quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Abordagem Pickler - autonomia à partir do afeto

Emmi Piker foi uma pediatra húngara que estudou profundamente o desenvolvimento infantil. Motivada por seu trabalho em um orfanato pós guerra Pikler trabalhou intensamente com a natureza dos bebês, de modo a proporcionar um desenvolvimento de vínculos afetivos sólidos com seus cuidadores, à partir da leitura de suas necessidades, respeito aos suas vontades e especialmente liberdade de movimento.

O legado de Pikler não é um método. É uma forma de olhar a criança e o bebê, que direciona atitudes respeitosas e afetivas por parte do cuidador, colocando a criança como protagonista de seu desenvolvimento. Essa abordagem, que perdura hoje com o trabalho de sua filha Anna Tardos, no Instituto Lockzy na Hungria, tem alguns eixos de conduta, facilmente aplicáveis nas rotinas de pais e mães, e outros cuidadores de bebês e crianças pequenas.

- a construção de vínculos entre bebês e seus cuidadores se estabelece através dos cuidados diários: banho, troca de fralda, alimentação e preparação para o sono.

- nesses momentos o cuidador de e estar em estado de entrega plena com o bebê, olhando-o nos olhos e explicando sempre o que pretende fazer. Convidando-o sempre a ser sujeito daquela ação. "Agora vou abrir sua roupa, você pode levantar as perninhas para me ajudar?"

- o adulto está sempre focado em favorecer o sentimento de competência da criança, e não em fazer coisas mecanicamente por ela.

- a interação profunda com o adulto nos momentos de cuidados diários, nutre a criança emocionalmente e assim ela está preparada para a exploração livre de um espaço seguro.

- o bebê nunca é colocado em uma posição que ainda não assumiu. Para Pikler, o desenvolvimento motor é espontâneo e inerente e acontece à partir da atividade autônoma. Nada de estímulos artificiais, como bumbos ou bebê-confortos. Os bebês Pikler apropriam-se primeiro do chão, das superfícies, da horizontalidade.

- as crianças devem estar sempre em local seguro, de modo que o adulto não precise ficar tolhendo seus movimentos. Roupas confortáveis são desejáveis.

- ao adulto cabe a preparação desse ambiente e observação atenta das necessidades da criança, mas sempre com foco no brincar livre.




Muito embora o nascimento da abordagem Pikler esteja intimamente ligado com o conceito da orfandade, (e essa é uma reflexão pertinente - pois pode muitas vezes apresentar conflitos com práticas, por exemplo, da criação com apego) - é muito interessante sua visão da criança e do bebê enquanto potências. Enquanto seres resistentes e plenamente capazes de serem autônomos em seu desenvolvimento, quando providos de vínculos sólidos de afeto e liberdade. 


Conheça mais: 

- http://www.educacaodecriancas.com.br/desenvolvimento-infantil/emmi-pikler-orientacoes-para-cuidados-com-bebes-parte-1

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Pergunte ao Pediatra no Catraquinha

No Catraquinha - sessão do Catraca Livre dedicada a mater-paternidade - está acontecendo o Pergunte ao Pediatra. Semanalmente, o Cacá responde algumas dúvidas de leitores.

Uma pitada de reflexão acerca dos temas escolhidos pelos internautas e com o nosso olhar humanizado característico. Acompanhem pelo Facebook do Catraquinha!



"O desmame deve acontecer quando não estiver agradando a mulher ou já não interessar a criança mamar. A decisão de desmamar pertence unicamente aos dois. Não há prazo ou momento ideal dele acontecer. O desmame será natural quando não contribuir mais para fortalecer o vinculo entre a mulher e seu filho.

Vale ressaltar que o Ministério da Saúde recomenda dar somente leite materno para os bebês até os seis meses, sem oferecer água, chás ou qualquer outro alimento. A partir dos seis meses, a orientação é que se ofereça de forma lenta e gradual outros alimentos, mantendo o leite materno até os dois anos de idade ou mais".

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Entramos para a História: Lei que protege a amamentação finalmente regulamentada!

No dia 03/11 a presidente Dilma assinou Decreto que regulamenta a publicidade enganosa e não ética de produtos que competem com a amamentação. 


Essa é uma história que vem se estendendo por quase dez anos, quando o Brasil conseguiu transformar uma série de balizas normativas já existentes  em lei: a NBCAL, que aguardava assinatura do decreto presidencial. 

É sabido que a publicidade desregulada de substitutos ao seio e ao leite materno é uma das responsáveis diretas pelo desmame precoce. 

No nosso país, a NBCAL já regulamenta iniciativas comerciais  desde 2006 - e surgiu depois de mais de duas décadas de esforços de profissionais da saúde, ativistas e articuladores internacionais dos movimentos pro amamentação. 

A lei já garantia por exemplo, que ao sair da Maternidade, naquela infame sacola de propaganda de produtos para o puerpério, mães e bebês não recebessem chupetas, mamadeiras ou amostras de leite artificial. Algo muito comuns inclusive em países desenvolvidos. 

Por outro lado, ainda que a lei existisse, e fosse de fato um dos melhores textos para a proteção da amamentação - reconhecida inclusive por órgãos internacionais - não havia punição para infratores. Faltava regulamentação. E víamos em diversas esferas - no comércio, na internet, nos eventos promocionais para pediatras - uma série de infrações passando impunemente pela legislacao. Uma tremenda ameaça para a amamentação do ponto de vista coletivo, mas também individual. Uma família impactada por publicidade perniciosa de substituto ao leite, tem um desafio à mais para superar, na já difícil tarefa de amamentar um bebê. 

Como membros da Ibfan, - International Baby Food Action Network - um dos atores mais atuantes nesse longo processo de proteção da amamentação através de leis, estamos muito orgulhosos dessa conquista. 

O documentário independente à seguir conta um pouco dessa história. 



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Bebêgrafia - o primeiro ano de vida do bebê na visão dos pais

Bebêgrafia é um livro que reúne HQs, cartuns e ilustrações sobre o primeiro ano de vida dos bebês na visão de dois papais. Um projeto gráfico e literário que vai sair dos sonhos para o papel através da mobilização coletiva: um crowdfunding ajudou os autores, a levantar recursos para a publicação!

O livro promete, com humor e sinceridade, trazer à luz a experiência paterna da chegada dos bebês. Não se tratando de um manual de cuidados, os autores apostam nas suas reflexões e sentimentos - e grande talento com ilustrações - para convidar as novas famílias a se inspirarem com o novo, o inédito, o inusitado!


  


Victor Farat e Rodrigo Bueno são cartunistas e viraram papais na mesma época. Desde então a vida de ambos (como a maioria dos pais) virou de ponta cabeça. Os dois colegas de ofício passaram a ter um novo e intenso assunto em comum: os primeiros cuidados com os bebês. Entre fraldas sujas e noites mal-dormidas os dois artistas trocaram muitas ideias, informações e mapearam suas experiências com desenhos, HQs e cartuns. Bebegrafia é a soma desses dois olhares e traços distintos, constituindo um relato sincero, leve e bem humorado sobre essa fase inesquecível da vida: o primeiro ano de vida do bebê.



"Cacá. Esse é o nome do pediatra que a gente encontrou no segundo mês de vida das meninas.. O consultório dele parecia uma brinquedoteca bagunçada. E ele próprio, o Cacá, parecia um professor de yoga. Em nossa primeira consulta estranhei, pensei em dar no pé. É que eu estava costumado com um estereótipo de médico padrão, sérião, mais formal. Aquele sujeito era muito despojado pra ser um médico.
Mas a minha desconfiança foi diminuindo a medida que conversávamos. O Cacá ouvia mais que falava e não tinha nenhuma pressa. Todas as dúvidas, inseguranças e ansiedades eram tratadas com atenção, seriedade mas sem assombramento. As orientações estavam sempre focadas na saúde e não na doença. Assim ele deu o suporte necessário pra que a gente se sentisse capaz de cuidar das meninas. Nos motivou com a ideia de que não era tão complicado cuidar de dois bebês prematuros. Dariamos conta. E a gente deu mesmo.
Cacá ainda é nosso pediatra e um bom amigo da família. Ele vai escrever o prefácio do nosso livro Bebêgrafia."

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O que são os objetivos do milênio

A Organização das Nações Unidas promoveu, em setembro de 2000, a Assembléia do Milênio, a reunião de chefes de Estado e de governo de maior magnitude jamais realizada: 191 delegações estavam presentes, 147 delas lideradas por suas autoridades de mais alto escalão. O debate resultou na aprovação da Declaração do Milênio, que reconhece que o mundo já possui a tecnologia e o conhecimento para resolver a maioria dos problemas enfrentados pelos países. Até então, no entanto, tais soluções não foram implementadas na escala necessária. O estabelecimento destes objetivos representa uma grande realização da comunidade internacional, visto que são mensuráveis e temporalmente delimitados.




CONTEÚDO
Oito objetivos gerais foram identificados:

1 - Erradicar a extrema pobreza e a fome.


2 - Atingir o ensino básico universal.


3 - Promover a igualdade de gênero e a autonomia das mulheres.


4 - Reduzir a mortalidade infantil.


5 - Melhorar a saúde materna.


6 - Combater o HIV/AIDS, a malária e outras doenças.


7 - Garantir a sustentabilidade ambiental.


8 - Estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento.

PARA AS CRIANÇAS
Ainda que os ODM sejam para toda a humanidade, dizem respeito principalmente à criança.
Por quê?

Crianças são mais vulneráveis quando a população em geral carece de elementos essenciais como alimentos, água, saneamento e atenção de à saúde. Também são as primeiras a morrer quando suas necessidades básicas não são atendidas.

Ajudar a criança a desenvolver todo o seu potencial significa um investimento no progresso da humanidade. Isso porque, nesses primeiros e fundamentais anos de vida, toda assistência que se possa dar à criança faz uma enorme diferença em seu desenvolvimento físico, intelectual e emocional. E, quando se investe na infância, os ODM são conquistados mais rapidamente, já que as crianças constituem uma grande porcentagem dos pobres em todo o mundo.

BRASIL

Ao final dos 15 anos do contrato - o Brasil cumpriu parcialmente algumas metas e totalmente duas, diretamente relacionadas à infância. São: redução da mortalidade e erradicação da fome e miséria. 

Saiba mais: 
Amamentação e os objetivos do milênio. 
http://www.aleitamento.com/promocao/conteudo.asp?cod=1873

Metas do Milênio no Brasil
http://m.zerohora.com.br/284/noticias/4678531/o-desempenho-brasileiro-nas-metas-da-declaracao-do-milenio-da-onu

Mais detalhes sobre cada um dos objetivos 
http://www.radardaprimeirainfancia.org.br/conheca-objetivos-milenio/

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Felicidade é o grande remédio

Texto de Cíntia Dalpino

(...)

É mais fácil prescrever um remédio para a dor de cabeça do que saber porque aquela pessoa está preocupada. É simples e rápido dar um diagnóstico com uma prescrição. O sintoma some, a pessoa se sente curada. Mas o problema continua lá.

Porque o problema, na maioria das vezes não é a doença. E sim o que a causou.

Na vida temos essas descobertas. E com a maternidade, talvez isso tenha ficado tão evidente que seja difícil não enxergar. A felicidade, o bem estar, a conexão humana.. está tudo intimamente ligado com a saúde.

Me lembro que quando a Eva era pequena fui ao nosso pediatra, o Carlos Eduardo Correa, carinhosamente chamado de Cacá. Eu tinha o hábito de colocá-la numa piscininha com água gelada no fim de tarde com uma amiguinha do prédio. Era o meu ‘happy hour’. Elas brincavam na água, se divertiam, saiam peladas correndo e, mesmo no frio, aquilo tinha um efeito mágico no nosso dia.
Quando relatei aquele fato para o Cacá, com medo de que aquilo fosse usado contra mim caso ela ficasse resfriada, ele deu uma sonora gargalhada. “Mas que delícia! Pode ir na piscininha! Se faz vocês felizes, faça isso!”. E fizemos por meses seguidos, até a amiguinha se mudar de prédio e perdermos a companhia.

Ela nunca ficou resfriada por conta disso.

Mas aquela não foi a primeira vez que ele prescreveu felicidade. No pós parto da Eva ele me fez perceber que eu estava incomodada com as visitas e prescreveu uma viagem para que a Eva parasse de chorar todo fim de tarde. Funcionou. Na praia por 20 dias, não houve um choro sequer.

E assim, cada vez que eu ia numa consulta, aprendia um pouco. Enquanto entendia a mim mesma, percebia como a resolução dos meus problemas, das minhas carências, da minha confusão, estava relacionada com a saúde da minha filha.

Os sintomas eram tratados, mas o olhar cuidadoso daquele médico com a nossa família é que curavam de verdade. Era ele quem me fazia contar sobre como eu me sentia em relação à maternidade, à falta de tempo, desabafar sobre meus medos, minhas angústias e as inseguranças que me afligiam.



Posso afirmar com todas as letras que nunca houve uma doença na minha casa que não estivesse relacionada com nosso estado de espírito. Porque quando eu enxergava as semanas que antecediam os sintomas físicos, podia ver tristeza, podia ver medo. Podia ver algo que não estivesse relacionado à felicidade.

Felicidade cura. Ela está relacionada à imunidade. Hoje existem até mentores da felicidade que levam o conceito de felicidade para ‘curar’ crises em grandes empresas. Segundo o empresário Maurício Patrocínio, criador do programa Discutindo a Felicidade, esse é o grande ‘remédio’ atual. Por isso faz palestras por todo o Brasil, ajudando a levar felicidade nas empresas. O impacto? Imediato. Reflete nas vendas, reflete na produtividade. reflete no lucro. reflete em tudo.

Porque agora as pessoas perceberam que não adianta ser perito nisso ou naquilo. No dia a dia, se o cara mais capacitado do mundo não estiver bem consigo mesmo, não consegue desenvolver um bom trabalho.
Talvez seja por isso que tenhamos tantas pessoas doentes. Tanta gente infeliz.

Falta felicidade. Faltam referências que nos libertem para que possamos olhar com amor para nós mesmos, e para as nossas relações. Para a nossa vida. E possamos olhar para a manutenção da felicidade de uma maneira real. Sabendo que é um antídoto para tudo.
Que saibamos perceber que mais importante que fazer desse ou daquele jeito, é mais eficaz a maneira como fazemos. O amor que colocamos nas relações e no cuidado com as crianças e com nós mesmos.

Como diz o Cacá, nosso Patch Adams brazuca, citando sabiamente Jung “Por mais que eu conheça técnicas, por mais que eu domine técnicas. Diante de um ser humano, que eu seja outro ser humano”.

É isso.



quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Humanidade e Superação

Gosto muito de escrever mas ando percorrendo o caminho da falta de convicções para tal. Me sentindo num impasse da vida , em que as ideias vem contraditórias e sem certezas. Desde que assumi que não há verdades e sim opiniões sobre os caminhos a seguir ficou bem difícil me posicionar, por parecer Caetano dizendo isto ou aquilo. Ou não.

São tantas certezas que encontro no caminho pessoal e profissional, tanta gente liberta do medo da dúvida, que ando me sentindo solitário em caminhar a trilha da incerteza. Do talvez. Do nem sempre.
Me encontrei com Deus, me encontrei nesta linha de pensamento, me encontrei neste sentimento, superei dificuldades, me superei.

E aí? Para onde se vai depois da superação?
Acabou? Estou pronto ?

Aliás, superação parece a palavra correta da vez, mas que para mim significa um ato contínuo. Superar deveria ser o que todos diriam todos os dias por viverem este dia.
Quem disse que a superação está em um lugar? Está num acontecimento? A superação está num encontro com um eu melhor e maior que provavelmente irá nos predispor a novas questões? Novas dificuldades? Nova necessidade de superação?

Ou não? 

E aqueles que não superaram isto ou aquilo estão piores?
É tanta avaliação de valor, melhor ou pior, que a confusão fica enorme. Palavras perigosas que constroem castas de certos e errados e fazem todos viverem um papel fictício de "ganhadores e perdedores".

E novamente, o amor e a compaixão se esvaem, sangram e morrem. Pela natureza da compaixão não há quem ganhe ou perca e muito menos pela lei do amor. Não sejamos super heróis de nós mesmos e muito menos heróis para o mundo.

Sejamos bons humanos com defeitos e qualidades. A vida não deveria ser vista da ótica do certo ou errado e sim da emoção que cada momento carrega. A amorosidade é misteriosa e envolve dizer sim e não, mesmo que isto não agrade. Mesmo assim, aproxima as pessoas.
As torna reais.
As faz humanas. 

Colagem de Diego Maxx

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Ensina teu filho a não ter, para que não sinta falta.


Vamos celebrar o prazer de construir uma família?
Podemos nos render a trama social do que parece correto, e assim, acreditar que um bebê abandonado é um exemplo de bem estar e felicidade.
É para muitos, o modelo do bem materno. Abandona teu bebê, para que ele não acostume com os bons tratos de uma mãe amorosa.

É simples assim.
Por que acostumar a criança a ter amor, se o faltará para a vida inteira?
Veja meu caso, é melhor já aprender que há falta de amor, do que viver procurando um.
Assim se constitui uma humanidade, destituída de humanidade.

Que lógica há nisso? Ensina teu filho a não ter, para que não sinta falta.
Cansado, cansado e cansado.
Que as subversivas do amor se joguem, e estabeleçam o direito de amar da forma mais natural e humana possíveis. O tal do amor incondicional.

Que através deste amor se construam seres humanos responsáveis e capazes de reproduzir este amor sem terapia. Sem releituras. Sem descobertas a respeito do amor. Simplesmente amor!!!!!!
A partir do ensinamento materno.
A partir das lições do pai.
A partir da família!




Imagem daqui

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Leites saudáveis fora da lata

O melhor leite que existe para os humanos é o leite materno.
O leite de vaca é um excelente alimento, de primeira! Para o bezerro!

Já existem muitos pesquisadores afirmando que, apesar de ser um alimento rico em cálcio e proteínas, o consumo de leite animal pode estar associado a outros problemas de saúde, como alergias. Não apenas pela precariedade do sistema de produção e alimentação dos rebanhos, mas também por se tratar atualmente de um produto hiperprocessado, em larga escala.

Hoje damos vista a outros tipos de leite. 
Que não vem da vaca e não vem da lata.
Os leites vegetais.

Foto: Vegetarian Times

Muito embora para a ANVISA o termo "leite" seja uma denominação exclusiva para o líquido extraído dos animais, quem consome os produtos vegetais percebe o motivo da apropriação: de aparência leitosa, muitas vezes cremosos e adocicados, os leites vegetais são ricos em vitaminas e minerais. O leite de amêndoas por exemplo é uma fonte rica de vitamina E, cálcio, fósforo, magnésio, proteína e gordura monoinsaturada.

O leite vegetal é uma excelente alternativa ao leite de vaca, tanto para adultos quanto para crianças fora da fase de aleitamento materno. Muitas famílias com filhos Alérgicos à Proteína do Leite de Vaca encontram nessa  opção solução para manter uma dieta equilibrada e segura, sem as inúmeras restrições que nos impõe a exclusão dos laticínios, em uma cultura alimentar como a nossa.
Ainda que já existam no mercado produtos prontos extraídos de vegetais, o ideal para o consumo diário desses leites é que sejam preparados em casa. E ainda que existam máquinas que prometem facilitar o processo, fazer leite vegetal em casa não é tão complicado quanto parece.

Alguns grãos e tubérculos poderão ser simplesmente batidos com água e coados. Outros, exigem algum tempo de molho ou cozimento.

Veja nesses links como preparar os leites vegetais:

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Alfabetizar precocemente significa empurrar a criança para o mundo adulto antes da hora



É possível alfabetizar uma criança com menos de 7, 6 ou até 5 anos de idade? Sim, é possível alfabetizar muito cedo uma criança. Mas será uma alfabetização significativa? Que comprometimentos podem advir do que entendemos como aceleração da alfabetização? Qual é o ganho efetivo para a criança?

Ouço muitas vezes no consultório os pais preocupados com o futuro caminho profissional definido pelo vestibular de seu filho ou filha de apenas 3, 4, 5 anos. Quando pergunto aos pais o que eles entendem do brincar de sua criança, geralmente respondem que é apenas um passatempo, exceto pelos jogos de raciocínio. Eles consideram importante preparar a sua criança para a vida, para a competição do mundo, para uma profissão que lhe dê “felicidade” – palavra quase sempre atrelada a “dinheiro”.

No entanto, se olhamos a criança quando ela está brincando, fantasiando, subindo em árvores ou correndo com outras crianças, verificamos um universo muito particular no qual ela desenvolve capacidades e uma confiança que, muitas vezes, não encontramos no universo dos adultos bem sucedidos. É por esse motivo que nas escolas Waldorf nós defendemos que até pelo menos os 6 ou 7 anos a criança simplesmente… brinque. O tempo que alguns julgam que ela “perde” por não ser rapidamente alfabetizada, ela na verdade ganha, acumulando forças internas para poder enfrentar o mundo que às vezes tanto preocupa os adultos.

Há quase 100 anos da fundação da primeira escola Waldorf na Alemanha, baseada em uma concepção de mundo denominada de Antroposofia, elaborada por Rudolf Steiner, confiamos cada vez mais nos resultados dessa prática, hoje disseminada em mais de 3 mil instituições em todo o mundo (com cerca de 25 escolas no Brasil, e dezenas de jardins de infância) orientando educadores quanto a essa questão. A antropologia antroposófica reconhece a importância do desenvolvimento físico, anímico e espiritual do ser humano em formação. Os sete primeiros anos da criança, por exemplo, representam uma fase de grande dispêndio de energia para preparar toda uma condição física. Isso se evidencia em um desenvolvimento neurológico e sensorial que tem sua expressão no domínio corporal, na linguagem oral, na fantasia, na inteligência.

Contudo, é na atividade do brincar que essas capacidades são desenvolvidas com alegria e seriedade, com atenção e responsabilidade, com segurança e confiança em um mundo bom, que não exige da criança além de suas possibilidades, ou seja, uma entrada precoce no mundo adulto. E alfabetizar precocemente significa empurrar a criança para o mundo adulto (para o qual ela não está preparada, portanto) antes da hora, um gasto de energia que poderá fazer falta na vida futura dela.

Em minha experiência docente, assim como psicopedagógica, sempre constato que, para uma criança pequena, o código alfabético é estéril, sem cor, sem beleza, pois é abstrato e desconhecido. Mesmo depois de alfabetizada, é o desenho que representa tão significativamente as suas vivências. Podemos verificar tal condição quando estudamos a escrita gráfica de nossos antepassados longínquos e a forma de comunicação de nossas crianças, o desenho. A escrita do povo egípcio, os hieróglifos, é a representação objetiva da realidade, ou seja, a re(a)presentação do mundo sensório pelo desenho. Mas quando em 3.000 a.C. surgiu a escrita fonética dos fenícios, ocorreu um distanciamento dessa forma de expressão, porque as letras não tem mais relação direta com os elementos do mundo circundante.

O desenho da criança é a forma de comunicação natural, semelhante aos antigos egípcios, que revela seu universo infantil com o código que lhe é caro e próprio. Quando a sua criança lhe mostra um desenho que tenha feito, ela está lhe contando como vê o mundo, como se sente, se está alegre ou triste. Não é só a escrita que é capaz disso.

Nas escolas Waldorf a alfabetização pelo código fonético inicia-se pelo desenho, de forma lenta e gradual, a partir dos 6 1/2 ou 7 anos, mas o desenho e a pintura correm em paralelo por toda a escolaridade, como uma forma de comunicação tão importante quanto nossa linguagem escrita.

A pedagogia Waldorf pressupõe que o professor, realizador dessa pedagogia, conheça o ser humano em seu desenvolvimento geral, respeite o contexto sociocultural em que o aluno está inserido e sua individualidade, saiba organizar seu ensino privilegiando a brincadeira, o canto, a dança, para que a alfabetização (e qualquer outro conteúdo de ensino) tenha significado e seja efetiva.

O brincar da criança, seu desenho, sua imaginação e sua criatividade, fazem parte de seu aprendizado sobre o mundo e sobre si mesma. O brincar representa o princípio lúdico que embasa as atividades dinâmicas e artísticas e pode orientar toda a prática docente, mas que também dá significado ao ensino-aprendizado, pois pode expressar o motivo, assim como, o vínculo afetivo com o professor e com o conteúdo.

Termino com uma frase do filósofo Friedrich Schiller: “O homem só brinca ou joga enquanto é homem no pleno sentido da palavra, e só é homem enquanto brinca ou joga”.

Texto de Sueli Pecci Passerini, publicado no caderno Aliás do jornal O Estado de São Paulo, p. J8, 30/9/12. (Versão revista em 9/11/12). Retirado do grupo Pedagogia Waldorf para a Família, no Facebook.

Sueli Passerini é Doutora em psicologia pela USP (Universidade de São Paulo), professora da FAAP e autora de O Fio de Ariadne – um caminho para a narração de histórias, 3a. ed., São Paulo: Editora Antroposófica, 2011. Integra a Aliança pela Infância e é professora dos cursos de pós-graduação em Pedagogia Waldorf no Centro Universitário Italo Brasileiro de São Paulo e Universidade Santa Cecília de Santos.


Saiba mais: 

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Colo mágico





Carregar o filho junto ao corpo voltou à moda. Descubra a importância do colo e a origem do sling


Por Deborah Trevizan*, mãe da Isadora e do Pietro

Nascer deve ser um tremendo susto. Dentro do útero, aconchegado e embalado 24 horas por dia, o bebê não precisa fazer nada para conseguir o que quer: comer, dormir... Está tudo lá. Do lado de fora, começa uma verdadeira batalha. Daí, só chorando mesmo.

Qual a mãe que nunca ouviu, em forma de conselho, que seu filho está ficando muito no colo, que vai ficar mal acostumado e manhoso? Às vezes, até os próprios médicos aconselham a não atender nossas crias assim tão prontamente, tirando do berço ao primeiro sinal de desconforto, com o perigo de torná-los dependentes demais.



No livro o Bebê mais Feliz do Pedaço, o pediatra norte americano Dr. Harvey Karp conta a história de uma tribo no deserto de Kalahari, na África. Na tribo Kung, as mães carregam seus filhos por quase 24 horas, diariamente. Isto mesmo: andam, trabalham, comem, dormem sempre com os filhos grudadinhos, amarrados ao corpo por meio de uma tira de couro. Cientistas passaram algum tempo observando os hábitos da tribo e em relação aos bebês fizeram uma interessante observação: eles nunca choram ou, pelo menos, não choram desesperadamente como muitos bebês. Será que é uma coincidência ou eles são mais calmos por continuarem a ter seus desejos e necessidades satisfeitos imediatamente após o nascimento?



Mães asiáticas, africanas e da América do Sul sempre privilegiaram o contato com o bebê e carregam suas crias para cima e para baixo em cangurus e carregadores (vale até lenços amarrados). Estas mães serviram de modelo para que diversos tipos de carregadores de bebês surgissem. A idéia se espalhou pela Europa, EUA e chegou ao Brasil: cada vez mais mulheres usam slings, wraps, fast wraps, mei tais e cangurus. Há até um termo usado nos EUA para estes carregadores: babywearing, criado pela família do Dr. Sears, renomado médico que comprou a idéia do carregador de bebês moderno, com a incorporação de um par de argolas no lugar do tradicional nó. 

Segundo o conceito do Dr. Sears, o sling é o instrumento, mas o objetivo principal é o colo.

Este costume chegou ao Brasil por meio de mulheres que tiveram contato com carregadores estrangeiros e o sling tem sido o preferido entre as brasileiras. Nosso toque foi dado com estampas, cores e tecidos leves. A pioneira na fabricação brasileira foi Analy Uriarte, mãe de Teodoro, Bruna e Frederico, desde 2003. Em 2007, Analy abriu a Sampasling com mais duas sócias. Ela conta que começou a fabricá-los para promover o babywearing, quando seu primeiro filho nasceu, há oito anos.

Naquela época, as pessoas estranhavam ao ver o menino pendurado junto ao corpo da mãe. Três anos depois, quando a segunda filha nasceu, as coisas foram diferentes. “Existe uma desconfiança inicial, mas depois passa. O bebê quer colo mesmo e a mãe precisa usar os braços. Acho que o sling ficou adormecido, mas não esquecido”, afirma Analy, lembrando que hoje já virou moda entre famosas. Atualmente, Analy está radicada no Paraguai e promove um trabalho social para divulgar o babywearing.

Analy, ao centro na primeira Slingada


Movimento mundial

A onda virou um movimento mundial: em 2008, aconteceu a primeira Semana Mundial do Babywearing. Mães de todo o mundo se reuniram com seus bebês a tiracolo. Em São Paulo, um grupo de mulheres também se organizou em um evento no Parque da Água Branca, zona oeste da cidade, com o nome de “Me amarro num colo”.

A educadora Elly Chagas, mãe de Caetano, foi umas das organizadoras e esteve à frente do evento em São Paulo. “Procuramos destacar uma postura mais humanizada na relação entre mãe e bebê”. Ela conta que o evento teve a pretensão de ser apenas simbólico, mas se mostrou bem efetivo. Mães que não conheciam o babywearing apareceram e as mulheres presentes conversaram sobre a relação mãe-bebê e a importância do colo. “Quem participou saiu diferente”, afirma.

A teoria de que os bebês ficam mimados ou dependentes do colo é rebatida no livro O Bebê mais Feliz do Pedaço. Segundo o autor, mesmo se um bebê ficasse no colo por 12 horas ao dia, não poderia ser considerado um excesso, pois já seria uma redução de 50% do que ele desfrutava no útero, 24 horas.



O carrinho é um lugar confortável e prático para mães e bebês, mas nem sempre é a melhor opção. Uma pesquisa feita pela Universidade de Dundee, na Escócia, analisou mais de 2.700 grupos de pais e filhos: os pais que empurravam seus filhos no carrinho em posição de costas conversavam menos com a criança, que geralmente ficava estressada. Por outro lado, bebês e crianças levadas de frente para quem as conduziam ficaram mais propensas a falar, rir e interagir. Ou seja, a atenção não faz mal e o colo é a forma mais natural de dar conforto e amor ao bebê, do mesmo jeitinho que era dentro do útero.

Para o pediatra Carlos Eduardo Corrêa, filho de Victor e Sylma, não existe mimo em relação à criança com menos de um ano. “Carente fica quem não tem”, diz ele. “É incoerente pensar que o certo é afastar o bebê da mãe, como acontece desde o nascimento nos hospitais. Hoje, algumas instituições já adotam o alojamento conjunto”, explica. Segundo o médico, seguimos uma tendência européia de evitar o contato físico. Ele ainda explica que estas regras impostas pela puericultura, divisão da medicina que trata de bebês, é algo que vem em um “pacote” de regras, aprendido pelos médicos em sua formação. Colocar hora e tempo para mamar, por exemplo, sugere uma rotina que não há razão para ser seguida por todos, pois cada família tem seu ritmo.

A psicóloga e psicopedagoga Eliana de Barros Santos, mãe da Mariana, da Rebeca e Laerte, concorda que dar colo é se entregar. “A mãe que não está disponível não exerce a maternidade em sua plenitude”, afirma. Foi esta entrega à maternidade que motivou a professora de dança Tatiana Tardioli, mãe de Nina e Gil, a carregar sua filha para o trabalho, auxiliando outras mães neste período. Ela dá aulas de dança para mães e bebês em São Paulo, utilizando carregadores. Seu projeto já está espalhado por todas as regiões do país, difundindo a prática. “Eu dancei e dei aulas de dança durante toda a gravidez da minha filha. A doula que acompanhou meu parto sugeriu que eu lecionasse para mães e bebês ao mesmo tempo, aí criei a proposta do curso, somando minha experiência, conhecimentos sobre o corpo e cuidados com o bebê."

Afinal, qual é o problema em relação ao excesso de colo? “O colo deixa de ser saudável quando impede o desenvolvimento físico”, diz Eliana. Em outras palavras, só não vale sufocar a criança e impedir seus movimentos. A pediatra Elga Castanheira, mãe do Rodrigo, do Ricardo, da Renata e do Rafael, afirma que qualquer excesso não é bom. “Houve uma época em que o colo e outras atitudes de cuidado com os bebês foram consideradas cuidados extremos e desnecessários. Isto felizmente já mudou e atualmente sabe-se que o carinho é fundamental para o desenvolvimento da criança. A amamentação não é feita no colo?”, completa.

Mãe canguru

Outra prova de que colo faz bem é o método conhecido com Mãe Canguru, muito utilizado com bebês prematuros. O Método Mãe Canguru foi inicialmente desenvolvido em maternidades da Guatemala onde a falta de incubadoras fez com que pusessem os bebês dentro das roupas das mães para mantê-los aquecidos. Desde então tem demonstrado beneficiar muito recém-nascidos permitindo que eles regulem melhor seu ritmo cardíaco e sua respiração, melhorem o sono, cresçam mais depressa e com menos choro e recebam alta antes dos prematuros que não usaram o método.

Projeto Pequenos Guerreiros

Tipos de carregadores

Sling: “Slingar” um bebê é transportá-lo junto ao corpo, sustentado por meio de uma faixa. Há slings que funcionam como uma “rede”, inteiros, onde os bebês se acomodam. Outros têm argolas e podem ser ajustados.

Sling tipo Pouch da Lilith



Wrap: É um pano que tem de 4 a 6 metros de comprimento e é amarrado dependendo da forma em que o bebê é colocado. Ele pode ser carregado na frente ou de costas, com uma boa distribuição de peso.

WrapSling da SampaSling

Fast Wrap: Uma variação do wrap. Prático para passeios ou uso domiciliar. Não tem fivelas, zíperes, nenhum ajuste e vem em 5 tamanhos. Dá para carregar o bebê em várias posições: na frente, nas costas ou de lado, dependendo da idade e do desenvolvimento. Quando a criança dorme, é só puxar o tecido para apoiar a cabeça.

Aula da Dança Materna no Rio de Janeiro - Foto Amarelinha Fotografia


Canguru: é o mais tradicional. É como se fosse uma cadeirinha com fivelas reguláveis. Pode ser usado na frente ou nas costas de quem o leva. A posição do bebê também pode variar entre virado para quem o carrega ou de costas.

Canguru ErgoBaby


Mei Tai: Com origem na Ásia, seu formato pode ser quadrado ou retangular e tem alças em cada canto, que são amarradas na cintura e passam pelos ombros e costas. A professora de inglês Heather Allan da Silva, mãe de Emily, Anna Elisa, Luca, Logan e grávida do Leo, usa muito o Mei Tai. “A vantagem é poder colocar bebês maiores com apoio nos dois ombros, mas mantendo as pernas em uma posição que não sobrecarrega a coluna da mãe.”



* Fonte: Núcleo Nove Luas

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Esse texto foi originalmente publicado em 24/09/09

sábado, 5 de setembro de 2015

Babywearing desde quando?

Uma das perguntas mais freqüentes de mães de recém nascidos é desde quando podem colocar o bebê no carregador. A resposta é: desde sempre.




Nessa imagem vemos uma mãe colocando um bebê de apenas alguns dias num carregador. Ele vai se aninhando na posição vertical, que é considerada pelos profissionais que implementaram o método canguru como a posição ideal. A posição é barriga a barriga com a mãe, pernas abertas, pés fletidos em posição de sapo, amarrado gentilmente contra o corpo do adulto.

O bebê prematuro pode ser mantido o tempo todo nessa posição, pois o adulto é sua encubadora. Num bebê à termo, não existe essa necessiadade, mas não existe contra-indicação para o tempo de colo oferecido.

A ideia é que o binômio mãe e bebê esteja em sintonia o suficiente para que ambos explorem as vantagens do babywearing pelos espaços de tempo que lhes forem confortáveis.

A posição vertical é facilitadora da digestão e evita os refluxos uma vez que os ácidos do estômago permanecem por ali, coisa que quando o bebê é colocado deitado pode ser prejudicial. O costume antigo de "colocar para arrotar" está para além de fazer o ar engolido durante as mamadas sair pela boca do bebê. A posição vertical é recomendada também para a diminuição de gases e possíveis cólicas do recém nascido. 

Uma das maiores vantagens do babywearing sem restrição para recém nascidos é a proximidade ao corpo da mãe e seus impactos positivos na amamentação. O leite humano é altamente calórico, mas de baixa gordura e proteína se comparado por exemplo com o leite de um urso, que pode deixar seus filhotes em uma caverna por longas horas para caçar, graças ao seu leite gordíssimo. Nosso leite seria o equivalente ao leite dos animais como o macaco ou o canguru, animais que carregam seus filhos consigo. 

Com o bebê em contato, o corpo feminino está constantemente liberando ocitocina e fabricando leite, com a descida da prolactina. A mãe também é naturalmente encorajada a perceber os sinais mais sutis do filho, e o bebê recebe leite com mais freqüência. Maior estímulo, maior produção e simbiose dos ritmos naturais dos dois corpos recém separados ditam a tônica do carregar o bebê ao longo dos dias.

O carregador vai permitindo que o corpo do bebê atue em transição entre a mãe e o mundo. 



E até quando o bebê pode ser levado no carregador? A resposta é diametralmente oposta à premissa do texto: até quando mãe e filho quiserem. Não há limite de idade para que uma crianças seja carregada no colo por seus genitores e, ainda que o senso comum insista em frases de efeito sobre "mal acostumar com o colo", não há absolutamente nada na literatura científica que sugira algum tipo de malefício para quem passou a primeiríssima parte da vida suspenso em afeto.


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No próximo sábado, dia 12/09 acontecerá o lançamento da edição em português do livro Besame Mucho de Carlos Gonzáles. Confira a programação do Espaço Nascente e venha participar!


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Desenvolvimento do Ser Humano na Primeira Infância

A Antroposofia é uma corrente filosófica fundada por Rudolf Steiner, que tem uma abordagem holística na leitura espiritual, física e social do ser humano. Uma ciência espiritual, conforme seus estudiosos.

Steiner definiu a antroposofia como "um caminho de conhecimento para guiar o espiritual do ser humano ao espiritual do universo." 

Para os amantes da puericultura, a antroposofia tem contribuições incontestes. Veja um resumo da abordagem de Steiner para os pequenos, de acordo com a Biblioteca Virtual da Antroposofia



Primeiro Setênio – 0 a 7 anos

É na primeira infância, mais precisamente durante os primeiros 7 anos, que as forças da individualidade estão localizadas na cabeça, e a tarefa neste período, é crescer, desenvolver os órgãos físicos que estão sendo formados, "independizar" o pólo superior do corpo, do pensar.

Com o nascimento, tem início o trabalho da individualidade, daquele ser cósmico que começará uma vida terrestre de transformação do invólucro corpóreo recebido dos pais, apto às suas necessidades. Portanto, neste período, a individualidade se ocupará em se apropriar do corpo herdado, moldando-o e reestruturando-o conforme suas peculiaridades interiores.

A criança, por assim dizer, reforma, refina seu instrumento físico, que é a corporalidade. Essa transmutação significa, aos poucos, eliminação das substâncias herdadas, desde as células mais microscópicas, que se tornam cada vez mais individualizadas, até os dentes, que são as mais duras do corpo, quando no final dessa etapa, a criança perde a dentição de leite, substituindo-a pela permanente, que é aquela que construiu a partir de sua interioridade.

Olhando, para os nossos sentidos, que, com exceção do tato que permeia todo o corpo, estão localizados na cabeça, podemos ter uma idéia dos aspectos que devem ser cuidados neste período inicial, para que a criança possa gostar de estar na Terra, dentro de seu próprio corpo.

Assim, para a construção do corpo físico de forma equilibrada, a criança deveria ter vivências permeadas por situações e circunstâncias que a levassem a perceber que o mundo é bom.

À essa criança, deveriam ser providas oportunidades de movimento livre no espaço, na medida em que vai se apropriando dele ao longo de seu desenvolvimento, desde possibilitar o engatinhar quando é bebê, até trepar em árvores e correr no campo quando é maior.

É por experimentação que a criança aprende, por tentativa e erro, e pelo princípio da imitação. O que não queremos que ela faça, não deveríamos também fazer, pois ela seguramente imitará gestos, fala, atitude dos adultos ao seu redor.

Rapidamente as faculdades humanas vão sendo adquiridas, quando, aos 3 anos a criança já conquistou o espaço físico com o andar, o espaço social com o falar, e o espaço espiritual, com o pensar.


Em síntese, neste primeiro setênio os princípios são :

• imitação

• bondade

• órgãos dos sentidos

• desenvolvimento do pensar

• processo de individuação física

Leia o artigo completo - que trata dos próximos oito setênios - no site Antroposofy

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Por que não querem dormir sozinhas?

Trecho do Livro "Besame Mucho" de Carlos Gonzalez

[...] essa espécie de terror que aflige as crianças quando acordam na noite ou na solidão.
ALEXANDRE DUMAS, Vinte anos depois

Onde dormiam os bebês há 100.000 anos? Não havia casas, não havia berços, não havia roupa. Sem dúvida dormiam junto à mãe ou sobre ela, em um leito improvisado de folhagem. O pai não devia dormir muito longe, e a tribo estava a apenas alguns metros de distância. Só assim podiam sobreviver durante o sono, o momento mais vulnerável da sua jornada. Uma lembrança daqueles tempos é o costume dos esposos de dormir juntos e o mal estar que nós, adultos, costumamos sentir quando uma viagem nos obriga a dormir separados do nosso parceiro. Muitas mães, se o marido dorme fora, "deixam" que os filhos venham para a sua cama, e nem sempre é fácil dizer qual dos dois encontra mais consolo na companhia.

Pode-se imaginar um bebê sozinho, sem roupas, dormindo no chão ao ar livre, a cinco ou dez metros da mãe durante seis ou oito horas seguidas? Ele não teria sobrevivido. Tinha que existir um mecanismo para que, também de noite, o bebê estivesse em contato contínuo com sua mãe, e novamente o mecanismo é duplo: a mãe deseja estar com o filho (sim, apesar de todos os tabus contra isso, muitas mães ainda o desejam) e o bebê resiste violentamente a dormir sozinha.

Dormir sozinho! O grande objetivo da puericultura do século XX! Como comentamos, um bebê a quem a mãe pudesse deixar sozinho, acordado, no chão, sem reclamar imediatamente, mas que ainda por cima dormisse, dificilmente teria sobrevivido durante mais do que algumas horas. Se alguma vez houve bebês assim, eles foram extintos a milhares de anos (Bom, não todos. Falam de bebês que dormem a noite inteira, espontânea e voluntariamente. Se o seu é um desses raros bebês, não se assuste, também é normal). Nossos filhos estão geneticamente preparados para dormir em companhia.

Para um animal, o sono é um momento de perigo. Os nossos genes nos impulsionam a mantermo-nos acordados quando nos sentimos ameaçados e a deixar-nos levar pelo sono somente quando nos sentimos seguros. Sentimo-nos ameaçados num lugar desconhecido, e muita gente têm dificuldade em dormir em hotéis porque "estranham a cama". Temos dificuldade de dormir na ausência do nosso companheiro ou na presença de desconhecidos.

Você tinha que trocar de trens numa cidade distante e perdeu a última conexão. São duas da manhã, está tudo fechado e você tem que esperar na estação pelo trem das seis. Imagine agora várias situações possíveis: a) Você está completamente sozinha na sala de espera; b) Você viaja sozinha, mas na sala há uma dezena de pessoas, duas famílias completas, algumas senhoras idosas, um grupo de escoteiros; c) na sala só estão você e cinco jovens de cabeça raspada meio bêbados; d) você viaja na companhia do seu marido e de outros casais amigos.


Acha que adormeceria do mesmo modo em cada uma das circunstâncias?





Estranhos na noite

Onde quer que ela estivesse, ALI era o Éden. 
MARK TWAIN, O diário de Eva

Gabriel, de dezoito meses, "é ruim para dormir". Volta e meia chama a mãe, Maria: quer ouvir uma história, quer água, tem dodói... Cada noite se converte em uma tortura para toda a família. "Ele está te fazendo de boba - todos dizem - você devia deixá-lo chorar, não faz mal nenhum". Hoje, Maria e Gabriel foram visitar os avós no seu vilarejo perdido. O papai está trabalhando e não pode ir. Eles têm de trocar de ônibus numa pequena cidade. Mas o ônibus que vem da capital atrasou várias horas, e Maria e seu filho são os únicos que descem na solitária rodoviária, à uma e meia da manhã. O ônibus que vai até o vilarejo dos avós não até as sete e meia da manhã. Mãe e filho estão sozinhos na sala de espera mal iluminada. A estação de ônibus está nos arredores da cidade, separada das primeiras ruas habitadas por algumas árvores e por uma zona de fábricas e armazéns. Maria não se atreve a ir até o vilarejo andando. Ao lado da estação há um posto de gasolina. Ela pedirá ao encarregado que lhe chame um táxi, deve haver um hotel nessa cidadezinha... Será que ela tem dinheiro suficiente? Ela descobre apavorada que tem dinheiro suficiente apenas para o ônibus e que se esqueceu de pegar o cartão de crédito. Bom, afina são apenas cinco horas, será melhor esperar aqui. A luz acesa no posto de gasolina lhe dá certa segurança. Ela quase preferia esperar no posto, mas está do lado de fora.

De vez em quando passa um carro rápido ou ouve-se das fábricas, um latido de um cachorro. Perto das três da manhã, chegam cinco motoristas com jaquetas de couro, param entre a rodoviária e o posto de gasolina e começam a beber cerveja, gritando e brigando.

Às vezes um deles se aproxima da rodoviária ostensivamente e urina numa árvore, enquanto os outros riem e tiram sarro ("deixa de ser burro, José, você não vê que tem uma senhora? ,  "Não lolhe senhora, que não vale à pena, o dele é muito pequeno!"). E isso dura mais de uma hora e meia.

Maria, é claro, passou as lentas horas acordada, no assento mais perto da porta, agarrada ao filho e à bolsa. Gabriel, por outro lado, dormiu ao colo dela direto, sem acordar. Quem té que é "ruim para dormir"? No colo da mãe, numa cidade remota, rodeado por desconhecidos hostis, Gabriel se sentiu mais seguro do que em sua própria casa, no seu próprio quarto, no seu próprio berço. Para uma criança desta idade, a Mamãe é a Super Mamãe, a Protetora Invencível. Esse colo é o seu lar, sua pátria, seu paraíso. Não é maravilhoso, mamãe, sentir-se assim?


Na noite dos tempos

E se tem filhos, quando vivam, não remove nada nas suas entranhas?
VICTOR HUGO, Corcunda de Notre Dame

Naquela tribo, há 100.000 anos, duas mães foram dormir com os filhos. Não sabemos exatamente como elas faziam, mas sabemos o que fazem os chimpanzés atualmente : ao cair da noite, cada adulto prepara um leito macio com folhas e ramos e vai dormir. Os chimpanzés não tem camas de casal, o macho e a fêmea dormem separados (embora não muito distantes, é claro; todos na tribo, dormem perto uns dos outros). E mãe e  filho dormem juntos até que o filho tenha uns cinco anos.

No meio da noite aquelas duas mulheres primitivas acordaram por motivos que desconhecemos, começaram a caminhar, deixando seus filhos no chão. Uma das crianças era daquelas que acordam a cada hora e meia; a outra era dos que dormiam a noite toda, sem acordar. Qual deles você acha que não acordou nunca mais? Ou melhor, os dois acordaram ao mesmo tempo, mas um começou a chorar imediatamente enquanto o outro não começou a chorar até umas três horas depois, quando sentiu fome. Qual morreu de fome? 

Um começou a chorar imediatamente, e o outro ficou calado até que a aparição de uma hiena o assustou. Qual foi comido pela hiena? Um, quando começava a chorar, não parava até que sua mãe voltasse e o tranquilizasse: ele poderia chorar por meia hora, uma hora, todo o tempo necessário, até o esgotamento. O outra, pelo contrário, chorava por alguns minutos e, se não vinha ninguém, voltava a dormir. Qual dos dois dormiu para não acordar nunca mais?

Adivinhou: os nossos filhos estão geneticamente preparados para acordar periodicamente. Os nossos filhos herdaram os genes dos sobreviventes, dos vencedores da dura luta pela vida.

Não dormem a noite toda sem acordar, mas tem, assim como os adultos, vários ciclos de sono ao longo da noite. A duração de cada ciclo é variável, entre apenas vinte minutos e um pouco mais de duas horas; a duração média é de uma hora e meia para o adulto, mas apenas de uma hora para o bebê. Entre cada ciclo, passamos por uma fase de "despertar parcial", que é facilmente convertida em despertar completo.

Até mesmo os especialistas em "ensinar as crianças a dormir" reconhecem esse fato: o objetivo de seus métodos não é conseguir que a criança não acorde, isso é impossível. O que querem é que, quando acordar, em vez de chamar os pais, fique calada até dormir de novo.

As crianças "estão de guarda" para ter certeza de que a mãe não foi embora. Se o bebê sente o cheiro de sua mãe, pode toca-la, ouvir sua respiração, talvez mamar, volta a dormir imediatamente. Em muitas das mamadas, nem a mãe nem o filho despertam completamente. Mas, se a mãe não está, a criança acorda completamente e começa a chorar. Quanto mais tempo tiver chorado até que sua mãe o acuda, mais nervoso ficará e mais difícil será para consola-lo.


Um planeta, dois mundos

Mas - explode indignado - aqui em Milão essas crianças tão pequenas não dormem com seus pais? Quem cuida delas, então? 
JOSÉ LUIZ SAMPEDRO, O sorriso etrusco

Em outras culturas a prática da cama compartilhada é praticamente universal (e, consequentemente, os problemas de sono durante a infância, são praticamente desconhecidos). A psicóloga Gilda Morelli e seus colaboradores estudaram detalhadamente o comportamento e as opiniões de um grupo de 14 mães guatemaltecas de etnia maia e as compararam com as de 18 mães norte-americanas brancas de classe média.

Todas as crianças maias (entre os dois e os vinte e dois meses) dormiam na cama com a mãe, e oito delas dormiam também com o pai. Outros três pais dormiam no mesmo quarto,  em outra cama (dois deles com outro filho mais velho) e em três casos o pai estava ausente. Em dez casos havia outro irmão dormindo no mesmo quarto, quatro deles na mesma cama. As outras quatro crianças não dormiam com os irmãos porque eram filhos únicos.

As crianças maias ficavam com a mãe e mamavam em livre demanda até os dois ou três anos, pouco antes do nascimento de um irmãozinho. As mães normalmente não notavam se a criança mamava a noite, porque não acordavam e achavam que o tema não tinha importância (por outro lado, 17 das 18 mães norte-americanas tinham de acordar para alimentar o filho, a maioria durante seis meses, e as 17 disseram que as mamadas noturnas eram um incômodo).

Entre os maias não existia uma rotina para fazer as crianças dormirem. Sete dormiam com os pais e as outras dormiam no colo de alguém. As 10 que ainda mamavam no peito, dormiam no peito. Não liam histórias para dormir nem davam banho nos bebês antes de deitar. Somente uma das crianças tinha uma boneca com a qual dormia; era a única que não tinha dormido com a mãe desde o nascimento e que tinha passado alguns meses dormindo em um berço no mesmo quarto, para depois voltar para a cama materna.

As mães maias não concebiam que as crianças pudessem dormir de outra maneira. Quando explicaram que as crianças norte-americanas dormem em um quarto separado, demostravam assombro, desaprovação e compaixão. Uma exclamou:"Mas alguém fica com eles, não é?" A cama compartilhada não é uma consequência da pobreza ou da falta de quartos, mas é considerada fundamental para a educação correta da criança. As mães explicavam, por exemplo, que, para dizer a uma criança de 13 meses que ela não podia tocar em alguma coisa, bastava dizer-lhe "Não toque nisso, não é bom, pode fazer dodói" e a criança obedecia. Ao explicar a elas que as crianças norte-americanas dessa idade não compreendiam proibições ou que faziam mesmo o contrário, uma mãe maia sugeriu que esse comportamento era consequência de tê-las separado dos pais durante a noite.

É apaixonante comparar como se criam as crianças em diferentes culturas. Uma antropóloga norte-americana, Meredith Small, escreveu um livro imprescindível sobre este tema intitulado Our babies, ourselves. 


Todas as Ilustrações desse texto são da artista sueca Majali.
Fonte das imagens: Etsy

terça-feira, 11 de agosto de 2015

O Começo da Vida

"- Professor Einstein, se você tivesse uma pergunta apenas para fazer sobre o Universo, qual seria?  

- O universo é bom?" 




Esse é o trecho que abre a série de trailers que estão instigando a curiosidade da comunidade da puericultura. A Maria Farinha, produtora dos aclamados documentários Muito Além do Peso e Tarja Branca está trabalhando em um projeto de suma importância: O Começo da Vida, que tem previsão de estréia para março de 2016.

O documentário está sendo filmado por todo o mundo, e começou com o mote dos 1000 primeiros dias. Os mil dias do bebê são um conceito relativamente novo - e infelizmente já apropriados pela indústria de alimentos artificiais, portanto vale à pena falar um pouco sobre ele para que sua relevância fique clara para as famílias.

Os mil dias compreendem o mês anterior à gestação, os nove meses de gravidez até os dois anos da criança. Estudos recentes, mostram que do ponto de vista da saúde emocional e física, todo o entorno contribui para a formação plena desse ser. Ao contrário do que se acreditava, por exemplo no caso da obesidade, que os problemas começavam a ser formados na idade adulta, hoje sabe-se, através de estudos, que a gênese de muitas condições psíquicas e fisiológicas está exatamente nessa tão importante fase de desenvolvimento. 

"A possibilidade de fazer uma criança que nasce com boa saúde crescer desse modo e assim permanecer por décadas exige a adoção de medidas aparentemente simples: oferecer proteção e aconchego ao bebê e alimentá-lo adequadamente." 

O que parece ser tarefa simples e um excelente mote de pesquisa documental, transformou-se em um imenso mar de informações, histórias e depoimentos de profissionais ao redor do mundo. E os mil dias extrapolaram para o Começo da Vida, nome oficial do documentário. Assistam os traillers abaixo!

O mundo tem sido amigável, bom, generoso, gentil, amoroso, carinhoso, cuidadoso com nossos bebês?




terça-feira, 4 de agosto de 2015

Quando a Amamentação "não dá certo"

Em plena Semana Mundial da Amamentação vemos pelos diversos canais de informação para mães e pais tudo sobre a importância do Leite Materno.

Para engrossar o coro em não mais que um parágrafo, é evidente que o leite da própria mãe é o melhor alimento para o bebê. Na verdade, o leite materno é o único alimento infantil que existe, e tem garantido a sobrevivência das espécies mamíferas nos últimos milênios de evolução. Ele contém tudo o que o bebê precisa, em termos de nutrição e proteção. De modo que os esforços da informação para o aleitamento materno estão há muitos anos focados em desmistificar ideias ultrapassadas como "leite fraco", "leite aguado", "não sustenta" e outras mitologias criadas pela indústria, que sempre quis esse filão crescente e eterno do mercado: bebês e crianças.

Mas hoje quero discutir uma outra questão sobre amamentação: às vezes, ela "não dá certo". E as aspas nessa frase são propositais e importantes.

Caminhando pelas redes na Smam, veremos milhares de relatos de sucesso. A campanha desse ano, inclusive, aborda uma etapa ainda mais distante dos desafios iniciais do processo de amamentação: se a mulher já venceu a batalha de fazer "dar certo" ela agora tem que se preocupar em como seguir amamentando, mesmo voltando a trabalhar. Um lugar de debate e um ponto de ação importantíssimos, afinal do ponto de vista da saúde pública, os benefícios da amamentação estão para além dos quatro parcos meses de licença maternidade. A própria OMS recomenda dois anos ou mais. E a Smam vem para trazer esse olhar, para a mulher que já venceu os desafios iniciais e precisa agora conciliar a vida toda com a amamentação. Tarefa hercúlea.



Mas na mesma medida, há tantos outros relatos de insucesso. Muitas pessoas tem se manifestado com afeto em acolhimento às mães que não amamentaram. E uma escuta ativa dos casos de insucesso vai nos revelando os mesmos motivos que os especialistas na área e os ativistas pela amamentação apontam com insistência. Quando a amamentação não dá certo, pode ter certeza que houve:

Falta de profissionais especializados: sabemos que a grande maioria dos profissionais de saúde que atendem mães e bebês no pós parto imediato simplesmente não é especialista em amamentação. Desde as orientações erradas sobre a pega até recomendações obsoletas como as mamadas com tempo cronometrado ou em horários específicos, vemos relatos de práticas ruins por parte desses profissionais, que certamente influenciaram no insucesso dos processos de lactância. Sabemos da delicadeza e interdependência dos fatores quando o assunto é amamentação. Uma orientação errada, mesmo que na maior boa vontade, pode acarretar consequências cada dia mais desastrosas, como é o caso da pega. Essa é uma realidade dura, mas que vem sendo encarada de frente pelos projetos de apoio à amamentação na criação e implementação de programas de formação profissional.

Excesso de oferta de produtos substitutos ao leite materno: "o médico já deixou o leite artificial prescrito na maternidade, caso precisasse" é uma frase usada em mais casos do que podemos imaginar. Ela está de fato ligada à primeira razão dessa lista. Os profissionais, ou por despreparo, ou por terem-se deixado levar pelas informações de mercado da indústria, fazem prescrições de leite artificial muitas vezes de forma irresponsável. "Se precisar" é uma grande armadilha. Uma mulher recém parida, muitas vezes em um atendimento nada humano, com milhares de hormônios em ebulição e todas as questões emocionais que envolvem um pós parto imediato não pode ter uma prescrição de complemento assim genérica. O mesmo vale para o apelo à chupeta "só para acalmar o bebê", ou o uso de bicos de silicone "para ele pegar melhor". Esses produtos são todos causas reais de desmame em bebês. 

Vigilância Sanitária em fiscalização da Norma Brasileira que regulamenta o marketing de produtos que oferecem riscos à amamentação


Desconhecimento da prática da amamentação enquanto cultura: muitas mulheres contam que sucumbiram ao processo porque os bebês não dormiam, ou mamavam toda hora. Narram estados de esgotamento e aflição, um desejo de retornar à vida "como era antes". Estando muito desconectadas da amamentação enquanto cultura, nos assustamos de fato com o nível de dedicação que ela exige. E muitas vezes somos cobradas para "retomar" o papel que exercíamos antes dos filhos. Despreparadas, aceitamos. Isso é bastante compreensível uma vez que a transmissão da cultura da amamentação - de avó para neta, de mãe para filha, de vizinha para amiga - está interrompida ha algumas décadas. Poucas de nós, fomos, inclusive, amamentadas. Não temos sequer memória celular do processo. 

Mitologias: existe um sem fim de justificativas para o fim dos processos de amamentação. Muitos e muitos deles são carregados de mitos. Mitos apenas. Como por exemplo "ninguém na minha família produz leite" ou o mais famoso de todos "meu leite era fraco". Nas minhas escutas dos casos em que a amamentação não deu certo, cheguei a ouvir gente dizendo que parou de amamentar porque o bebê soprou dentro do peito, ele se encheu de ar e o leite secou. Precisamos de muita lucidez e conexão com nossos corpos, resgate dos processos femininos e paciência para desmistificar essas fantasias.



Falta de apoio social: É nessa temática que se encontra a campanha da Smam desse ano. O apoio social, tanto em forma de políticas públicas para o coletivo, como um simples copo de água vindo de alguém que zela pelo bem estar da mulher e do bebê em fase de amamentação é um ponto crítico também nos processos de desmame precoce ou insucesso completo da amamentação. Os relatos são categóricos sobre os espaços diminutos para a mulher que amamenta. Em casa, muitas vezes cuidando de outras demandas e com pouca possibilidade de conectar-se com os filhos. Nas ruas, sofrendo assédio moral quando colocam os seios de fora, na sociedade moldada pelos interesses do patriarcado de erotizar o corpo feminino. Nas empresas, sem condições básicas para a manutenção da prática, como horários flexíveis, salas de ordenha, licenças maternidade inteligentes e outros modelos de acolhimento necessários. 

Fatores atribuídos à fisiologia: Por mais que saibamos que fisiologicamente pouquíssimas mulheres seriam incapazes de amamentar, é natural que mães narrem que não tinham leite de verdade. Simplesmente não o produziam. Vítimas do cenário orquestrado pelas condições acima, não é de se surpreender que o estresse e a falta de acolhimento atuem na produção do leite, convenhamos. Vemos ainda, casos como "eu não tinha bico" ou "meu bebê não sabia pegar" e um dos mais citados "eu fiz redução de seio, não poderia amamentar mesmo" usados como determinantes dos casos de insucesso na amamentação. Mas é inevitável lembrar que uma conjuntura favorável: profissionais especializados, apoio social irrestrito e cultura de amamentação fortalecida reduziria radicalmente a quantidade desses relatos. Portanto, olhar apenas para a fisiologia como fator isolado responsável pelas histórias de desmame nos impede de ampliar a consciência para o fato de que tudo poderia ser diferente, caso estivéssemos amparadas.



Quando a amamentação não dá certo a primeira coisa que temos que ter em mente é que a responsabilidade não está em apenas um fator. Muito menos, no potencial, amor, dedicação e capacidade de uma mãe. Quando a amamentação não dá certo, temos que ter clareza que todo um coletivo é responsável e atuante. E dessa forma, para além de medir a entrega ou vontade de uma mãe, observar também o contexto em que ela e o bebê estavam inseridos. Mães que não amamentaram (e lamentam por isso) podem sem dúvida dividir esse peso com seu entorno. Sua família, seus chefes, seu governo, seus médicos. Essa é uma movimentação madura e serena, como exigirão de nós todas as atividades de nosso maternar. É preciso saber articular o que é do indivíduo e o que é do entorno, fazendo um eterno jogo de vai e vem, para colocar luz sobre nossas próprias histórias, e assim, honrá-las.

Quando a amamentação não dá certo, se a história é honrada, os desafios encarados de frente, sem projeções ou culpas que inebriam a mente e o coração a lucidez pode abrir portas para o novo: chegamos até onde alcança o olhar. Olhando para frente, uma história de insucesso inspira outra de sucesso. Serve de experiência. Pode ser usada de apoio. Pode motivar outras boas práticas e busca de realizações nas infinitas experiências de ser mãe. A amamentação é o comecinho da jornada.

Essa experiência está para além de seus benefícios, muito embora esse texto comece falando deles. Amamentar não é garantir benefícios, e não amamentamos para ter vantagem de nada. Amamentar é sem dúvida uma experiência do SER MULHER. De superação de obstáculos e muitas vezes de sucumbir a eles. E seguir em frente. Essa ótica une todas nós e nos fortalece enquanto mulheres, em luta por espaço, direitos e cultura feminista. Mesmo quando a amamentação não dá certo.

Texto especial de Anne Rammi para o Blog do Cacá