus Sincicial Respiratório (VRS) e outros vírus respiratórios é realizados através da coleta de secreção respiratória. O melhor material para coleta é o lavado nasal. Entretanto podem ser utilizados swab nasal ou de orofaringe. 

A medição de oxigênio da criança ajuda a avaliar a gravidade do caso, indicando a necessidade ou não de internação e do uso de oxigênio .

O raio-x de tórax não é um exame específico para bronquiolites mas poderá indentificar uma pneumonia ou outro quadro pulmonar que não seja bronquiolite.

Tratamento

Não há tratamento específico pois se trata de um quadro viral.

Como para qualquer doença respiratória, as inalações com soro fisiológico costumam ser bem indicadas, mesmo sem medicação, por atuarem diluindo a secreção que se forma no sistema respiratório, hidratando as vias. 

Se você não tem um inalador em casa, o vapor do banho pode ser também uma forma de nebulização. Geralmente não ira sozinho resolver em caso de bronquiolites.

Outra forma de manter as vias hidratadas é a aplicação direta de soro nas narinas do bebê, além de fazer a remoção de muco acumulado nesta região.

Pode ser uma boa medida protetiva e de tratamento a limpeza do muco acumulado, usando-se sugadores e aspiradores nasais, que existem em vários modelos no mercado

Tanto o uso de soro nasal, inaladores e sucção de vias respiratóprias podem ser dificultados pela criança que tende a resistir a estes procedimentos. Mas acredito que o conforto que eles trazem depois justifica seu uso.



Se for identificado broncoespasmo, que é o estreitamento agudo das vias aéreas (normalmente identificado pelo chiado), o tratamento deve ser mais invasivo e com uso de medicações mais fortes. Pode ser o caso de fisioterapia respiratória e uso de anti-inflamatórios e broncodilatadores. Na situação de dificuldade de oxigenação ou nos casos de crianças de maior risco para complicações a internação pode ser a melhor opção.

A fisioterapia respiratória feita por profissionais capacitados auxilia na redução de internações para bronquiolites e pneumonias e eu recomendo sempre que se tratar de quadros respiratórios mais importantes.

É natural que crianças doentes tenham perda de apetite, sendo um dos primeiros sinais de melhora a volta do apetite. Portanto oferecer alimentos geralmente mais preferidos pela criança alem de ser uma fofice necessária, pode auxiliar na aceitação.

Líquidos calóricos como água de coco e sucos também podem ser oferecidos.

Vacina para o VSR (Palivizumabe)

Palivizumabe é um anticorpo monoclonal específico contra o vírus sincicial respiratório. Não é exatamente uma vacina, pois não estimula o sistema imunológico a produzir anticorpos.

Quem pode usar o palivizumabe: recém-nascidos pré-termo com menos de 29 semanas de idade gestacional devem fazer uso durante o primeiro ano de vida; aqueles nascidos entre 29 e 32 semanas de gestação, até o sexto mês de vida; e portadores de doenças cardíacas e pulmonares nos dois primeiros anos de vida.

Prevenção

Por se tratar de contágio por vírus através das secreções da pessoa contaminada em contato com as mucosas, a melhor forma de prevenção é a higiene. Muito embora saibamos que no dia a dia das crianças, especialmente daquelas que frequentam escolas e que tem contato com outras crianças, seja bastante improvável que se consiga evitar completamente o contato com o vírus, adotar uma rotina de lavar as mãos e a face com sabão comum e alguma frequência pode ser uma boa ideia. 

Além disso é recomendado que as escolas e seus gestores estejam atentos para o aparecimento do VSR em suas unidades, comunicando as famílias de possíveis casos.

É sempre bom lembrar que estar em lugares fechados com pouca circulação de ar pode ser mais perigoso que estar ao ar livre mesmo no frio.Portanto, janelas abertas e brincadeiras ao ar livre são bons amigos das crianças no outono.

As estações mais secas do ano, como o outono e inverno, costumam contribuir para o aumento dos casos, e piora dos quadros. Portanto, a umidificação do ambiente pode ser uma medida de proteção. Uma toalha molhada no quarto ou uma bacia com água costumam ser boas ideias para aumentar a umidade do ar, e manter o sistema respiratório mais hidratado.

O leite materno é um fator de proteção para a saúde das crianças em qualquer idade e para qualquer doença. Assim, sempre cabe reforçar a importância da amamentação no sentido da prevenção e minimização das doenças da infância.


quarta-feira, 19 de abril de 2017

Minha filha apanha na escola!

Pretendo começar hoje uma reflexão a partir do relato de uma mãe sobre as relações de sua filha na escola e com a escola. a difícil arte de educar filhes !

"Fulana apanhava na escola. Da primeira vez, eu pedi que falasse com a professora. Eu nunca ensinei filha minha a bater, sempre achei muito errado responder com violência. Da segunda vez que bateram na fulana, eu mesma fui falar com a professora. Ela disse que fulana é carinhosa e doce, e colocou nos pais do menino que bate a culpa por não dar limites. Fico me perguntando qual é o limite que os pais tem que dar para as crianças que batem, que não passe por alguma violência - mesmo que não seja física, a qual eu condeno. A professora escreveu um bilhete na agenda e conversou com o garoto sobre o valor das amizades e como devemos ser amigos de todos na escola, dando por cumprida sua tarefa, 'fez sua parte'. Da terceira vez que bateram na fulana eu olhei bem fundo nos olhos dela e disse: revide."



Crescer é de fato um desafio para todo mundo que se dispõe a pensar no assunto.

Não há teoria que sustente a prática cotidiana de criar, amar e educar os filhos, de modo que quem não vê nessa trilogia um dos maiores desafios da existência humana pode ter encontrado um lugar de conforto daqueles de onde nunca se alcança o crescimento.

Na prática, muitas vezes crescer está em lidar com o confronto, e não com o conforto.

Todo mundo leu nos livros e escutou nos discursos humanizantes que não devemos jamais ensinar a criança a revidar violência com violência. "Se alguém machucar você na escola, diga que não gostou e procure a professora!" - a gente repetiu ad eternum essa máxima, sempre torcendo para que o machucado fosse suportável, a professora fosse justa, a escola fosse equilibrada com um número correto de adultos (bem formados) por crianças e os pais do agressor fossem como a gente, celebrassem os nossos valores. Ou seja, repetimos a máxima do ideal, dos lugares de conforto, quando dia após dia, o crescimento nos apresenta lugares de confronto.

É a vida desafiando os livros!

É o real desafiando o ideal!

É o possível desafiando o melhor!

Tenho visto muitos relatos de um grupo de mães e pais lidando com essas questões: como se as teorias das boas relações humanas passassem por ideais romantizados de paz, onde os coletivos de crianças pudessem crescer sem nenhum conflito, verbal ou físico. Como se, na hipótese do conflito estabelecido, chamar a professora fosse a solução definitiva (e em uma única vez) para todos problemas. Ainda como se, o adulto que media essas questões, esteja ele na escola, na festa de aniversário ou em casa, fosse sempre algum exemplo a ser seguido, e tivesse naquele momento todos os recursos necessários para lidar com os conflitos que se apresentam.

E principalmente como se tivéssemos sempre a melhor solução para o conflito, nem sequer conhecendo que desejos e pensamentos povoam o universo desta criança, ora vitima, ora vilã !



O mais difícil para mim é dar voz a essa criança. Nesse relato dessa mãe fica faltando a criança. 

Como ela viveu a agressão, como foi procurar a professora e o que lhe foi respondido, qual seu desejo de reação diante desta agressão. Ela não deveria ter sido ouvida? Ação e reação, agressor e vitima não são proposições parciais desta situação? Para toda situação de violência física há uma unica resposta possível?

"Fulana voltou para casa e disse que bateu de volta no menino. Peguei a agenda e lá estava o bilhete, dessa vez condenando a ela por atitude agressiva e a mim 'por falta de limite'. A professora pedia que eu conversasse com ela sobre não agredir o colega, e me passou um sermão escrito sobre como a violência não é a solução. Acho engraçado uma pessoa que trabalha com educação de crianças negar a violência que existe nas relações humanas, do alto do entendimento de que bilhetes na agenda e culpabilização dos pais resolveriam esse 'problema'."

Do mesmo modo que nos aproximamos de nossa humanidade nas atitudes desumanas e temos nelas a oportunidade de crescimento, superação, evolução, poderíamos enxergar nos conflitos infantis um caminho para sua própria solução? Quando deveríamos intervir ?

Será que vale teorizar sobre a não violência para uma criança que está sendo agredida? Qual é a resposta que se espera de uma criança que foi agredida? Qual o acolhimento que se espera dos adultos em torno de uma criança que agride? O que fazer com essa horda de pais que é responsabilizada por absolutamente tudo que se passa na vida dos filhos, quando têm (com sorte) duas ou três horas ao dia de convivência com eles?

Qual a responsabilidade de gerir os conflitos vividos na escola pela própria escola?



Já escutei familiares sustentando orgulhosamente a antítese da máxima humanizante - "eu ensino a mirar no nariz e socar com força". E já escutei pais e mães que, em nome da teoria, isentam-se também, como um bilhete na agenda e as frases prontas sobre amor e amizade, de construir com a criança e os demais envolvidos formas vividas, e não teorizadas, sobre viver no conflito.

Nem uma coisa nem outra me parece sadia. Ambas atitudes isentam os adultos de efetivamente mediar. De seu trabalho como pais, mães e educadores. Mas podemos mediar quando definimos agressor e vitima? 

Ensinar a revidar não precisa significar ensinar a bater de volta. Pode significar não abrir mão do seu brinquedo, sem com isso virar pancadaria, por exemplo. Ensinar a revidar não precisa ser um ato condenável. É preciso munir as crianças, e quanto mais vão saindo da primeira infância, maior parece ser essa necessidade, de recursos para que sim, se defendam. Quais os espaços de crescimento que vamos criar?

Sabemos reconhecer em nós mesmos esta dificuldade? Um texto cheio de perguntas para uma situação extremamente difícil !

"E então ela voltou para casa contando de novo que eles brigaram na escola. Na saída do dia seguinte me plantei no portão e pedi que me mostrasse quem era a criança que a estava agredindo. Uma mãe tem seus limites. Com fulana do meu lado, abaixei e olhei firme para os dois: eu sou mãe da Fulana, tudo bem? Ela e eu estamos muito tristes porque vocês andam brigando na escola. Eu estou te pedindo que não encoste mais nela. Vocês não precisam ser amigos. Vocês não tem obrigação nenhuma de brincar juntos. Vocês podem ficar a vida toda cada um brincando no seu canto, não precisa nem dar bom dia, caso vocês não gostem um do outro. Está liberado não gostar do outro. Mas vocês dois NÃO PODEM (e nessa hora eu fui bastante firme) se bater. Tratem-se com respeito, e se ela fizer algo que você não goste, pode falar comigo também. Eu não quero que você bata na minha filha. Estamos combinados?" 

Será que esta mãe conseguiu resolver este conflito definindo que ninguém precisa gostar de ninguém, mas podem viver/coexistir nesse espaço?

Acho pouco provável e, pior, imagino o tanto de outros conflitos que vão nascer a partir desta atitude. Imagino a escola a desqualificando, a família desta outra criança exigindo providências pelo absurdo da atitude desta mãe.

Quando se trata de intervenção de adultos, parece que a confusão não tem fim. Particularmente não acho justo que essa mãe se dê ao direito de ter uma conversa de adulto com criança sem que seja sua filha, ou que a outra mãe ou pai estivessem presentes.

Mas gostei de nomear aqui o imenso universo contido numa rixa de escola e seus desdobramentos. E que soluções mágicas e estereotipadas sobre solução de conflitos negam a inteligência e complexidade humana. 

A confusão começa em negar o conflito e imaginar um mundo no conforto da falta de conflito. Como se este mundo fosse vivo. A falta de conflitos denuncia um mundo morto e vazio das inúmeras possibilidades que as interações humanas trazem em si. 

Tentando desfazer certos e errados muito fáceis. Deixando de acreditar que onde há respeito pela singularidade não cabem respostas prontas. Não cabe o modelo vivo! Mas será que a tal conversa resolveu o problema?









segunda-feira, 10 de abril de 2017

Mães adotivas podem amamentar!

Amamentação com uso de translactador

É muito importante para as mulheres que pretendem adotar crianças, principalmente as recém nascidas, saber que há a possibilidade de amamentá-las.

Como em toda situação de amamentação ao seio, os benefícios são incontáveis tanto para a mãe quanto para o bebê.

No processo de adoção, os bebês que aguardam suas mães normalmente são alimentados por seus cuidadores provisórios através de mamadeiras, não tendo tido a chance de mamar ao peito. Um bebê que chega aos braços de sua mãe, podendo estabelecer o vínculo com ela, através do contato físico, calor e aconchego que a amamentação proporciona, poderá lidar melhor e superar as questões importantes, como a rejeição da mãe biológica ou adaptação à essa nova experiência afetiva. Encarar de forma natural essa prerrogativa é um bom começo para abrir oportunidades de cura e vínculo afetivo sólido entre esse bebê e sua mãe.

O contato com o seio materno norteia o bebê e a mãe na expressão de afetividade mútua, qualificando o vínculo como físico, quando ele não ocorreu pela gestação e pelo parto.

Rituais dispensáveis, no entanto nem por isso não importantes nessa relação sólida de afeto mútuo.

A amamentação em situação de adoção pode ser olhada com esse aspecto ritualístico, e acho bastante interessante que a gente possa ajudar essas duplas na construção de suas novas histórias. Já atendi mulheres que foram bastante disponíveis, e tanto o percurso como os resultados são sempre maravilhosos.

Quando se tem a previsão de quando o bebê vai chegar, podemos trabalhar com preparo da mama, usando calor, massagens e uma medicação que ajude a induzir produção, observando o poder do aspecto ritualístico também para a chegada de um filho que não virá pelas vias naturais do corpo materno, mas nem por isso precisa ser afastado dele.

Quando o bebê e a mãe já estão juntos,  pode ser utilizado um sistema de alimentação conhecido como Translactador. É um reservatório de leite com uma sonda que conectada ao mamilo, oferece a possibilidade do bebê sugar seio da mãe e receber leite a través da sonda. Como para qualquer processo de amamentação, a sucção do bebê é estímulo que pode ser suficiente para haver produção de leite.

Chamamos isto de Lactogenese.

Translactadores: modelos de sistema de alimentação com reservatório e sonda



No começo, proponho uma equipe. Acredito que esse trabalho não deva ser feito por uma pessoa só. Acredito nesse suporte de mais profissionais. Eu conto com as parceiras Andrea e Ione da Bioamamentar no espírito de equipe interdisciplinar criando uma rede de apoio para essas mulheres.

Também pode ser uma grande aliada, alguém da área de psicologia, para dar um suporte emocional. A mãe adotiva precisa de apoio para encontrar nas situações antes da chegada do bebê seus próprios rituais de preparo, coisas que em uma situação de maternidade biológica, podem ser construídas através da gestação e parto: momentos de passagem importantes entre a vida pré e pós chegada daquele bebê.

A enfermeira especialista em aleitamento materno, pode ser uma excelente profissional para o suporte técnico do sistema de alimentação complementar, o translactador, além da preparação das mamas.

A presença de uma fonoaudióloga também é de grande valia, e pode ajudar o bebê a conquistar novas posições buco-maxilo-faciais, provavelmente condicionadas ao tempo de alimentação artificial, e reverter a pega para o modelo necessário ao seio da mãe.

A pediatria ajuda nesse processo todo avaliando o crescimento e desenvolvimento desse bebê. Claro que outros profissionais que tenham esse olhar holístico para a maternidade como construção vital entre duas pessoas, e não meramente como um evento resultado de "ter filhos", podem ser também muito valiosos: como Doulas, grupos de apoio de mães puérperas e outros: tratando tanto essa mãe como esse bebê com a naturalidade e carinho que suas histórias únicas e especiais merecem. 



Quando se fala de amamentação pós adoção, não temos como proposta que a criança fique no aleitamento materno exclusivo. Estamos propondo uma estratégia de formação de vínculo de mãe-filho. Se o aleitamento acontecer, é um ganho maravilhoso, mas não é esse o objetivo.

O objetivo é que esse contato físico e emocional entre mãe e bebê aconteça. Para além da amamentação ao seio, é recomendado que esses corpos se encontrem através do uso de slings, contato pele a pele, massagens afetuosas como a shantala, banhos juntos. Tudo para favorecer o reconhecimento dessa nova história de amor.

Existem instituições, ONG’s, que são de pais que adotaram crianças que ajudam pais na situação de espera para adoção, e quando a adoção acontece, formar/deixar nascer/ criar vínculo. São pessoas que vivenciaram essa historia, que ajudam outras pessoas, através de orientações e apóio, como é o caso do Projeto Acolher.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Cultura e dor

"Cultura são artes elevadas à um conjunto de crenças."
Thomas Wolfe

Culturas e tradições e ciências!

É fácil falar das nossas, gostar daquelas que praticamos, defender aquilo que fizemos com nossos filhos ou o que foi feito conosco. Ou mesmo negá-las, já que em relação aos cuidados com filhos cada geração irá ser influenciada por técnicos da área de saúde que definem o que é cientificamente correto. Afinal nada mais elevado a um conjunto de crenças que a própria ciência!

Caso tivessem contado para uma mãe urbana na cidade de São Paulo na década de 80 que a placenta deve ser enterrada embaixo da roseira, provavelmente ela acharia esse costume muito esquisito. Afinal, não está na sua coleção de riquezas. Esta mulher é construída num ideal de que ela não é bicho e muito menos índia e que portanto, parir naturalmente e amamentar não fazem parte de seu repertório de vida. Sua maior riqueza viria da artificialidade.

Sim, você está vendo um sapato de salto para bebês. Foto Pee Wee Pumps.

Tudo feito pela industria é melhor !
O que ouso chamar da Cultura do Plástico.

Da mesma forma nos espantam as andinas quando colocam o bebê no aguayo e com força e segurança lançam a criança para a vida que existe no infinito atrás das costas da mãe. Uma experiência sensorial indescritível que essa mulher oferece ao seu bebê. Mas em nossa cultura de "cuidado com o pescoço" parece descabido fazer o bebê voar.

Foto Unbolivable


Lá na Nigéria o primeiro banho do bebê quem dá é a avó. É um gesto que representa que a comunidade de mulheres está apoiando a mãe nos cuidados com o recém nascido. "É preciso uma aldeia para cuidar de uma criança", eles dizem. Muita gente concorda, pouca gente pratica.

Fica difícil de frente da poesia do primeiro banho nigeriano enfrentar o fato de que muitos bebês na contemporaneidade são esfregados com brutalidade pela enfermeira do berçário, que precisa correr logo para preencher uma planilha (lembrando que preencher a planilha fica quase mais importante que o banho) e dar conta de tantos outros bebês e tantos outros relatórios.

Foto: How To Bathe a Newborn

Faz tempo que algumas coisas que acontecem com nossos bebês por aqui deixaram de ser tradição. Jamais seriam arte, apesar de ganhar ares de cultura. Não respeitam conjunto de crenças nenhum, se não a ordem de produção do modelo morto que nos rege. Em tom apocalíptico: o dinheiro (... não consegui resistir) 

Mas falando em dinheiro e nas coisas que ele compra, fora do Brasil as pessoas estranham as lembrancinhas de nascimento. "Como pode a mãe ter que presentear um visitante? Quem merece presentes é ela". Uma estranheza que faz algum sentido.

E exatamente na busca do sentido, descobri que no Paquistão e outros países Islâmicos a nomeação do bebê é um ritual que deve acontecer no seu 7º, 14º ou 21º dia pós nascimento, onde a sua cabecinha é raspada e um animal é oferecido em sacrifício em seu nome.

Foto: Beritawajo

Quando fala "sacrifício" já dá uma estranheza. "Pobre do animal, precisa matar?". Nada à ver com os bebês, mas há quem reclame das galinhas vendidas para sacrifício em rituais religiosos exatamente enquanto mastiga o filé de frango. Cultura tem dessas coisas, quando não é a nossa, dá uma estranheza. Chega a dar aversão!

As índias brasileiras pintam seus bebes de preto e vermelho. Querem vitalizar e afastar os maus espíritos , num ritual de proteção espiritual aos bebês. Nas populações urbanas do Brasil e do mundo, as mulheres vacinam seus filhos. A vacina ganha o poder mágico de proteger os bebês, já que no dia seguinte a vacina uma criança pode andar de metrô ou frequentar o shopping sem medo.

Na esfera das crenças, pode ser mesmo dolorido. Por que precisamos acreditar que não dói?
A circuncisão, dói.
Furar a orelha do bebê, dói.
A mutilação genital das meninas, dói.
Uma faixa apertada sobre a moleira, dói.
Vacinar, dói.

Essa foto é do AliExpress, onde você compra 40 laços por 8 dólares!!!


"Mas colocar o laço com aquela colinha especial não dói, é só enfeite, é carinho, é cultura, é para diferenciá-las dos meninos!Afinal todos estavam me perguntando o nome dele. Não dava para ver que era menina!"

Há dores físicas e dores na alma. Eu prefiro voltar à Thomas na busca do sentido: esse laçarote é arte elevada à um conjunto de crenças? Os furos nas orelhas transmitem amor de geração para geração? As festas na maternidade são vivências de poesia? Ou pode tudo isso - disfarçado de cultura - ser só mesmo pela dor? Pais preferem fazer a circuncisão logo para já resolverem este assunto. Mas e a dor (e o sentido de tudo isso) como ficam? Uma das coisas da vida, as dores sem sentido?

Fica aqui minha reflexão sobre a nossa Cultura do Plástico (fazendo um trocadilho sobre as cirurgias plásticas, e as dores sem sentido hehehe). Estamos tão envolvidos e acostumados com esse olhar sobre a vida e sobre a infância que pode ser nojento ou cruel realizar um sacrifício animal em nome de uma criança que nasce e, ao mesmo tempo, pode parecer natural usar cola no cabelo de bebês.

Ou ainda procedimentos dolorosos estéticos ou que envolvam crenças pseudo-cientificas.

"Cultura são artes elevadas a um conjunto de crenças" - busque as suas artes, seus sentidos, suas crenças. Se não, é só dor mesmo.