sábado, 12 de agosto de 2017

Os homens que eu amo e que eu amei

Eu era uma vez uma criança. Acho que gentil e delicada criança. Hora hostil e raivosa criança. Cabiam em mim muitas crianças que eu podia ser. Uma vez meu pai brigou com meu brother e eu meti um chute de botinha certeiro na sua canela. Coisa de criança eu acho. Coisas que meu pai já merecia !

Depois o tempo passou e eu não era mais aquele menino. De alguma forma a dúvida e os medos começaram a povoar os meus pensamentos. Me lembro dos sonhos terríveis e cruéis que começaram a vir, bem num tempo que meu pai resolveu ir embora e que a minha mãe começou a chorar e nunca mais parava. Nesse tempo eu nem sei quem eu era mais. Tentava ser criança, mas não havia mais lugar para mim.

Apareceu meu avô,  que era um homem forte e brincalhão e completamente descompromissado com minha história. Talvez descompromissado com a própria historia. Vivia e pregava liberdade, uma liberdade que eu nunca poderia viver e entender naquele tempo. Me lembro do sorriso largo e farto que não fartava a minha falta de amor.

Meus dois primeiros amores homens. Um que se foi e outro que não ficava. Acho que a primeira lição sobre o mundo masculino foi essa: vínculos fortes não fazem parte desse universo do ser homem! Ou se vincular é possível com uma imagem e não com uma pessoa.Tudo vivido como se nada tem que ser para sempre, alias sempre sempre acaba....

Uma história de amor maldito, mal vivido, desconfiado ou proibido. Amores impossíveis que eu tenho em mim. Moram numa parte em mim difícil, que mais nego e convivo, que aceito. Memórias gostosas de se ter sozinho. Escondido. Pensando em amor pelo pai ausente, pelo avô machista, pelos amigos que tive e que não pude dizer: -  Eu te amo.

Tinha um outro amor. Meu irmão. Meu irmão mais velho. Minha única e especial referência do que é ser homem. Meu único possível herói.

Dos lugares que vivi um afago , um quase gesto. Um gesto de carinho. Uma ternura e talvez uma sensação de amor, na presença deste amor e na necessidade de negá-lo. Gestos de carinho entre pai e filho, na experiência do que mais se aproximou de um gesto de amor, desconstruído por uma realidade de abandono. Tudo difícil e verdadeiro assim.

Lições de vida sobre o ser homem que ficaram maiores que as de ser pai. Tenho lembranças muito gostosas do meu pai presente e com sua ausência só consigo lembrar de um imenso vazio e de não ter pai, como duas pessoas que existem e são possíveis  em mim.

Além de não ter aprendido de fato a me cuidar, tendo a impressão que este cuidado do meu corpo, das minhas roupas, do que pertence a outros, cuidar do outro pode ser uma ameaça a minha masculinidade. Existo na impossível presença de um amor entre dois homens.No masculino só posso viver em ausência.

Fui fundo em investigar em mim uma masculinidade desaparecida. Uma masculinidade solitária que vive no talvez. No acontece pois faz parte da vida. No escuro lugar da falta de vínculo. De uma moral que só pode ser machista. Que nasce da desconsideração da necessidade do outro. Se eu não posso viver o amor , eu não posso falar sobre o meu amor por ninguém. Isso me põe em risco, e me da raiva e alimenta um lugar frio em mim e o ciclo do masculino se fecha e se termina em mim. Num imenso vazio frio.

Encontro no máximo solidariedade, nada de empatia ou coisa assim.Vida de companheirismo e nada de irmandade ou qualquer proximidade perigosa que nos exponha a ausência presente de um nada pai.

Meu aprisionamento nas próprias dores da construção de um adulto sem referências sobre o masculino. Vou ter que viver um masculino nada aprendido em casa. Entendo muitos homens/pais nesse lugar vazio de afeto. Procuro compreender que o masculino nos foi negado e merece ser curado em muitos de nós. Difícil saber que eu mereço amor. Que eu tenho amor.

Amorosidade e sexualidade se misturam no imaginário comum e se proíbem coexistir nas relações entre os homens nas populações dominadas por um olhar machista.

Cresci sem sequer refletir e conhecer o masculino em mim, que no máximo vinha com cara de privilégio por ser homem branco e que de fato nunca me ajudou a significar quem eu sou.
Assim como a maioria de nós meninos, adolescentes e homens assistimos o tempo passar.

De repente a surpresa.
Nasceu José!



Tive que olhar para esse lugar em mim. Não sei contar como vivi até o seu nascimento, mas algo parecido como um espectro e não como uma pessoa. Um masculino espelhado e não encarnado. Uma possibilidade e nunca uma verdade. Nasce a necessidade em mim de habitar um novo lugar, ao qual não pertenço. Mas não acho justo que o Jose tenha essa mesma historia para contar.

Me cobro muito uma cobrança que não conheço bem. Sei que ele merece amor e carinho, mas não sei o quanto posso dar. Me pego menino quando ele me empurra e diz "você não". Confirma um medo em mim de não ser capaz ou sequer necessário. Mas aí ele dorme comigo e eu sou herói outra vez. Trocar fraldas, ou banhos juntos, ou simplesmente um abraço e de repente sou todo potência. É um vai-vem de posso / talvez / não posso. Continuo procurando a paz.

Não sei se já me percebo em um novo lugar. Acho que começamos a descobrir várias paternidades e masculinidades na presença e não mais na ausência. Isso já é muito avanço. Não me sinto confortável em ditar regras do modo "Bom Pai"como jamais quis dizer a uma mulher como é a "Boa Mãe".Chega de clichês desfigurados de qualquer verdade que seja.

Mas sugiro que os homens possam se arriscar a conhecer em si outras possíveis paternidades e masculinidades, já que o esteriótipo anterior já não nos serve mais.Talvez nunca tenha servido. Só serviu a ausência e ao abandono que não quero viver mais.
Sem regras, mas com infinitas possibilidades.
Nasce um filho e se torna possível nascer um pai !



Paternidade e Masculinidade: "Não considero a hipótese de ter papéis definidos dentro de casa"

Por João Carlos

Paternidade e Masculinidade: O título desta reflexão surgiu de um convite do querido Cacá, amigo e pediatra dos meus filhos e de toda a família.

Fico feliz de não ser um especialista em nenhum dos temas, o que me dá a liberdade de escrever uma reflexão na primeira pessoa. Fico ainda mais feliz de viver no século XXI, período em que as “verdades” subjetivas dos outros não precisam mais ser acatadas. O que é masculinidade e paternidade? Certamente a minha experiência se parece com a de muitos e se difere da de tantos outros, e é assim mesmo.

Imagem da revista Elle 


Meu primogênito nasceu quando eu já acumulava 43 anos de vida e onze de casado. Parecia apenas mais uma etapa na vida, na relação, só que não (adoro o século XXI). Aprendi há pouco com a impressionante coach israelense, Shiri Ben-Arzi, o conceito de estado liminar. É um período em que deixamos de ser algo conhecido e ainda não somos algo novo. Uma cerimônia de formatura, o noivado são estados liminares. O estado liminar da primeira gravidez não me preparou em nada para o que veio depois, a paternidade.

Tornar-me pai, processo em que me encontro há cerca de dez anos e no qual devo permanecer até o fim da vida, mudou praticamente tudo na minha vida, desde as pequenas coisas, como ir com menos vontade à mostra de cinema, até as grandiosas, como a forma de pensar a vida, a saúde e a morte. A família tornou-se o centro da minha vida, o principal condicionante da minha agenda. Não precisa ser, é claro, mas para mim foi e é. 

Não creio que exista a forma melhor de ser pai. Ausente, presente, neuroticamente onipresente, cada um propicia um conjunto de experiências a serem depuradas pela prole em meio a outras tantas influências, resultando em um legado que é deles, os filhos, não nosso. Logo, mantenho minha forma de ser, torcendo que o legado seja positivo (seja lá o que for um legado positivo). Em momentos perco as estribeiras, em outros ouço com atenção. Em momentos sou 100% presença, em outros peço que “me deixem trabalhar/conversar/ir ao banheiro.. em paz”.

Ouvi que ser pai/mãe é como jogar vídeo game, cada nova fase é mais difícil que a anterior. Não é a minha experiência. Cada dia tem se tornado mais natural e fácil que o anterior. Às vezes temos que lidar com grandes novidades, nem sempre boas, como correr para um pronto socorro, mas a média é um dia a dia cada vez mais simples e interessante. Ou seja, a paternidade se torna parte da minha forma de ser, junto com a carreira, a vida social, a vida afetiva...

Em parte, tento influenciar a vida de meus filhos, manifestando meus valores em atos e palavras. Eles que se virem para interpretar e formar seus próprios valores. E se forem muito diferentes dos meus? Não sei. Se vier a acontecer, espero ter a serenidade de perceber e conseguir buscar um equilíbrio.

Já a masculinidade, o que diabo é isto? Há tantas masculinidades a nosso redor. Desde o assassino que mata a Dandara a pauladas até a própria Dandara (será que ela concordaria comigo?) Adoro ser como sou, com todas as imperfeições e qualidades que tenho. Nada contra outras formas de ser, mas não considero a hipótese de haver papeis definidos dentro de casa. Se falta comida, vou ao supermercado, compro e faço. Se a Irene está com vontade de cozinhar, desfruto e, eventualmente, elogio a comida. Se nenhum dos dois esta a fim, sempre há lugares para se comer fora de casa. O mesmo pensamento vale para o envolvimento com a educação dos filhos, com a arrumação da casa, com os investimentos, com a alocação de tempo. Em alguns casos é necessário negociar, em outros é recomendável, em outros basta comunicar ao outro, em outros nem comunicar é preciso. Somos indivíduos compartilhando grande parte de nossas vidas.

Ainda há a masculinidade exercida fora da família. Sigo sem me apegar a rótulos e papéis pré-definidos. Para mim, no masculino cabe quase tudo que cabe no feminino, exceto o papel principal na concepção. Se você discorda, ótimo, teremos assunto para longas horas de conversa.

Dito isto, em que a paternidade afetou a masculinidade? Certamente a enriqueceu com experiências novas e marcantes. Exacerbou algumas facetas, como a participação dentro de casa, suavizou outras, como o papel do trabalho na vida, e não mudou a essência.

Feliz dia dos pais

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Paternidade e Masculinidade: "Solitário, como um menino"

Por Thiago Cascabulho

A paternidade é um mundo...
Mas, definitivamente, um fato.
Um jato que mirando o céu, descontrolado,
Volta-se para o outro lado, o seu,
E em ti penetra de dentro para dentro.
Assim uma paternidade cresce no meu centro.
Gestaciono-a solitário, como um menino
A esconder a bola sob a camiseta...
O que ela espera de mim e eu dela?
Nada além da banal liberdade
A qual desfrutam as borboletas amarelas.

Arte de Susan Spiritus

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Especialistas em Aleitamento Materno!

Uma máxima que não cansamos de repetir é que nem todo profissional de saúde da infância (ou gestação e parto) é conhecedor do assunto ou sequer especialista em amamentação. Pelo contrário, no geral, os profissionais são bem pouco formados para o apoio técnico, comportamental e emocional necessários para o sucesso da amamentação.

Pesquisas mostram que quem mais sugere o desmame precoce (e também apos o 1º ano) são os profissionais que mais deveriam dar esse apoio emocional e técnico as dificuldades na amamentação: os pediatras!

- Por não conhecerem outras formas de auxiliar uma mulher que enfrenta dificuldades no aleitamento?
- Por só conhecerem a prescrição de formulas lácteas como estratégia para lidar com as dificuldades iniciais da amamentação e ganho de peso do bebe?

Sei bem o quanto é dada pouca importância, em geral no currículo das faculdades de medicina e das residências médicas em pediatria, já que pouco tempo é dedicado ao tema. Não  conheço muito o currículo de outras graduações em áreas ligadas a assistência ao binômio mãe-bebe, mas imagino que em geral ocorra a mesma escassez de conteúdo ou quando tem, essa formação em manejo clínico de Aleitamento Materno não seja tão valorizada.

É difícil acreditar, mas sim, um neonatologista (parte da Pediatria que cuida dos bebês do nascimento aos 28 dias de vida) pode não ser um especialista em amamentação. Por outro lado, tanto o pediatra como o pediatra neonatologista, têm o poder de receitar formulas lácteas como complemento ou em substituição, quando estas dificuldades aparecem.

Esperamos que isso esteja mudando no Brasil, já que somos reconhecidos como referencia mundial em Aleitamento Materno. Creio que não progredimos mais em um cenário onde muitas vezes, as indústrias de fórmula lácteas tem papel muito importante na formação técnica desses profissionais de saúde.



A Semana Mundial de Aleitamento Materno -SMAM- deste ano tem como tema :

Construindo alianças para proteger o aleitamento materno, pelo bem comum, sem conflitos de interesse.

Muito interessante que se discuta saúde versus conflitos de interesse. Tem sido uma questão cada vez mais presente nas nossas vidas pessoais e profissionais. Temos como sociedade nos perguntado cada vez mais sobre quais são nossos verdadeiros valores e qual melhor caminho a seguir. Como sustentar financeiramente uma campanha pró aleitamento sem depender de indústrias que lucram quando esse aleitamento não dá certo. Seria possível? Novamente fica a pergunta, mas a principio me arrisco a dizer que neste lugar ficam claros os conflitos de interesse.

Por esse motivo estamos buscando novos caminhos!

Em julho, tive o prazer de ministrar um módulo na primeira pós graduação brasileira de especialização em amamentação. Fiquei encarregado de discutir uma miscelânea de temas, como paternidade, casais homoafetivos, aleitamento e internet, volta ao trabalho. Partimos do principio que estávamos numa miscelânea enquanto grupo de trabalho e estudo. Varias profissões, varias cidades representadas, diferentes histórias de vida, muitas possíveis verdades envolvidas.

Tudo muito bonito e muito rico. Conseguimos trocar olhares e opiniões, coexistindo nessas várias possíveis verdades e olhares. Fica aqui um trecho do depoimento da especialista Cynthia Costa Borba, com a promessa de contar mais um pouco sobre essa jornada emancipadora para profissionais de múltiplas áreas rumo à promoção e apoio integral do aleitamento materno! Fica aqui o registro de um processo longo e muito especial dessa turma de especialistas em aleitamento materno.
Parabéns !!!



"Uma parceria de almas entrelaçados por uma única causa, proporcionar para maior gama de bebês possível o melhor alimento do mundo: LEITE MATERNO. Foram dois anos de história, amizades eternas, aprendizado vasto, grandes mestres, novos conceitos, ampliar nossa zona de conforto e uma miscelânea gigante de conhecimento. E como não poderia deixar de ser, o tema do último módulo foi esse: Miscelânea, ministrado pelo querido professor Carlos Eduardo Correa, representando muito bem todas nós, cada qual com sua profissão, cada realidade de trabalho, cada vivência do dia-a-dia construiu as profissionais que somos hoje, e os PRIMEIROS especialista em Aleitamento Materno do Brasil e em cada lugarzinho desse pais temos espalhados hoje um pedacinho de nós, seja em um cidadezinha do interior de São Paulo como Assis ou no Distrito Federal. 
Nossa marca estará lá.

E com isso estamos certos de jamais estarmos sós.
Gratidão eterna por fazer parte dessa turma linda!"



segunda-feira, 24 de julho de 2017

O desmame pertence à mulher e ao bebê, e não ao médico

O assunto que me tocou foi aleitamento materno prolongado.
Hoje estava lendo que uma médica famosa "recomendou que as mulheres não usassem o peito como forma de confortar seus filhos e que o peito fosse oferecido como forma de alimentar as crianças". 

Imediatamente pareceu que essa seria uma boa estratégia da industria do leite artificial, criar uma campanha assim : 

"Aleitamento materno como forma de alimentar (nutrir fisicamente) seu filho e todo malefício que outras funções da amamentação trariam, como causar dependência emocional e, portanto, um filho inseguro! Ha risco para mulheres que amamentam criarem filhos dependentes e inseguros!"

Que confusão imensa esta criada mais uma vez!

Desvalorizar esta corporalidade que está envolvida desde a concepção, gestação e parto, que naturalmente se prolonga através da amamentação é a grande sacada da industria do leite. 

Se for possível desqualificar esse colo que nutre emocionalmente e fisicamente fica mais fácil banalizar a importância do aleitamento materno como estratégia de fortalecimento de vínculos entre a mãe e seu bebe. 

E quando definimos que há uma idade cronológica na qual esta relação prejudica o desenvolvimento da criança, como se as mulheres que não amamentam não passassem pela dificuldade de encorajar o desligamento de seus filhos e de suas conquistas de autonomia simplesmente por não darem o peito. 

Estamos desqualificando este aleitamento.

Foto: Various Brennemens

A outra dificuldade que aparece na formação médica é a idade em que esse aleitamento tem que acabar. Como é frequente encontrar falas de médicos definindo tempos cronológicos para o desmame. 

Aniversario de 1 ano. Presente ? Desmame.

Aniversario de 2 anos. Presente ? Desmame.

Amamentar continua sendo um ato heróico e revolucionário!

É muita pressão contra e o TABU da amamentação prolongada ainda povoa o imaginário das populações urbanas como causa de todos os males da humanidade.

Deixo aqui minha sugestão de que o desmame pertença a mulher e a criança no momento que para um dos 2 ou para ambos não fizer mais sentido. 

Deixo também a reflexão que marcadores cronológicos como 6 meses, 1 ano, 2 anos ou seja la qual for, não deveriam permear a relação desses 2 indivíduos (mãe/ bebê) nas suas singularidades. 

E deixo aqui a sugestão que médicos famosos não deem palpites sobre assuntos tão difíceis e delicados como a qualidade da relação de uma mulher com seu bebê.





segunda-feira, 17 de julho de 2017

Pediatra Cacá fala sobre os primeiros dias de vida do bebê - Ao Vivo para a Revista Crescer

Pediatra Cacá fala sobre os primeiros dias de vida do bebê



O que acontece com seu filho logo depois que ele nasce e quais são os principais cuidados? Cacá esteve na redação da Revista Crescer para responder questões dos internautas e conversar sobre a chegada do bebê e os cuidados pós parto! 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Encontro com Cacá no SESC Pompéia!

Na última semana tivemos o enorme prazer de participar de um potente encontro familiar, pelo Projeto Afetos, uma iniciativa do SESC.

São conversas, vivências e oficinas destinadas às mães, pais, familiares e responsáveis por crianças na primeira infância. Realizados uma vez por mês no Espaço de Brincar, os encontros tem enfoque em temas relacionados à maternidade, gestação, cuidados e educação de bebês e crianças pequenas.



Começamos nosso encontro como uma vivência sensorial, inspirada em uma atividade antiga do Ministério da Saúde, que costumo trazer de volta de tempos em tempos, que tem como objetivo colocar o adulto no lugar de alguém que está sendo cuidado. Uma ação objetiva para o despertar empático da vivência do bebê enquanto pequeno ser totalmente dependente de nossas atitudes.Chama-se atelier sensorial.

De olhos fechados, algumas mães receberam estímulos sensoriais com diversos materiais. Você já viveu essa experiência? De ser tocado por um objeto que não sabe do que se trata? De escutar um som que poderia ser um acalento, mas que de repente te assusta? De ter um alimento colocado na sua boca sem saber exatamente o que é, e nem ter a chance de entender se gosta dele ou não?



Após a pequena vivência, pudemos conversar em grupo como esse momento do cuidado com o bebê é um lugar de desconhecidos, mas com grandes oportunidades de reconhecimento. "Vou pegar você, vou tirar a sua fralda, agora é hora de usar o algodão molhadinho..." às vezes as pequenas narrativas orais, uma coisa tão natural para o mundo dos adultos, são esquecidas no cuidado dos pequenos. Por que?

Vamos resgatar a consciência de que estamos tratando com pessoas como nós?

Em seguida, pudemos abrir a roda para uma grande oportunidade de conversa com as mães e pais presentes. E adivinha? Os temas que apareceram parecem ser aqueles mais constantes também no consultório. O que confirma nossa experiência prática: a mater-paternidade é uma vivência de aspecto coletivo, muito embora o tempo todo estejamos nessa valsa de olhar para as questões individuais.



Trago aqui algumas das reflexões que tivemos:

Uma mãe de recém nascido relata dificuldades com amamentação. Ela está consumindo informação de grupos de apoio ao aleitamento mas sente-se preocupada em não atingir um ideal proposto, onde ao bebê não poderia de maneira alguma ser oferecido complemento de leite artificial. Ela luta com a relactação como forma de manter o bebê exclusivamente no seio materno, mas em coletivo, demonstra ganhar a consciência de que as histórias de aleitamento também passam por questões extremamente individuais.

Refletimos sobre limites: qual é a necessidade daquele bebê? É verdade que se ele for para a mamadeira poderá desistir do peito? Qual é a disponibilidade emocional dessa mãe de se manter em estado de investimento constante para a amamentação, quando relatou que ainda luta com as dificuldades que teve no parto?

Para além das respostas certas, na temática da amamentação, é sempre desejável procurar as perguntas certas. 

Em seguida, uma mãe relatou que o pai do bebê sente-se com muita vontade de participar dos cuidados básicos, insistindo em dar sucos ou chás na mamadeira. O bebê tem quatro meses e a mãe não se sente confortável com essa necessidade do marido.

Nada está perdido! No desejo desse pai, há um grande pedido de participação. Claro que para um bebê que cresce bem, em aleitamento exclusivo e cuja mãe está totalmente disponível para assim o manter, não há a necessidade de sucos ou mamadeiras. Será que o banho no colo poderia oferecer para o pai a oportunidade de contato visceral que ele procura? Já pensaram em massagens ou até mesmo em delegar todo esse momento íntimo do banho como forma de criação de vínculo com ele?

Depois ouvimos um pouco sobre os dilemas da mulher que, injustamente em nossa sociedade, precisa criar antecipadamente novos recursos para se separar do filho e voltar ao trabalho. É o fim da licença de quatro meses: meu bebê vai ficar bem? 

Novamente, tentamos sempre olhar para as situações não ideais como momentos ideais para NOVAS oportunidades de crescimento para a família toda. Nos bebês que vão para a creche, ou ficam com um cuidador, ou vão para a casa da avó, encontramos também felicidade. Sim, se amados e bem cuidados eles ficarão bem! Nessa mulher que sofre a separação, poderemos enxergar a força de reconstrução de uma nova vida: essa nova mulher gosta desse trabalho? Ele é importante para essa família? Existe a possibilidade de mudar? Ela quer essa mudança?

Fizemos uma pequena jornada de reconhecimento também desses pequenos privilégios, de estar em um lugar onde se as possibilidades existem, devemos aproveitá-las. Se não existem, estamos vivendo aquilo que nos é possível. Sem dúvida, a maternidade possível é mais sadia do que a luta para a vivência da maternidade ideal.

Eis que chega o tema de ouro: meu bebê não quer comer!
Percebemos que quando tratamos de parto, cuidados básicos e amamentação, estamos ainda muito focados em um protagonismo do adulto. Aquele que decide como, quando, onde vai executar as coisas, e que de alguma forma (que pode ser empática ou não) envolve a criança em seus projetos sem muita escuta.
Mas quando um bebê cresce e começa comer, vemos uma pequena disputa de protagonismo: agora ele pode fechar a boca, dizer não, recusar a comida!

O tempo todo dialogamos com o ideário da boa mãe. A boa mãe é aquela que tem um filho que dorme bem, come bem, não dá trabalho. Está incutido em nosso inconsciente coletivo de que esses RESULTADOS significam uma boa atuação materna. Só que não!

É urgente desconstruir o mito da boa mãe, exatamente para preservar também a saúde da criança.
Confiamos nesse bebê como uma pessoa que sabe se tem ou não tem fome?
Que entende o momento da refeição, não como nós adultos, calculando calorias e quantidade de sódio, bem como balanceamento nutricional, mas como uma experiência sensorial de afeto, prazer e de ser e estar no mundo?

Vimos mães carinhosas, abertas, dispostas, preocupadas.
Mães que dão peito e que dão mamadeira. Que cortaram o açúcar ou que não entraram nessa questão. Mas todas elas, boas mães, na medida que constroem relações de cuidado com seus filhos considerando que são relações de humanidade. Hora serenas e plenas, hora extremamente desgastantes.

A abordagem da pediatria, na  minha ótica, tem que ser essa.
Um trabalho de construção de confiança na potência de todos os indivíduos envolvidos.





sexta-feira, 9 de junho de 2017

4 coisas que toda mãe e pai precisam saber sobre febres, gripes e resfriados

Foto do site do Ministério da Saúde

1) A febre pode ser um sintoma positivo. 

"A febre, em princípio, é sempre boa. Ela tem um papel fundamental na dinâmica do nosso sistema imunológico, ativando a liberação de anticorpos e de outras substâncias de defesa que vão permitir ao organismo lidar com possíveis “invasores”. Hoje sabe-se que é esse mesmo calor que inibe o crescimento de bactérias e aniquila os vírus, ou seja, o calor põe tudo no lugar, renova o organismo. Isso já foi amplamente reconhecido pela comunidade científica tradicional. A cultura do medo da febre e a tendência de combatê-la rapidamente instalaram-se em nossa sociedade nos últimos 50 anos em virtude de uma grande estratégia de marketing da indústria farmacêutica. Considero esta tendência muito nociva para a nossa saúde. Em minha opinião, a febre é um fenômeno relacionado ao desenvolvimento da nossa individualidade. Essa é a grande tarefa da febre na nossa vida. E não é à toa que a maioria dos episódios febris ocorre do nascimento até os 7 anos."

De acordo com Samir Rahme, ex-presidente da SBMA e médico antroposófico com muitos anos de experiência – muitos deles dedicados à compreensão do papel da febre no equilíbrio de nossos processos vitais.

2) As doenças podem ter origens emocionais necessárias para o crescimento

"Ficar doente e ter febre gera uma desorganização corporal que possibilita a reorganização, ou seja, crescimento. Quando ela tem que fazer a adaptação do seu ritmo biológico individual com sua rotina, ou seja, comportamento social, pode surgir o adoecer. Esse é um dos motivos que faz pensar o porquê das crianças adoecerem quando começam a ir para escola. Será uma experiência grupal aonde a individualidade terá que conviver com a sociabilidade", analisa Cacá em um pequeno artigo sobre as doenças da infância.
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3) Agasalhos e proteção ao frio não previnem doenças

O tempo frio aumenta a incidência de crianças com febre e doenças respiratórias porque é uma condição apropriada para os vírus. Mas o frio em si não causa nenhuma doença. De acordo com Dráuzio Varela:  "A partir dos anos 1950, foram realizadas diversas pesquisas para avaliar a influência da temperatura na incidência de gripes, resfriados e outras infecções das vias aéreas. Nesses estudos, geralmente realizados nos meses de inverno rigoroso, os voluntários foram divididos em dois grupos: no primeiro, os participantes passavam o tempo resguardados em ambientes com calefação, sem se exporem à neve ou à chuva. No segundo grupo, os participantes eram expostos à chuva, à neve e aos ventos cortantes. Nenhum desses trabalhos jamais demonstrou que a exposição às intempéries aumentasse a incidência de infecções respiratórias. Ao contrário, diversos pesquisadores encontraram maior frequência de gripes e resfriados entre os que eram mantidos em ambientes fechados."


4) Doenças são oportunistas e não gostam de contentamento

Como relata Sônia Hirsch: "Escrevi para minha amiga Lena Peres, médica infectologista, que respondeu: “A melhor recomendação é evitar aglomerações, fazer uma boa hidratação e cultivar o contentamento – virtude que aumenta as defesas do organismo.”
Grande sabedoria!

O ar que circula num ambiente cheio de gente não é mesmo lá grande coisa, e pode sim estar cheio de agentes irritantes para as mucosas do pulmão, além de micróbios de todo tipo e tamanho.

Boa hidratação significa água em quantidade, água que limpa, lava, refresca, ajuda a renovar as células e é essencial à vitalidade de todos os tecidos, inclusive respiratórios.

E o contentamento, bem... O contentamento é simplesmente uma das chaves da vida (...) Gripes acontecem quando o estado geral de cansaço, poluição e muco interno transborda. As mucosas já estão inflamadas. É isso o que dá oportunidade ao pobre do vírus, coisinha ridícula que nem corpo tem, e a bichos maiores e mais ocultos, diria mesmo ocultíssimos, como lombrigas, amebas, giárdias, solitárias, estrongiloides, oxiúros, tricuros, fascíolas e muitos mais, que se estabelecem em qualquer parte de nós e se multiplicam, com larvas que muitas vezes atravessam o delicado tecido do pulmão e coisas piores. Qualquer pneumonia sem causa óbvia obriga a investigar a "síndrome de Loefler", ou: presença de infestação  por helmintos possivelmente afetando o pulmão."

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Atitudes pacificadoras para o choro do bebê

No último texto fizemos uma jornada de reflexão acerca do choro do bebê na nossa cultura: entre cólicas e sinais de desconfortos aparentes, passando pelas razões do choro e as oportunidades de criação de vínculo entre pais e filhos, dentro inclusive, das ocasiões de descontentamento. Se manter no papel de adulto talvez seja um dos primeiros e maiores desafios dessa jornada de nascer como mãe e pai.

Hoje pensei em trazer um pouco da minha experiência prática com esse difícil assunto, elencando atitudes pacificadoras:

Consciência de aprendiz
Em primeiro lugar, quero destacar que tenho muito  quer aprender. Nós, os adultos, temos muito o que aprender quando se trata das sutilezas da vida humana em um momento tão singular que é a chegada de uma nova vida ao mundo e a construção de uma nova família. Estamos aprendendo a ser pais , tios ,avós e toda uma constelação de relações humanas a partir do bebe.

No entanto, uma das minhas bases de atuação versa sobre a potência desse estado de aprendizado. Quando nos sabemos aprendizes das situações que vivemos, legitimamos a construção de novos caminhos. E TODOS os caminhos de construção de vínculos entre os bebês e seus pais são verdadeiros. O choro do bebê é uma oportunidade potente nessa visão. Já que na nossa sociedade o choro se configura como forma de comunicação entre o bebe e seus pais.

Carregadores de Pano
Aprendi também que o uso de carregadores de pano são positivos aliados nessas situações. Não só porque resgatam a prática ancestral do contato físico, indispensável para esse bebê e para esse adulto encaminhando para a construção de vínculos. Mas também por terem comprovadamente benefícios pacificadores para as duplas.



Toques e Massagens
Todos caminhos que levam a construção de vínculos que se constroem pela observação e contato físico com o bebe são os mais poderosos em lidar com o choro do começo. Na ótica da proximidade física entre adultos cuidadores e seus bebês, as massagens e toques não podem ficar de fora. A experiência de mães e pais, profissionais de saúde e médicos pediatras comprova. Apesar de tecnicamente muito se falar na massagem como uma forma de "aliviar dores" e "melhorar o intestino" do bebê, cabe lembrar que o contato afetuoso carrega também vantagens de ordem psico-emocional, que norteiam o estar do bebê e do adulto à partir da esfera sensório-motora: uma questão muitas vezes esquecida nas sociedades contemporâneas que gostam de explicações científicas e cognitivas para tudo. Estamos falando de prazer aqui!


Banhos Prazerosos
Por mais incrível que pareça, o bebê não necessita de banhos com finalidades meramente higiênicas. O momento do banho é um momento de cuidado, que o bebê entende como amor. O bebê entende tudo como o amor que ele quer receber. Portanto, o momento do banho pode ser gostoso o prazeroso. Contradizendo a prática atual das banheiras, que coloca o bebê  pequeno muitas vezes de corpinho exposto em um espaço-gravidade estranho de entender, a minha experiência mostra que o banho de chuveiro no colo de pai e mãe ou o banho de balde, muitas vezes aliado à contenção do cueiro, tem resultados efetivos nessa sensação de prazer. Bebês pequeninos normalmente preferem esses banhos. Os bebês mais velhos que gostam de brincar na banheira, experimentar a água e sentem-se felizes em bacias.


Charutinho e contenção
No último texto, refletimos como muitas vezes diante do choro do bebê os adultos se paralisam e tendem a não tomar nenhuma atitude, entrando em uma espiral de desespero que notoriamente não tem benefício nenhum. Eu gosto de lembrar: o bebê é uma pessoa! Ele está ali, presente no momento do choro em seu corpo, mente e sentimentos. O casulo, charutinho e outras espécies de contenção também são atitudes que pacificam esse estado, por promoverem um contorno, por convidarem tanto o adulto como o bebê a sentirem-se presentes, existentes. Além de é claro, comprovadamente aportarem ao bebê a memória intrauterina: um espaço contido, e não e imensidão daqui de fora. Que convenhamos, é apavorante até para os grandes.



Movimento e Chiado

Aliados aos carregadores de pano ou ao colo mater-paterno, estar em movimento com o bebê que chora é também uma atitude pacificadora. É comum, naquele momento de cansaço e paralisia do adulto, que ele se esqueça do ato ancestral de NINAR seu bebê. Vemos cuidadores desesperados que muitas vezes recorrem à uma chupeta por exemplo, antes mesmo de propor uma pequena dança pela sala, ou uma cantiga de ninar. Acho que aqui estamos falando do quanto podemos nos arriscar e nos entregar nas atitudes que promovam vínculo, ao invés de escolher atitudes que possam nos separar. Em combinação com o chiado, suaves canções ou ruídos que promovam uma concentração da dupla para algo além dos seus próprios desesperos, são sempre uma boa ideia.Devo lembrar também que o uso de redes para dormir ou algum tipo de berço que balance como a rede é visto desde as índias brasileiras,passando pelas andinas ate o extremo oriente. Balançar faz parte da cultura mundial de cuidar de bebes.


Amamentação, Sucção e Livre Demanda
Um pediatra americano, como é costume dos americanos, nomeou uma técnica de acalmar o choro do bebê baseada em 5 etapas que em inglês começam com a letra S: Swaddle, Stomach Position, Shush, Swing, Suck. Na ordem, a contenção, a posição lateral ou verticalizada (em oposição a deixar o bebê deitado de costas), chiado, balanço e sucção. Aqui quero pontuar que o instinto de sugar é inerente ao bebê - e é o que garante a sua sobrevivência. A amamentação em livre demanda, ou seja, quando o bebê pede (e ele pede de várias maneiras, não apenas chorando), é uma forte aliada na construção do vínculo, não apenas da saúde e estabelecimento pleno da amamentação. Exatamente porque para além do alimento, o bebê gosta e precisa sugar. Alguns bebês precisam sugar mais, outros bebês encontram seus dedinhos e sugam, e há aqueles que só se confortam no seio materno. Há sempre a opção da chupeta, que é também um recurso legítimo nesse processo. Mas sempre com a consciência de que se trata de um mediador dessa relação física entre mãe e filho, que pode ser muito útil no momento de choro, mas pode também a longo prazo, trazer outras questões para serem observadas depois, quando invariavelmente esse bebê precisar se livrar do hábito de sugar a chupeta. Precisamos também pontuar que a sucção não nutritiva para bebês pequenos pode representar algum prejuízo para o estabelecimento da saúde desse bebê e também para a amamentação. Gosto de pensar que a chupeta é um recurso para os pais. E não para o bebê. Colocando também que é da mulher, a dona desse corpo que não pode ser esquecido da equação, encontrar o limite de ser sugada e quando. Claro, não é tarefa fácil.


Contato visual e conversa
Um bebê chorando normalmente cerra os olhos com força. Fabrica seu próprio som de descontentamento que o deixa longe do contato com o mundo. Ele fica lá, no mundo interno do choro. Se a busca para esse encontro de vínculo passa pelo corpo, não vamos esquecer dos olhos e da visão desse bebê. Minha experiência mostra que quando o bebê sai do estado do choro, seus olhos abrem e ele espera encontrar amor e contato. Isso se dá pelos olhos também, é hora de iniciar uma conversa. Bebês adoram balbucios e adultos que falem sua língua! Vocês vão se surpreender, se tentarem conversar com seus bebês, como eles são capazes de se comunicar de várias formas, que não o choro. Eles franzem as sobrancelhas, arregalam os olhos. Mesmo os pequeninos - a quem não é creditada a felicidade através dos sorrisos, que injustamente são chamados de reflexos - são eficientes em comunicar felicidade. Sorriem sim! Mostram a língua, estalam, falam, imitam as caretas dos adultos e gostam de tudo isso. Pronto, não estão mais chorando.




Arriscar-se nesse caminho de muito contato e, portanto, muito vínculo, na minha opinião é o que mais ajuda. Aprender desde o começo que quando chora, o bebe está te chamando e o que ele quer é você! Talvez o mais difícil aprendizado!

terça-feira, 23 de maio de 2017

O Choro do Bebê : Cólicas e tudo mais que podemos revelar

Hoje vamos pensar um pouco sobre o choro do bebê.



Desde que comecei a trabalhar com bebes saudáveis em alojamento conjunto entendi que não bastava treinar a equipe para falar de aleitamento materno. O choro do bebê era o tópico mais importante, pois o que levaria ao uso de chupetas, outros leites, mamadeira ou não acreditar na própria capacidade de amamentar seria o choro do bebê. Portanto conversar sobre como lidar com esse choro e que chorar não significa sempre fome era o nosso desafio. Poder dizer para as mulheres que elas poderiam dar conta do bebê era (e ainda é!!!) nosso maior desafio.

Bebês choram. E podem chorar muito! Por muitas vezes nós adultos cuidadores nos vemos ansiosos por uma explicação para a razão de tanto choro, do alto da nossa crença de que choro é sinal de coisa ruim. A justificativa mais aceita para o choro do recém nascido são as cólicas. Seriam aquelas crises de choro inconsolável, onde o bebê demonstra muita irritação, contorce o corpinho. Aceitamos com mais naturalidade o choro do bebê se ele for justificado por algum tipo de dor.

- É dor mesmo, agora eu sei , pois ele esticava as perninhas e se retorcia todo.

Infelizmente é muito difícil definir se é ou quando é dor mesmo. Acho bonito e importante tentar fazer uma leitura mais corporal do bebê, mas contamos com uma grande dificuldade. Geralmente não sabemos muito sobre o bebê.

Conhecemos que um bebe nos seus 2 a 3 meses tem um repertório motor limitado pelas respostas reflexas e não voluntárias. Quero dizer com isso que bebes que se esticam e jogam a cabecinha para traz estão repetindo o que fazem (ou deveriam fazer) no trabalho de parto. Esse movimento está no repertório motor dos reflexos e não da consciência deste bebe.

O que não afirma e não impede que esteja vivendo algum incomodo. Mas nos faz pensar que é um tanto mais difícil observar e relatar o que esta acontecendo nos primeiros meses de vida.

Vamos ler um pouquinho do que diz a Sociedade Brasileira de Pediatria sobre as cólicas do lactente: 

Cólicas do lactente 

Departamento de Aleitamento Materno da SBP

A cólica do bebê é transitória e aparece geralmente na segunda semana de vida, acabando em torno do quarto mês, em uma criança saudável. A cólica pode durar até três horas por dia e normalmente acontece no final da tarde ou à noite. Além do choro, o bebê fica irritado e agitado.

Como diferenciar o choro por cólica do choro de fome


O bebê chora por diversas razões: fome, frio, sono, calor, dor, incômodos por fralda molhada ou apertada ou até porque quer aconchego e carinho. Com o tempo, a mãe vai aprendendo a identificar o motivo de choro do seu bebê. No entanto, a criança que chora por fome se acalma assim que mama. Isso não acontece quando o choro é por cólica.

Como evitar as cólicas

Tente manter a calma e lembre-se que as cólicas acontecem em um bebê saudável e que vão passar em poucos meses. A ansiedade da mãe não ajuda a acabar com a cólica, mas algumas ações podem amenizar a dor:

- um ambiente tranquilo e uma música suave ajudam a relaxar mãe e filho;
- um banho morno também ajuda a descontrair;
- movimentos nas pernas do bebê, como “pedalar no ar” podem auxiliar a eliminar o excesso de gases;
- massagem na barriguinha do bebê, sempre no sentido horário, mobiliza os gases;
- compressas mornas na barriguinha com toalhas felpudas passadas a ferro têm efeito analgésico (teste antes o calor da toalha em sua própria face).

Porém, o mais importante é ter paciência para acalmar o bebê, aconchegando-o no colo, barriga com barriga, ou apoiado de bruços na extensão do antebraço dos pais.

Oferecer chá ao bebê não acaba com a cólica e pode prejudicar a amamentação. 
Remédios “contra gases” têm pouca eficácia.



Relação entre cólica e dieta materna


As causas das cólicas do primeiro trimestre não são bem conhecidas, mas parecem ter relação com uma relativa imaturidade do bebê; e vão melhorar com seu crescimento, sem deixar sequelas.

A alimentação materna como possível causa da cólica ainda é controversa. A cólica pode ocorrer tanto em bebês amamentados no seio quanto naqueles amamentados com leite de vaca (fórmulas). Entretanto, existe a possibilidade de alguns alimentos (leite de vaca, soja, trigo, nozes) passarem para o leite materno e provocarem cólicas. No entanto, esses alimentos só devem ser retirados da dieta da mamãe caso as cólicas estiverem associadas com outros sintomas gastrintestinais que indiquem alergia alimentar, como a presença de rajas de sangue nas fezes do bebê.

Ao primeiro sinal de sangue nas fezes do bebê, seu pediatra deve ser consultado imediatamente.

E lembre-se, o ideal é prolongar ao máximo o aleitamento materno porque o leite de vaca tem alto poder de causar alergia.



Para mim entendo que a SBP conta que cólica existe e é comum nos primeiros meses e vai passar. Não se desespere pois vai passar!

Nesse momento tive uma percepção de quantas vezes eu tentei em vão dizer que o choro com hora marcada, geralmente final da tarde, começo da noite não deveria ser de dor física, já que dor física não tem horário para acontecer. Será que ajudei ou atrapalhei tentando desfazer o mito da cólica do bebe, e não deixando algo que preenchesse este lugar?

Por mais aceitável que a justificativa de cólica nos acalme como adultos, nem sempre o bebê chora de dor. Bebês choram e podem chorar muito. Ressignificando as experiências do choro e tentando encontrar mais disponibilidade para rever nosso conjunto de crenças podemos observar o choro como forma de comunicação do pequenino humano, que trava sua própria jornada de adaptação à vida extra uterina.

Lendo este texto da SBP que valida a percepção dos pais que se trata de uma cólica e portanto merece compressa quente e massagem senti que poderia me aproximar mais destes pais que devem estar bem assustados com este bebe que chora tanto. Porem me ficaram algumas duvidas como se merece um uso de remédio já que o choro é cólica (sabemos de uma longa lista de remédios utilizados por mães de bebês nos primeiros meses por conta de cólica e que a maioria não terá muita eficiência). Vou então buscar outras referencias sobre o choro do bebe.

Vamos ver um trecho sobre o choro da Enciclopédia sobre desenvolvimento da primeira infância

Qual é sua importância?


O choro é um meio de comunicação importante que os bebês dispõem no início da vida – do nascimento aos 3 meses de idade. Nesse estágio de seu desenvolvimento, os bebês são quase inteiramente dependentes de cuidadores para atender suas necessidades. Consequentemente, o choro na infância pode assumir um papel importante para garantir a sobrevivência, a saúde e o desenvolvimento da criança. 

A quantidade aumentada de choro entre bebês saudáveis no mundo ocidental é atualmente reconhecida em todos os bebês nas primeiras semanas de vida, isto inclui chorar por períodos prolongados de tempo sem nenhuma razão aparente, uma característica praticamente única dos primeiros meses de vida. De fato, não é incomum que um bebê normal chore entre uma e cinco horas por dia, com um pico nos dois primeiros meses de vida.


Em menos de 5% desses bebês existe alguma evidência de doença orgânica que ajude a explicar o aumento de ocorrência de choro. Além disso, o choro prolongado ocorre a despeito da ótima qualidade dos cuidados parentais. Felizmente, depois dos cinco meses diminuem os períodos prolongados de choro inconsolável, o choro torna-se mais intencional e mais relacionado a eventos ambientais.


No entanto, o choro persistente, principalmente quando associado a problemas de sono e de alimentação que persistem depois dos quatro meses, muitas vezes em contextos que envolvem múltiplos fatores de risco psicossocial dos pais, pode ser preditivo de desenvolvimento social e emocional insatisfatório do bebê. 


O que sabemos?


Todos os bebês choram, mas grande parte desse choro é inexplicável. As explicações geralmente atribuídas ao choro do bebê são dor, fome, raiva e tédio. O aumento de choro excessivo inexplicável nos três primeiros meses em bebês que, à exceção disso, são saudáveis, é frequentemente denominado “cólica infantil”. Dependendo da definição, diz-se que a cólica afeta cerca de 10% a 20% dos bebês nessa idade. Uma característica evidente é que a cólica tende a seguir um padrão de aumento nos dois primeiros meses, chegando a um pico em seis semanas, e normalmente diminuindo aos 4 ou 5 meses de vida. No entanto, esse padrão aplica-se a todos os bebês, quer seu choro seja ou não considerado “excessivo”, e é reconhecido atualmente como a “curva normal do choro”. Durante esse período, os surtos de choro podem ocorrer sem razão aparente, são difíceis de acalmar, e muitas vezes duram em média entre 35-40 minutos, ou até duas horas. Ocorrem em geral no fim da tarde ou no início da noite.

Frequentemente, afirma-se que bebês cuja inquietação persiste no decorrer da primeira infância, ou piora depois dos quatro meses, têm temperamento difícil. Pode não ser fácil diferenciar o choro relacionado à cólica infantil do choro relacionado a temperamento difícil. A principal diferença é que, nos episódios de cólica, os surtos de choro diminuem com o tempo, ao passo que em bebês com temperamento difícil, o aumento da inquietação persiste durante a primeira infância e até posteriormente. Embora o choro devido a temperamento difícil possa às vezes ser modificado, essa característica de temperamento é frequentemente estável no decorrer da vida, e tem bases constitucionais e hereditárias.


Consequências positivas:


O choro excessivo nos primeiros meses de vida pode provocar frustração e estresse na família. No entanto, há consequências positivas associadas ao choro. Uma delas é a constatação de que o choro permite aos bebês construir relacionamentos íntimos com as pessoas que respondem mais confiavelmente a suas necessidades. Dessa forma, o choro pode ser fundamental no desenvolvimento de um vínculo emocional ou “apego” em relação a determinado(s) cuidador(es). 


Consequências negativas: 


Muitos estudos sobre bebês que apresentam episódios de cólicas demonstraram de forma convincente que, no longo prazo, não há consequências negativas para os bebês. A maioria dos pais não demonstra conseqüências negativas, mas para alguns persiste uma falta de confiança em suas habilidades como cuidadores e têm maior probabilidade de considerar seus bebês como “vulneráveis”. No entanto, bebês com temperamento difícil têm maior probabilidade de vivenciar diferenças no longo prazo. Bebês inquietos e difíceis de acalmar têm maior probabilidade de aumento de risco de problemas comportamentais na pré-escola, dificuldades de ajustamento na adolescência ou comportamento agressivo e dificuldades de atenção.

A interpretação da mãe sobre o comportamento de choro pode ser afetada pela depressão materna. Quando ocorrem juntos, a depressão materna e o choro excessivo ou devido a cólicas podem afetar as interações pais-bebês, seu relacionamento, e até mesmo os resultados de desenvolvimento da criança. A depressão materna influencia negativamente alguns aspectos do comportamento e do desenvolvimento do bebê, principalmente em relação à dificuldade para acalmar-se, à irritabilidade e ao choro. 


As consequências mais extremas para um bebê que apresenta choro inconsolável são negligência e abuso, especialmente a Síndrome do Bebê Sacudido (Shaken Baby Syndrome), que por vezes resulta em danos cerebrais ou mesmo morte. 


O que pode ser feito?


O significado do choro inicial muito frequente, excessivo ou devido a cólicas na infância evoluiu: da crença de que era anormal ou indicava doença/disfunção para o reconhecimento de que o choro excessivo é parte normal do desenvolvimento do bebê humano. Os clínicos devem conscientizar-se da importância do choro para os pais, de como pode ser frustrante e de como pode afetar seu relacionamento com seus bebês.

Ao ajudar pais cujos bebês choram excessivamente, devemos garantir-lhes de que a maioria dos bebês que choram muito é normal, e de que o choro imprevisível, inconsolável, em geral desaparece espontaneamente depois das primeiras semanas de vida. Intervenções que visam consolar bebês que choram são apenas parcialmente bem sucedidas e não reduzem os surtos de choro inconsolável. É importante reconhecer também que diferenças no próprio som do choro podem afetar a reação do cuidador. Devemos ser particularmente sensíveis a cuidadores que vivenciam depressão ou outras experiências que podem alterar sua organização perceptual. 

Intervenções e informações de saúde pública devem ser rigorosamente avaliadas antes de serem recomendadas como técnicas para lidar com o choro de bebês. Deve-se tentar criar serviços eficazes, com boa relação custo/benefício, para atender às necessidades de famílias com crianças pequenas. 


Redução da Síndrome do Bebê Sacudido


A Síndrome do Bebê Sacudido é uma resposta extrema ao choro infantil. A redução na incidência dessa síndrome pode ser conseguida por meio de programas educativos de saúde pública oferecidos precocemente, até mesmo antes do nascimento do bebê, na tentativa de aumentar a compreensão dos pais sobre o choro normal, seus padrões na infância, e de que formas a frustração provocada por esse choro pode levar a reações inadequadas como sacudir ou machucar o bebê.


Percebo nesta abordagem uma certa resignação ou aceitação do choro dos bebes no começo da vida como natural. Mas fica uma certa apreensão sobre o risco de permanecer e significar algo mais grave , o que é exatamente a questão dos pais vivendo este momento. Vale a pena reforçar que é natural do bebe pequeno e que o choro não qualifica o cuidado materno e paterno. Vai acontecer independe da qualidade do cuidado. Mas é mais fácil de lidar quando os pais estão mais tranquilos. Novamente não se fala em medicação para lidar com esse choro !

Fica o alerta para sabermos nos afastar caso estejamos muito nervosos para aquela respiração aonde vou recitar o mantra:

- O adulto sou eu !


Laura Gutman tem uma abordagem interessante, do ponto de vista da psicanálise, sobre o choro do bebê: 

"Quando nascemos, esperamos encontrar fora do útero o mesmo conforto e ritmo em que vivemos nos últimos nove meses. Quando nascemos, passamos de um ambiente úmido a um ambiente seco. Muda a temperatura, mudam os sons. Sofremos uma forte mudança de postura, corporal, não estamos mais de cabeça para baixo e enrolados, e sim com as costas apoiadas em algo, sentindo a gravidade e talvez longe do contato corporal com nossas mães. Os bebês esperam estar no refúgio e conforto do corpo materno. A separação do corpo da mãe é uma situação difícil de confrontar. Os seres humanos contam com duas ferramentas indispensáveis para a sobrevivência quando bebês. O primeiro é o instinto de sucção. O outro é o choro, que serve para avisar à nossa mãe, que precisamos dela. Se compreendemos que o bebê não pode fazer nada por si mesmo, aceitaremos que se ele chora é porque precisa ser atendido. A pergunta que podemos fazer é se damos prioridade às necessidades de nossos bebês ou se colocamos em primeiro lugar as nossas próprias necessidades. Tenhamos confiança de que se o bebê recém nascido se sente atendido quando chama, ele vai construindo uma forte segurança interior, que vai facilitar as coisas cotidianas conforme seu desenvolvimento."

Esse talvez seja o texto mais difícil pois nos convida a estar presente no choro e , inclusive o nos observar durante o choro. Exercício este continuo nas funções materno-paternas.

Quando nos dispomos a cuidar de nossos bebês - além de é claro um olhar afetuoso para as necessidades básicas de cuidado, que dependem exclusivamente do adulto, como alimentar o bebê, mantê-lo limpo e amado - precisamos saber que entraremos em contato com as nossas próprias fraquezas e limites. E que o tempo-lugar do choro, do descontentamento aparente do filho, de um suposto sofrimento, pode ser exatamente onde nos encontraremos com elas. O que isso significa? O choro do bebê não será algo a ser resolvido sempre. Em muitas situações, o choro do bebê é algo para ser sentido, vivido. E como todo choro, amparado. Começamos a discutir formação de vínculos, nas suas alegrias e dificuldades.

Às vezes, diante do choro do bebê, esquecemos de executar as atividades mais simples. Um colo extremamente cuidadoso, palavras de carinho. Olhar nos olhos, oferecer o peito. Os pensamentos em busca de uma explicação para o choro ou uma solução para sair desse tempo-lugar de desconforto podem agir no sentido oposto desse amparo. E o bebê sente, e quanto mais desconfortável estiver, mais chora. E quanto mais chora, mais confirma a sua dor e a minha impotência e assim, estamos num imenso ciclo vicioso de frustração e dor.

Se mesmo alimentado, cuidado, amado e atendido o bebê segue a chorar, talvez seja momento de nos perguntarmos: o que EU estou sentido? Ao invés de tentar decifrar o bebê. E poder se afastar para se fortalecer para voltar com mais serenidade e confiança. "O adulto sou eu".

A chegada de um bebê na vida dos adultos revelará essas possibilidades de reencontro com nossas próprias necessidades, prioridades e frustrações além das deles próprios. Vamos lembrar que eles choram também o nosso choro, aquele que acreditamos, por ser ruim, não deixamos sair. A mágica seria conseguir compassar esses tempos e desejos, dos adultos e bebês, de forma afetuosa. 

Quando se trata de choro, do bebê ou do nosso próprio, estamos dispostos a apenas deixar sair e amparar? Qual o papel dos bons pais? Construir um mundo ao redor das crianças sem choro (ou sofrimento) ou ampara-los nas suas dificuldades acreditando na capacidade que cada um traz de lidar com as situações da vida ? Essa será a eterna (ou terna?) pergunta :

- Quando é hora de dar colo ou quando esta na hora de agir?

E vamos nos inventando e reinventando a cada dia nesta continua Jornada que é ser Pai e ser Mãe!

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Cacá Responde: Cesáreas agendadas na visão do pediatra


Campanha da Unicef "Quem espera, espera"


O nascimento de um bebe é um momento mágico e único. Esta criança que habita um ambiente aquático onde o calor, sua alimentação e oferta de oxigênio estão garantidos. O nascimento deveria ocorrer quando este bebe é capaz de lidar com as novas necessidades que se apresentarão. Ele deverá ser capaz de respirar adequadamente, controlar seu calor e sua taxa de glicemia, devera ser capaz de se alimentar, sendo estas novas necessidades imediatas após seu nascimento.

Na semana passada trouxemos para a fanpage do Espaço Nascente a matéria da Revista Crescer que trata dos riscos relacionados à saúde do bebê que nasce de cesárea agendada ( ou seja Fora de Trabalho de Parto). Percebemos que ainda há muita confusão de informação quando o tema é a via de parto - e portanto selecionamos alguns comentários para tentar positivamente elucidar algumas questões.

A primeira coisa a se ter em mente, é que aqui tratamos em primeira instância, de parto e pós parto sob a luz da neonatologia. Ou seja, a ciência médica que atende o bebê recém nascido. A neonatologia, no entanto tem alguns pontos indissociáveis da medicina obstétrica - que é aquela responsável pelo atendimento da gestante e parturiente. E é desse lugar que faço as observações, olhando o momento do parto como esse evento importante para mães e bebês, em todas as suas peculiaridades.

Nesse olhar sobre o recém-nascido não há duvidas de que uma cesárea programada fora do trabalho de parto aumenta o risco deste bebe ter dificuldades de se adaptar a vida extra-uterina, necessitando muitas vezes de cuidados em UTI neonatal.

A segunda coisa que precisamos ter em mente é que estamos falando de cesáreas ELETIVAS. O que são cesáreas eletivas? São aquelas cirurgias marcadas para o nascimento do bebê, fora de trabalho de parto.

Vamos aos comentários, transcritos aqui da forma que foram postados:

"Mas e qto às mulheres que têm problema de hipertensão e 40 anos de idade, como é meu caso? Acho um sofrimento desnecessário?"

Olhando para a questão do parto com um advento de atendimento à mulher, a obstetrícia falará longamente sobre as indicações reais de cirurgia cesariana. É seguro afirmar que há poucas indicações absolutas para cesáreas eletivas,  como é o caso da placenta prévia (quando a placenta, órgão que alimenta o bebê no útero está implantada abaixo do bebê, impedindo sua passagem pelo canal e inviabilizando o trabalho de parto). Há mais indicações para cesáreas em trabalho de parto, como é o caso de uma ruptura uterina ou descolamento prematuro da placenta, com feto vivo. Isoladamente, idade da gestante ou hipertensão não são indicativos absolutos de cesárea eletiva. No entanto, esse diagnóstico cabe ao médico obstetra. Cabe saber que a medicina obstétrica tem avançado no teor científico das pesquisas, e atualmente sabemos que a esmagadora maioria das cirurgias realizadas no Brasil não tem respaldo científico. Ou seja, são cirurgias que podem ser evitadas.

Para averiguar mais informações sobre as indicações reais de cesária verifique o blog de Melania Amorim, pesquisadora contemporânea da medicina baseada em evidências para atendimento obstétrico.

Do ponto de vista da Neonatologia, assim como retratado na matéria da Crescer e também na atual campanha da Unicef "Quem espera, espera" a condição ideal para o nascimento do feto humano é o trabalho de parto. Sempre que possível (descartadas as indicações reais de cesáreas) os bebês contarão com melhores condições de saúde se tiverem sua idade gestacional interrompida exatamente pelo trabalho de parto, e não antes.

Temos estudos que demonstram que há aumento de risco de morbi-mortalidade quanto mais anterior às 40 semanas for o nascimento: "Analisando 46 milhões de nascimentos, usando dados do National Center for Health Statistics U.S. O resultado revelou que a taxa de mortalidade infantil era de 1.9 para cada 1.000 bebês nascidos na 40a semana de gestação e subia para 3.9 para aqueles nascidos pouco antes, na 37a semana. A formação do pulmão e sua capacidade de funcionar garantindo as trocas gasosas e a oxigenação deste bebe dependem também desta criança ter estado em trabalho de parto. Como um sinalizador de que ira respirar ar fora da barriga e o sistema respiratório deve estar pronto. a ativação dessa capacidade funcional dos pulmões depende também da experiência de um trabalho parto sobre o corpo do bebe."

No caso do comentário acima, há dois aspectos a serem avaliados. A idade da mãe apresenta riscos aumentados para a saúde do bebê quando esta mulher tem uma patologia de base, ou esta mulher desenvolver alguma patologia durante a gestação como hipertensão ou diabetes. Poderia supor que mulheres mais novas (adolescentes) e mulheres mais velhas poderiam ser um grupo de risco maior para estas situações, o que impõem a necessidade de um acompanhamento durante a gestação com maiores cuidados.

A hipertensão da mãe durante a gestação apresenta aumento de risco para a saúde do bebê quando não esta controlada , variando o fluxo de oxigênio e nutrientes para o bebe. Pode haver restrição de crescimento do bebê. O acompanhamento desta situação especial determinara a via de parto, não definindo inicialmente que devera ser uma cesárea. Os acontecimentos durante a gestação, como controle da pressão arterial, reduzem riscos de complicações. Vale sempre lembrar que uma atividade física acompanhada de boa alimentação podem ser seus maiores aliados.


"Nem sempre. Há casos e casos, no meu por exemplo deverá ser uma cesárea pois engravidei 3 meses após uma outra cesárea de emergência, não posso ter contração então será programado uns dias antes. Mas se eu pudesse eu gostaria de ter normal a recuperação é mais rápida."


Para responder essa questão, contei com a visão de uma obstetriz, reconhecida nacionalmente pela luta em defesa dos direitos das mulheres e bebês através da medicina baseada em evidências. Ana Cris Duarte comenta: "Pode ser que seu médico ou você não tenha informado a verdadeira razão para essa cesariana, mas sem dúvida alguma que a última cirurgia ter ocorrido cerca de 12 meses antes do nascimento deste bebê não é uma indicação tão clara. Os estudos mostram que o risco de ruptura uterina após cesariana é bem baixo, sendo inclusive bem mais baixos de que as complicações graves de uma nova cesariana. Se você de fato deseja um parto normal, sugerimos que procure uma segunda opinião."


Foto Wikipedia


"Tive duas cesarianas, sendo há 60 dias a mais recente e posso dizer que foi tranquilo o pós operatório. Cada mulher com seu médico deve conversar e saber o que será melhor para ambos ( mãe e bebê)."

Sem dúvida as mulheres e seus profissionais de saúde precisam estar alinhados para fazerem as escolhas possíveis para cada quadro. No entanto, quero aproveitar esse comentário para lembrar que atualmente vivemos um cenário na medicina obstétrica e neonatologia que pode apresentar mais comprometimento com os sistemas de saúde, os lucros dos hospitais, as horas trabalhadas dos médicos, do que efetivamente com a saúde do binômio. Falamos em "epidemia de cesáreas" exatamente porque essa cirurgia é adotada como saída mais rápida e lucrativa, à despeito do que os estudos comprovam. Existem muitas estratégias dentro dos atendimentos profissionais que acabam levando mulheres a supostamente "escolher" a cesárea. Uma delas, seria o profissional não abordar, por exemplo, os riscos envolvidos da cirurgia. Todos eventos de parto tem seus riscos inerentes, sejam eles o parto vaginal ou a cesariana. Cabe reforçar que a cesariana aumenta em 3x tanto para mãe quanto para o bebê, o risco de morte. É uma cirurgia abdominal de grande porte que pode trazer complicações para a mãe. No caso do bebê, falando das cesarianas eletivas, elas estão relacionadas com a prematuridade iatrogênica: que é a prematuridade provocada.

Sabemos que as UTIs neonatais estão sempre cheias de bebezinhos que "nasceram antes do tempo". Uma boa parte desses casos seria evitada, caso o tempo gestacional completo tivesse sido respeitado.
As consequências da prematuridade iatrogênica para o bebê podem ser simples ou desastrosas. Estamos falando de fetos que ainda precisam maturar os pulmões, aprender a respirar, ser capazes de sugar o seio materno e uma série de outras conquistas da maturidade, necessária para trocar a vida no útero pela vida fora dela.

Não há nenhuma dúvida que o bom profissional médico, baseado em evidências, respeitando as escolhas da mulher gestante é decisivo para o parto. No entanto, temos que refletir: temos bons profissionais de saúde? As escolhas dessa mulher estão sendo feitas com base na informação ou nos interesses do sistema que lucra com as cirurgias desnecessárias?

Recomendo assistirem o documentário "O renascimento do parto".

Mas não esqueço de enfatizar que você tem razão em dizer que cada mulher deve conversar com seu médico garantindo mais confiança nessa relação.

Foto Max Pixel

"Tive duas gestações, a minha primeira tentei ter normal usando meios para a dilatação mas rápida e nem assim eu tive normal pq quando dilatei os 10 cm a minha bb subiu e mudou de posição então fui pra o cesariano e ocorreu tudo bem. Ja na segunda gestação apos 3 anos da primeira fiz meu parto humanizado e mesmo assim acabei indo pra cesariana de novo. Tudo tranquilo, tendo precisão no momento acho super aceitável."

Com esse comentário acho importante frisar que quando falamos de novos paradigmas para o atendimento de mães e bebês não estamos dizendo que cesárea é melhor que parto normal para todos os casos. As cirurgias cesarianas salvam vidas e quando bem aplicadas são mesmo não só aceitáveis como desejáveis. A discussão que se apresenta fala sobre modelo tecnocrata (onde se concentram a maioria das cirurgias cesarianas) X modelo baseado em evidências (que as pessoas tendem a chamar de parto humanizado, ou fisiológico). Há muita confusão nessa discussão, porque o atendimento baseado em evidências não significa, per se, um parto vaginal. Significa apenas que as melhores escolhas, baseadas na ciência, para respeito à saúde e bem estar de mulher e bebê foram adotadas. E, conforme matéria da Crescer e Campanha da Unicef, estamos trabalhando no sentido de alertar sobre os riscos das cirurgias desnecessárias.

Mas é muito bom que tenha feito este comentário para que fique claro que a opção por uma cesárea necessária é fundamental para resguardar o mais importante do processo de parir: o nascimento da criança, da mãe, do pai e de toda uma família.


"Conheço milhões de mulheres que tiveram cesarianas e nem um bebê tem problemas, não acredito nisso." 


Realmente, uma cirurgia cesariana desnecessária não é garantia de problemas. No entanto, ela aumenta a chance de ter problemas. É a mesma coisa que o tabagismo, ou hábitos alimentares baseados em junk food. Nenhuma dessas coisas garante que sua saúde será ruim, que você terá doenças ou problemas. Mas aumenta os riscos.

No caso da cirurgia cesariana, existem pontos importantes para a gente ter em vista. Quando um bebê não nasce pela cavidade abdominal ele perde o contato com a flora bacteriana da mãe, reconhecida atualmente como uma vacina natural, que coloniza o bebê vindo de um ambiente estéril e hermético (o útero) já ativando seu sistema imunológico. Tanto é que atualmente já se estuda a aplicação dos fluidos vaginais da mãe no bebê nascido por cirurgia, como forma de transferência microbial. Não devemos esquecer do uso de antibióticos precocemente que servirá para a modificação da flora bacteriana da mãe e de seu filho e das possíveis complicações oriundas disto.

A formatação epigenética dessa criança recém nascida é diferente, quando nascida por parto vaginal. Isso é um fato, não um boato. 

Estudos também comprovam o risco aumentado de doenças respiratórias, alérgicas, diabetes tipo 1 e obesidade em crianças nascidas por via cirúrgica. Isso significa que toda criança que nascer por cesariana será asmática? Não. Isso significa que o risco é aumentado.

Não podemos esquecer que o aleitamento materno, tão importante para a vida e sobrevivência deste bebê fica em risco de não acontecer ou de ser mais curto quando o contato da mãe com o bebe fica prejudicado desde o nascimento, como ocorre numa cesárea agendada, quando o bebe não esta preparado para nascer.

Quando falamos de saúde, falamos das questões individuais e também dos impactos coletivos das ações em larga escala. Em um país que concentra aterrorizantes 45% de nascimentos por vias cirúrgicas, as consequências para a saúde pública também não podem ser desconsideradas, principalmente usando como argumento casos isolados para descredibilizar essa necessidade de mudança de modelo. As cirurgias desnecessárias são um problema de saúde pública, antes de um problema individual.

Foto Wikipedia

"A pesquisa dos cientistas pode ate ser fato.... Mas NA MINHA OPINIÃO e por essa devoção por parto normal que mts mulheres ou bbs morrem em salas de parto, por insistirem numa coisa que não e o melhor pra eles por medo de não ter sido "mulher o suficiente" e ter que fazer uma cesaria... Quanto a recuperação não existe essa de PN ser mais rápida, eu fiz uma cesaria e no mesmo dia estava tomando banho, andando e cuidando sozinha do meu filho! E quanto a problemas de saúde.... Meu filho em oito meses nunca pegou nem resfriado!"

"Sinceramente, tenho muito mais medo de ficar 16 a 20 horas em trabalho de parto pra no fim fazer uma cesárea de emergência e meu bebe falecer como muitos casos em minha cidade."

É muito duro encarar essa realidade, mas o parto é um evento (talvez um dos poucos que temos a chance de experimentar) onde vida e morte caminham lado a lado, e uma delas vence. Na maioria das vezes, vence a vida. No entanto, há casos de morte materno-infantis que NÃO podem ser evitadas. Mesmo sendo feita uma cesariana.

Seja em um atendimento de parto via vaginal ou via cirúrgica, devemos aqui pontuar a competência técnica dos profissionais de atendimento ao parto - à mulher e ao bebê. Atualmente temos a construção de um imaginário de perigo em torno do parto vaginal . Confiar na natureza e perceber o corpo humano como capaz de parir e de nutrir sua cria ainda é feito por poucos profissionais de assistência ao nascimento e essa informação acaba não chegando a população com clareza.

Mesmo os relatos das mulheres de quatro ou cinco décadas atrás, quando a cirurgia cesariana ainda não era usada em larga escala, serão recheados de medos e indisposições. Pontualmente, a violência obstétrica contra a mulher e o recém nascido se expressa no parto normal de variadas formas, todas sem embasamento científico. Manter a mulher em posição deitada, proibir de comer ou beber água, fazer lavagem intestinal, raspar os pelos pubianos, muitas vezes, amarrar a mulher à maca. Empurrar a barriga, dirigir os puxos, ofender a mulher. Usar equipamentos e manobras perigosas, como a episiotomia ou o fórceps, entre outras situações muito difíceis, desagradáveis e desnecessárias muitas vezes. As mulheres passaram e passam por tudo isso ao longo da história dos nascimentos. Portanto há de se refletir que parto normal não significa atendimento humanizado, nem tampouco baseado em evidências. As práticas ruins estão também nesse universo. Tanto é que foi preciso especificar qual parto normal é esse : Parto Natural / Parto Humanizado .

Um pouco de cultura pop para ilustrar a questão: Recomendo que assistam à cena de parto de uma mulher na década de 50, retratado no episódio 5 da temporada 3 de Mad Man. Uma cena de atendimento ao parto dantesca, carregada de simbolismos e opressão, de quando se acreditava que o melhor modelo de atendimento seria manter a mulher semi-consciente à base de drogas, com muitas intervenções em um cenário desumanizante.


Depois, se tiverem interesse em confrontar as bases de um outro modelo de atendimento ao parto e ao bebê, assistam à série Call the Midwife, também na década de 50, mas que evidencia  a competência técnica e abordagem humanizante dos agentes de saúde, tratando o parto como um evento familiar e respeitoso (essa série é baseada nas memórias de uma parteira inglesa).

Existem muitos obstetras comprometidos com sua missão e vão garantir informação de qualidade. Mas compreendemos que para garantir o parto e o nascimento como rituais únicos fundamentais à espécie humana tanto física quanto emocionalmente, precisamos poder enxergar outras possibilidades deles ocorrerem, através de outros possíveis agentes do processo.

Parteira na Roma Antiga: foto da Wikipedia

"Eu nasci de Cesárea , meu irmão nasceu de Cesárea , minha mãe também Meu esposo também Meu pai , meus tios , vários dos meus primos e graças a Deus nenhum de nós apresentou problemas por isso ! E quando eu tiver meus filhos , sem duvida vai ser Cesárea !!!!"

Verdade, muitas pessoas que amamos nasceram de cesárea, isso não precisa impedir que a gente reflita sobre essa questão. Fica a reflexão: a quem serve essa cultura de ignorar que a cesárea desnecessária - mesmo que cientificamente comprovado - é um fator de risco para o bebê e para a mãe? 

Vamos relembrar que estamos falando de um modelo de atendimento e não de uma via de parto. Para os casos de bebês e mães saudáveis, nas gestações de baixo risco sempre é recomendado que essa mulher entre em trabalho de parto. É recomendado que os profissionais de saúde sejam tecnicamente competentes para partejar, e adotar as medidas estritamente necessárias para os desfechos positivos. É recomendado também que essa dupla seja atendida como os seres humanos que são, dignos de respeito e direitos. Estamos falando de coisas que protegem nossa condição humana, nossa vida, nossos filhos, para além do que provam as pesquisas. 

Um bebê que acaba de sair do ventre deve ir direto para os braços da mãe, e acreditem, é bem possível e desejável que seja inclusive aparado pelas suas mãos. 

O que vemos atualmente são bebês passando como peças de uma linha de montagem por toda uma sequência de procedimentos desnecessários e invasivos, enquanto suas mães são alienadas em uma sala fria de hospital.

O reconhecimento desses dois seres é um dos momentos mais pungentes da vida humana, e dia após dia, milhares de mães e bebês perdem o direito de se olharem pela primeira vez, livremente.

A amamentação na primeira hora é lei em diversas cidades do pais. Somos todos à favor de políticas públicas que promovam o bem estar do recém nascido e de sua mãe, no entanto é alarmante que precisemos legislar sobre algo tão óbvio quanto permitir que o mamífero recém nascido esteja em contato direto e irrestrito com sua fonte de vida e prazer. Não raro, problemas de amamentação podem ser advindos de experiências de parto traumáticas - ainda que socialmente validadas. Sabemos que qualquer interferência nesse primeiro encontro entre a mãe e seu bebe pode reduzir a chance da amamentação ser exclusiva e duradoura.

Imagem Wikipedia


Já existe o conceito de alojamento conjunto em diversos hospitais, no entanto o que vemos é que para facilitar a dinâmica do atendimento hospitalar em massa, e em especial em casos de cirurgia quando a "recuperação da anestesia" é usada como justificativa lícita, outros milhares de bebês e mães, que há poucas horas eram um só, são apartados em esperas intermináveis. Considerar a mulher como incapaz de cuidar da sua cria desde o nascimento, sem facilitar o contato entre mãe-bebe auxiliando nos cuidados, para deixar a mãe descansar do parto pode significar incapacidade dessa mulher em cuidar desde o começo. Ao invés de fortalecer o vinculo e qualificar a mulher como capaz, a consideramos sem condições.

Vemos berçários alimentando bebês com doses de glicose antes mesmo que tenham a chance de sugar o seio da mãe. Vemos bebês sendo mantidos aquecidos em caixas tecnológicas, enquanto são fisiologicamente projetados a regular sua temperatura à partir do corpo materno. Veja novamente, essa discussão está para além da via de parto. É sem dúvida, sobre jeito que nos tratamos como humanos.

O modelo de atendimento atual não prejudica apenas a saúde física das pessoas. Desrespeita também seus complexos psíquicos e emocionais. 

Vamos dar uma chance à humanidade, esse resgate é de suma importância.