segunda-feira, 21 de agosto de 2017

As evidências comprovam o que a gente já sabia: medicar a "cólica" do bebê tem baixa eficiência.

Falamos bastante por aqui sobre o choro do recém nascido.
Esse choro que chora nossas mágoas e cutuca em nós os cantinhos mais profundo das agonias.
Choro que costumamos chamar de "Cólicas do bebe"
Fica subentendido que existe uma dor no intestino do bebe e que seria necessário um remédio para saná-la.



Em nossa constante pesquisa e disposição para nos rever, sempre, recebemos uma atualização importante da área da ciência dentro dessa temática. Que confirma o necessário diálogo sobre a DESMEDICALIZAÇÃO da infância, desde os primeiros dias. Foi publicada na Cochrane uma revisão sistemática sobre os remédios para cólica. 

Antes de falar em conclusões, vamos entender um pouco a Cochrane.
É uma entidade que basicamente trabalha com revisão de artigos científicos. Apura os artigos sob um mesmo tema e oferece os resultados de forma sistemática, uma vez que a ciência, as pesquisas, esse conhecimento está em constante transformação. 


"A Colaboração Cochrane é uma organização internacional que tem por objetivo ajudar as pessoas a tomar decisões baseadas em informações de boa qualidade na área da saúde. É uma organização sem fins lucrativos e sem fontes de financiamento internacionais. Possui grupo diretor (Steering Group), com sede em Oxford, Reino Unido."



Os profissionais de saúde que atuam com base em evidências científicas bem como a população em geral tem muito a ganhar quando conhecedores dessas revisões. Não é à toa, que testemunhando a construção desse novo processo de ser e estar enquanto profissionais de saúde, vemos nos "humanizados" essa constante valsa entre o que é cientificamente comprovado e aquilo que trazemos de nossas culturas, nossas crenças, nossa bagagem humana. Puericultura, Humanidade e Ciência, não à toa também é o que norteia o projeto aqui no Blog do Cacá.

Voltando ao assunto do choro, vejam que interessante a revisão, que saiu em 2016!


Somente fitoterápicos parecem ajudar (um pouco) com as cólicas




O bebê é saudável mas não para de chorar: são as cólicas, que assombram e tiram o sono dos pais, principalmente nos primeiros quatro meses de vida dos filhos. Como aliviar essa dor? 

A Cochrane revisou 18 estudos que testaram diferentes tratamentos para as cólicas dos bebês: medicamentos, remédios baseados em plantas e outras estratégias. As pesquisas comparavam o uso dessas alternativas com placebo, ou seja, um remédio sem efeito, sem que os pais soubessem qual era qual, ou comparavam um remédio com o outro.

O trabalho mostrou que açúcar (sacarose), simeticona diciclomina e cimetrópio parecem não funcionar para as cólicas dos bebês, e que alguns fitoterápicos (medicamentos baseados em plantas) podem reduzir o tempo de choro. A diciclomina pode provocar efeitos adversos. Os fitoterápicos testados eram derivados das plantas Matricaria recutita, Foeniculum vulgare, Melissa officinalis. Porém, a qualidade dos estudos era baixa. As famílias ainda precisam aguardar a realização de mais estudos que possam trazer resultados mais positivos.







Me arrisco a dizer que somente mães, pais, profissionais de saúde comprometidos com a pluralidade desse olhar, dessa dança entre o que é científico e o que é humano parecem ajudar (um pouco) na construção de um contexto mais sadio, afetivo e acolhedor para nossas crianças em seus sentidos choros!

;) 

sábado, 12 de agosto de 2017

Os homens que eu amo e que eu amei

Eu era uma vez uma criança. Acho que gentil e delicada criança. Hora hostil e raivosa criança. Cabiam em mim muitas crianças que eu podia ser. Uma vez meu pai brigou com meu brother e eu meti um chute de botinha certeiro na sua canela. Coisa de criança eu acho. Coisas que meu pai já merecia !

Depois o tempo passou e eu não era mais aquele menino. De alguma forma a dúvida e os medos começaram a povoar os meus pensamentos. Me lembro dos sonhos terríveis e cruéis que começaram a vir, bem num tempo que meu pai resolveu ir embora e que a minha mãe começou a chorar e nunca mais parava. Nesse tempo eu nem sei quem eu era mais. Tentava ser criança, mas não havia mais lugar para mim.

Apareceu meu avô,  que era um homem forte e brincalhão e completamente descompromissado com minha história. Talvez descompromissado com a própria historia. Vivia e pregava liberdade, uma liberdade que eu nunca poderia viver e entender naquele tempo. Me lembro do sorriso largo e farto que não fartava a minha falta de amor.

Meus dois primeiros amores homens. Um que se foi e outro que não ficava. Acho que a primeira lição sobre o mundo masculino foi essa: vínculos fortes não fazem parte desse universo do ser homem! Ou se vincular é possível com uma imagem e não com uma pessoa.Tudo vivido como se nada tem que ser para sempre, alias sempre sempre acaba....

Uma história de amor maldito, mal vivido, desconfiado ou proibido. Amores impossíveis que eu tenho em mim. Moram numa parte em mim difícil, que mais nego e convivo, que aceito. Memórias gostosas de se ter sozinho. Escondido. Pensando em amor pelo pai ausente, pelo avô machista, pelos amigos que tive e que não pude dizer: -  Eu te amo.

Tinha um outro amor. Meu irmão. Meu irmão mais velho. Minha única e especial referência do que é ser homem. Meu único possível herói.

Dos lugares que vivi um afago , um quase gesto. Um gesto de carinho. Uma ternura e talvez uma sensação de amor, na presença deste amor e na necessidade de negá-lo. Gestos de carinho entre pai e filho, na experiência do que mais se aproximou de um gesto de amor, desconstruído por uma realidade de abandono. Tudo difícil e verdadeiro assim.

Lições de vida sobre o ser homem que ficaram maiores que as de ser pai. Tenho lembranças muito gostosas do meu pai presente e com sua ausência só consigo lembrar de um imenso vazio e de não ter pai, como duas pessoas que existem e são possíveis  em mim.

Além de não ter aprendido de fato a me cuidar, tendo a impressão que este cuidado do meu corpo, das minhas roupas, do que pertence a outros, cuidar do outro pode ser uma ameaça a minha masculinidade. Existo na impossível presença de um amor entre dois homens.No masculino só posso viver em ausência.

Fui fundo em investigar em mim uma masculinidade desaparecida. Uma masculinidade solitária que vive no talvez. No acontece pois faz parte da vida. No escuro lugar da falta de vínculo. De uma moral que só pode ser machista. Que nasce da desconsideração da necessidade do outro. Se eu não posso viver o amor , eu não posso falar sobre o meu amor por ninguém. Isso me põe em risco, e me da raiva e alimenta um lugar frio em mim e o ciclo do masculino se fecha e se termina em mim. Num imenso vazio frio.

Encontro no máximo solidariedade, nada de empatia ou coisa assim.Vida de companheirismo e nada de irmandade ou qualquer proximidade perigosa que nos exponha a ausência presente de um nada pai.

Meu aprisionamento nas próprias dores da construção de um adulto sem referências sobre o masculino. Vou ter que viver um masculino nada aprendido em casa. Entendo muitos homens/pais nesse lugar vazio de afeto. Procuro compreender que o masculino nos foi negado e merece ser curado em muitos de nós. Difícil saber que eu mereço amor. Que eu tenho amor.

Amorosidade e sexualidade se misturam no imaginário comum e se proíbem coexistir nas relações entre os homens nas populações dominadas por um olhar machista.

Cresci sem sequer refletir e conhecer o masculino em mim, que no máximo vinha com cara de privilégio por ser homem branco e que de fato nunca me ajudou a significar quem eu sou.
Assim como a maioria de nós meninos, adolescentes e homens assistimos o tempo passar.

De repente a surpresa.
Nasceu José!



Tive que olhar para esse lugar em mim. Não sei contar como vivi até o seu nascimento, mas algo parecido como um espectro e não como uma pessoa. Um masculino espelhado e não encarnado. Uma possibilidade e nunca uma verdade. Nasce a necessidade em mim de habitar um novo lugar, ao qual não pertenço. Mas não acho justo que o Jose tenha essa mesma historia para contar.

Me cobro muito uma cobrança que não conheço bem. Sei que ele merece amor e carinho, mas não sei o quanto posso dar. Me pego menino quando ele me empurra e diz "você não". Confirma um medo em mim de não ser capaz ou sequer necessário. Mas aí ele dorme comigo e eu sou herói outra vez. Trocar fraldas, ou banhos juntos, ou simplesmente um abraço e de repente sou todo potência. É um vai-vem de posso / talvez / não posso. Continuo procurando a paz.

Não sei se já me percebo em um novo lugar. Acho que começamos a descobrir várias paternidades e masculinidades na presença e não mais na ausência. Isso já é muito avanço. Não me sinto confortável em ditar regras do modo "Bom Pai"como jamais quis dizer a uma mulher como é a "Boa Mãe".Chega de clichês desfigurados de qualquer verdade que seja.

Mas sugiro que os homens possam se arriscar a conhecer em si outras possíveis paternidades e masculinidades, já que o esteriótipo anterior já não nos serve mais.Talvez nunca tenha servido. Só serviu a ausência e ao abandono que não quero viver mais.
Sem regras, mas com infinitas possibilidades.
Nasce um filho e se torna possível nascer um pai !



Paternidade e Masculinidade: "Não considero a hipótese de ter papéis definidos dentro de casa"

Por João Carlos

Paternidade e Masculinidade: O título desta reflexão surgiu de um convite do querido Cacá, amigo e pediatra dos meus filhos e de toda a família.

Fico feliz de não ser um especialista em nenhum dos temas, o que me dá a liberdade de escrever uma reflexão na primeira pessoa. Fico ainda mais feliz de viver no século XXI, período em que as “verdades” subjetivas dos outros não precisam mais ser acatadas. O que é masculinidade e paternidade? Certamente a minha experiência se parece com a de muitos e se difere da de tantos outros, e é assim mesmo.

Imagem da revista Elle 


Meu primogênito nasceu quando eu já acumulava 43 anos de vida e onze de casado. Parecia apenas mais uma etapa na vida, na relação, só que não (adoro o século XXI). Aprendi há pouco com a impressionante coach israelense, Shiri Ben-Arzi, o conceito de estado liminar. É um período em que deixamos de ser algo conhecido e ainda não somos algo novo. Uma cerimônia de formatura, o noivado são estados liminares. O estado liminar da primeira gravidez não me preparou em nada para o que veio depois, a paternidade.

Tornar-me pai, processo em que me encontro há cerca de dez anos e no qual devo permanecer até o fim da vida, mudou praticamente tudo na minha vida, desde as pequenas coisas, como ir com menos vontade à mostra de cinema, até as grandiosas, como a forma de pensar a vida, a saúde e a morte. A família tornou-se o centro da minha vida, o principal condicionante da minha agenda. Não precisa ser, é claro, mas para mim foi e é. 

Não creio que exista a forma melhor de ser pai. Ausente, presente, neuroticamente onipresente, cada um propicia um conjunto de experiências a serem depuradas pela prole em meio a outras tantas influências, resultando em um legado que é deles, os filhos, não nosso. Logo, mantenho minha forma de ser, torcendo que o legado seja positivo (seja lá o que for um legado positivo). Em momentos perco as estribeiras, em outros ouço com atenção. Em momentos sou 100% presença, em outros peço que “me deixem trabalhar/conversar/ir ao banheiro.. em paz”.

Ouvi que ser pai/mãe é como jogar vídeo game, cada nova fase é mais difícil que a anterior. Não é a minha experiência. Cada dia tem se tornado mais natural e fácil que o anterior. Às vezes temos que lidar com grandes novidades, nem sempre boas, como correr para um pronto socorro, mas a média é um dia a dia cada vez mais simples e interessante. Ou seja, a paternidade se torna parte da minha forma de ser, junto com a carreira, a vida social, a vida afetiva...

Em parte, tento influenciar a vida de meus filhos, manifestando meus valores em atos e palavras. Eles que se virem para interpretar e formar seus próprios valores. E se forem muito diferentes dos meus? Não sei. Se vier a acontecer, espero ter a serenidade de perceber e conseguir buscar um equilíbrio.

Já a masculinidade, o que diabo é isto? Há tantas masculinidades a nosso redor. Desde o assassino que mata a Dandara a pauladas até a própria Dandara (será que ela concordaria comigo?) Adoro ser como sou, com todas as imperfeições e qualidades que tenho. Nada contra outras formas de ser, mas não considero a hipótese de haver papeis definidos dentro de casa. Se falta comida, vou ao supermercado, compro e faço. Se a Irene está com vontade de cozinhar, desfruto e, eventualmente, elogio a comida. Se nenhum dos dois esta a fim, sempre há lugares para se comer fora de casa. O mesmo pensamento vale para o envolvimento com a educação dos filhos, com a arrumação da casa, com os investimentos, com a alocação de tempo. Em alguns casos é necessário negociar, em outros é recomendável, em outros basta comunicar ao outro, em outros nem comunicar é preciso. Somos indivíduos compartilhando grande parte de nossas vidas.

Ainda há a masculinidade exercida fora da família. Sigo sem me apegar a rótulos e papéis pré-definidos. Para mim, no masculino cabe quase tudo que cabe no feminino, exceto o papel principal na concepção. Se você discorda, ótimo, teremos assunto para longas horas de conversa.

Dito isto, em que a paternidade afetou a masculinidade? Certamente a enriqueceu com experiências novas e marcantes. Exacerbou algumas facetas, como a participação dentro de casa, suavizou outras, como o papel do trabalho na vida, e não mudou a essência.

Feliz dia dos pais

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Paternidade e Masculinidade: "Solitário, como um menino"

Por Thiago Cascabulho

A paternidade é um mundo...
Mas, definitivamente, um fato.
Um jato que mirando o céu, descontrolado,
Volta-se para o outro lado, o seu,
E em ti penetra de dentro para dentro.
Assim uma paternidade cresce no meu centro.
Gestaciono-a solitário, como um menino
A esconder a bola sob a camiseta...
O que ela espera de mim e eu dela?
Nada além da banal liberdade
A qual desfrutam as borboletas amarelas.

Arte de Susan Spiritus